Ministério da Cultura apresenta
A escritora cearense Natércia Pontes (Divulgação)

A FEIRA DO LIVRO 2026, Literatura brasileira,

Ferida aberta

Em narrativa fragmentada, Natércia Pontes investiga o abandono de si com uma protagonista que acompanha a vida de uma blogueira

24abr2026 • Atualizado em: 27abr2026 | Edição #105

Uma mulher por volta dos cinquenta anos vive sozinha com seu gato em uma quitinete no centro de São Paulo. Ela se chama Jocasta, o gato se chama Argos Panoptes — nomes sugestivos que, como muitos elementos do romance, parecem convocar o leitor a perscrutar o subtexto. Jocasta está escrevendo um livro de contos, o que consome a maior parte dos seus dias reclusos. Quando não está escrevendo, se aninha no sofá verde-maçã, um dos poucos móveis da sua casa, para assistir aos vídeos de uma jovem que registra no YouTube os rituais da vida de dona de casa.

Esse é o universo de Vida doçura, segundo romance da escritora cearense Natércia Pontes, que sucede Os tais caquinhos, publicado em 2021. Nos dois, dá para sentir uma afinidade pela desordem, tanto a que caracteriza os ambientes domésticos predominantes nas histórias quanto a de um tipo estrutural, que compõe o texto. A autora tem um estilo cru e visceral e uma predileção pelos fragmentos, que embaralha e encadeia de acordo com elos sonoros e sensoriais.

A história é dividida em três partes: Tela, Espelho e Lente. Cada uma delas é segmentada em uma porção de linhas temporais, que poderiam ser agrupadas em cinco eixos: o presente, em que Jocasta escreve e observa a vida de Jovana, conduzido em terceira pessoa; o passado de Jocasta reconstruído em sua escrita, em geral narrado em primeira pessoa; os sonhos de Jocasta; a escrita de Jocasta como forma de tentar se aproximar do olhar da mãe, morta quando ela tinha sete anos; e os seus pensamentos, desencadeados pela escrita ou pelas goladas de vinho barato, bebida que é basicamente a sua fonte principal de alimentação.

A grafia do nome “Jovana” também é sugestiva da ligação com a protagonista, que é a princípio um vínculo por contraste: Jovana vive na periferia, Jocasta, no centro; Jovana mantém sua casa cor-de-rosa sempre arrumada, Jocasta vive num apartamento decadente e desordenado; Jovana tem uma filha e um marido, Jocasta é solitária e carrega a profunda ferida pela morte da mãe; Jovana se expõe na internet, Jocasta se esconde da vida.

No presente, assistir aos vídeos de Jovana deixa de ser o suficiente. Ela, então, premedita formas de invadir a vida da jovem para instaurar um pouco de bagunça naquilo que é tão calculado a ponto de ser incompatível com a existência real; ou para se apoderar de alguns objetos, voltar ao computador e observar os efeitos do furto na vida de Jovana. Esse jeito de acompanhar os vídeos tem um quê de deboche e esnobismo, mas eventualmente envolve alguma ternura, sobretudo quando vê cenas entre mãe e filha.

Buraco

O luto não tem uma temporalidade cronológica, não está destinado a se atenuar com o passar dos dias — na verdade, não há garantia de que uma perda vá um dia ser apaziguada. No caso de Jocasta há uma agravante: sua mãe se suicidou e, junto à perda, há um insanável não saber — não saber o que levou à decisão irreversível, não saber como se pode viver carregando um buraco tão fundo no peito.

O suicídio da mãe é uma espécie de terceira separação: a primeira é o parto; a segunda se dá quando a protagonista, ainda pequena, vai viver em Fortaleza, sob os cuidados da tia, enquanto a mãe fica em Brasília. Os devaneios e a escrita de Jocasta se concentram nessas camadas de separação — o corpo, o cuidado e a morte — e interrogam o passado de modo tão obsessivo que, no presente, não resta muito além da distração que encontra ao espionar a vida de Jovana.

Jovana tem uma família e se expõe na internet, Jocasta carrega a ferida pela morte da mãe e se esconde da vida

Há momentos em que ordenar as palavras em uma frase parece ter a intenção de congelar o tempo e, assim, reviver alguma memória compartilhada com a mãe; em outros, a de se aproximar dela através de quem foi como mulher, atriz, diretora de teatro. Também há situações em que a escrita é enderaçada e os contos de Jocasta viram quase cartas à mãe e à tia.

A construção em fragmentos, dessa ótica (os títulos dos capítulos, aliás, fazem referência a artefatos que medeiam a visão), se justificaria pela descontinuidade, tanto da memória quanto das rupturas na vida de Jocasta. Ou ainda pela restrição da sua capacidade de observação, que tenta compensar com a imaginação e o desejo de dar um significado àquilo que não foi compreendido.

Bagunça

Há cinco anos escrevi para a Quatro Cinco Um uma resenha de Os tais caquinhos, destacando o frescor e a graça com os quais a autora dava vida aos vínculos que uniam os membros de uma família excêntrica. É uma história sobre o convívio, conduzida pelo modo aventureiro e temerário como uma adolescente descobria o mundo, e a bagunça tinha uma função narrativa: era um traço característico da casa onde vivia, mas, quando atingia a desmesura, surgia uma urgência de contenção — não só da desordem do espaço, mas também daquela que encobria uma dor velada da família.

Ainda que se note bem a voz de Natércia Pontes, Vida doçura é diferente; é menos narrativo e talvez mais conceitual, até porque há um livro dentro do livro (a coletânea de contos de Jocasta) e o próprio ato de escrever desempenha um papel importante, o que é ressaltado pelo destaque a como a protagonista escreve — à máquina, no computador, a lápis. Sendo a escrita tão central, a impressão é que ela se sobrepõe ao que é contado.

A escrita e a forma como Jocasta concebe seu livro são a única fonte de impulso vital e contrapressão ao seu abandono, reafirmado, sempre que a protagonista entra em cena, com a ênfase na quantidade de cigarros que fuma e de vinho que bebe, na sua prisão de ventre e nas suas cáries. Observar a vida de Jovana também é outro modo de se abandonar: deixar a vida escorrer, enquanto o olhar vidrado acompanha a rotina editada de uma desconhecida, é uma expressão bem contemporânea de tristeza e sensação de deriva.

Vida doçura parece mais querer comunicar a existência de sofrimentos insistentes e tenazes do que contar uma história sobre como essa dor penetra na vida cotidiana. A bagunça exterior e a interior se assemelham às bases de uma premissa: a dor que uma filha carrega pelo suicídio da mãe é insuperável e, diante dela, restaria só a arte como recurso. Já a protagonista, a blogueira (no limite da caricatura) e o enredo soam como comprovação dessa premissa.

Quem escreveu esse texto

Iara Machado Pinheiro

É crítica literária, doutoranda em letras pela USP.

Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “Ferida aberta”