A FEIRA DO LIVRO 2026, Literatura,
O embate entre Eros e Tânatos
Em Caos calmo, Sandro Veronesi desce ao inferno da perda e do luto e retorna ao mundo dos vivos com um corpo pulsante
01maio2026 • Atualizado em: 29abr2026 | Edição #105Sandro Veronesi, convidado d’A Feira do Livro 2026, é um dos escritores mais interessantes da atual produção literária italiana. Toscano, nascido em Florença e criado na pequena cidade de Prato, publicou mais de vinte obras que incluem romances, contos, ensaios e textos jornalísticos, e é um dos únicos dois autores (o outro é Paolo Volponi) a conquistar por duas vezes o Strega, a mais prestigiosa premiação da literatura italiana: a primeira em 2006, justamente pelo romance Caos calmo, e a segunda por O colibri (Autêntica Contemporânea, 2024).
É uma boa notícia que os livros de Veronesi voltem a estar à disposição de leitores brasileiros. A Rocco foi a primeira a apostar no autor no início do milênio, lançando A força do passado (2003, trad. de Roberta Barni), cuja edição original venceu na Itália os prêmios Viareggio e Campiello, e em seguida Caos calmo (2007) e XY (2011), traduzidos por Gabriel Bogossian. Os livros foram sumindo das livrarias ao longo dos anos, ficando relegados aos sebos. Agora, mais de duas décadas depois, voltam através das edições cuidadosas da Autêntica Contemporânea, em novas e ótimas traduções de Karina Jannini.
Os dois romances premiados pelo Strega foram adaptados ao cinema. Caos calmo chegou às telas em 2008 com direção de Antonello Grimaldi, contando com a excelente interpretação de Nanni Moretti como protagonista. O livro projetou Veronesi para outro grau de reconhecimento, com um romance em que são delineadas algumas obsessões que o autor carregará em outras obras. Deparamos sempre com protagonistas profundamente voltados para a vida interior, desdobrando-se sobre suas questões de forma bastante neurótica, mas também encantatória, estabelecendo assim uma ponte entre personagens e leitores.
Veronesi não faz segredo de sua paixão pela psicanálise, frequentador assíduo de um divã há mais de uma década: suas especulações literárias são sempre atravessadas por uma forma de pensar que transita pelo campo psicanalítico — no caso de Caos calmo até criando um personagem cuja capacidade de escuta é fundamental para o desenvolvimento do enredo. Não é difícil identificar em seus romances aquilo que o próprio autor citou quando esteve na Flip, no ano passado, como uma escrita de “auto-imaginação”, e talvez por isso reafirme a obsessão em incluir sempre a mesma epígrafe, de Samuel Beckett, em seus romances: “Não posso continuar. Continuarei”. Essas são as palavras de ordem de seus personagens, mote que abre caminho e ilumina o movimento dos protagonistas.
Força rara
As histórias de Veronesi contemplam não apenas a irrupção de fatos inesperados e muitas vezes traumáticos que redistribuem as cartas do jogo, mas também a expectativa de que algo dessa magnitude volte a acontecer: de certa forma, esta é a prisão em que se encontra Pietro Paladini, um homem de 43 anos, após a morte inesperada de sua companheira, que estava sozinha em casa com a filha e a babá no mesmo momento em que ele nadava para salvar a vida de uma desconhecida, quiçá — se pergunta o protagonista — também uma esposa, uma mãe, uma irmã. O familiar é o âmbito em que essas forças se tornam mais viscerais e verdadeiras, mantendo a própria ambivalência dos sentimentos.
O romance começa com uma cena de força rara. Pietro Paladini e seu irmão salvam, cada um, uma mulher que se afogava no mar. Cena que cria uma imagem quase especular, na qual irmãos tão diferentes se reencontram, passam alguns momentos de distração juntos e se veem diante da morte, salvando, ao mesmo tempo, duas mulheres prestes a morrer afogadas. Não há heroísmo nenhum na cena: após o salvamento, as pessoas que se encontravam na praia parecem nem sequer dar reconhecimento aos irmãos que arriscaram a própria vida no resgate. Contudo, é nessa brilhante abertura que Veronesi semeia o embate simbólico entre Eros e Tânatos que perpassa o romance e sua descida ao inferno da perda, da melancolia e, em última instância, do luto.
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Enquanto Pietro segura pelas costas a mulher que ele está salvando para conseguir nadar de volta à praia — e ela o arranha, parecendo querer levá-lo ao fundo do mar —, ele percebe ter, à sua revelia, uma ereção inesperada. Essas sincronicidades entre vida e morte já estavam no romance O colibri, mas com a reedição e a retradução de Caos calmo é possível adentrar um pouco mais no pensamento do escritor, sempre atento a esses movimentos opostos e complementares.
Melancolia é aquele estado em que o sujeito não perde só o objeto amado, mas também algo de si mesmo
Caos calmo é, no fundo, um romance sobre o luto, mas o que Veronesi descreve com precisão não é a ruptura dramática, e sim a melancolia. Diferente do luto, que pressupõe elaboração e um certo arco de resolução, a melancolia é aquele estado em que o sujeito não perde apenas o objeto amado, mas também, junto a ele, algo de si mesmo, muitas vezes sem saber exatamente o quê, e é nessa maré de caos calmo que nos inserimos, leitores, ao lado de Pietro. O protagonista não perde só a companheira: perde a vida que estava prestes a começar, o casamento que nunca aconteceu, uma versão de si que nunca existirá.
Pietro vem de uma família rica e ocupa um cargo de prestígio. Eis o perfil de um homem que, na narrativa social dominante, deveria saber exatamente o que fazer. Porém, diante da perda, ele trava e faz uma escolha inusitada nos tempos acelerados em que vivemos: decide parar, se sentar todos os dias num banco de praça em frente à escola da filha, Claudia, esperando-a. O gesto começa como uma promessa feita à menina: “ei, eu vou te esperar aqui […] até às quatro e meia quando você sair, não vou me mover daqui”.
O que parece se apresentar como uma âncora de rotina para a filha logo é entendido como uma relação inversa: é a pequena Claudia quem ancora o pai, e não o contrário.
Masculinidade
Talvez ainda envolto em sua melancolia paralisante, Pietro estanca, mas aos poucos começa a ver que a vida jorra ao seu redor: mães, crianças, professoras, baristas, transeuntes com seus cães, vizinhos, cada um carregando o próprio fardo. Há uma especulação sutil da masculinidade, outra constante na obra do autor em seu empenho de autoinvestigação através dos personagens; deparamos com homens que chegam ao limite de si mesmos e se descobrem sem as ferramentas que julgavam ter.
Enquanto isso, o mundo profissional não para de demandá-lo. Chefes novos chegam com propostas, cargos e benefícios que seriam irrecusáveis para qualquer executivo em sua posição. Pietro deixa tudo cair. É uma renúncia ao poder, ao domínio, à lógica de ascensão que ressoa com a mesma força de sua imobilidade física. Parar diante da escola é também uma forma de dizer não ao ritmo que até então definia sua existência.
Entre as novas configurações das relações de Pietro nesse novo cenário escolhido (a pracinha em frente à escola da filha), as personagens começam a orbitá-lo, chegam até ele no banco da praça, para conversar. Entre escutas e observações, ele também volta a ter contato com Eleonora, a mulher que ele salvou do afogamento. E aí irrompe outra vez o inesperado (ou talvez esperado?), desta vez na forma de um erotismo consentido. O que irrompeu involuntariamente durante o salvamento no mar reaparece agora, com força e crueza. Um encontro com certo excesso que parece devolver a Pietro a sua corporalidade e a sua presença no mundo, encarnando-o e resgatando-o de uma posição mais melancólica. Eis que o corpo, um tanto anestesiado até então, volta a pulsar.
Veronesi diz com isso que a vida não retorna por vias óbvias, nem mesmo apenas através do pensamento e das especulações neuróticas. A partir desse momento, Pietro finalmente consegue emprestar sua escuta também à pequena Claudia, que manifesta constrangimento por continuar vendo-o imóvel diante da escola, atribuindo isso à zombaria dos coleguinhas: “você sabe como são as crianças”, diz ela, “cruéis”. É com essa observação aparentemente simples que Claudia libera o pai. A criança que ele acreditava estar protegendo é quem, ao fim, o resgata. O carro parte. E fica a sensação de que Pietro, ao imobilizar-se, encontrou o único movimento possível, aquele que a epígrafe de Beckett anuncia desde o início: não posso continuar, continuarei.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “O embate entre Eros e Tânatos”
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30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita
A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.
A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.
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