Ministério da Cultura apresenta
O escritor e crítico literário mineiro Silviano Santiago (Nikolas Candido/Divulgação)

A FEIRA DO LIVRO 2026, Biografia,

No encalço de Silviano Santiago

Em Presente do acaso, o biografado dita o rumo do biógrafo, que narra a saga de um repórter obstinado e a vida nada ordinária de um escritor

14abr2026 | Edição #105

Nascido em 1936, na cidade de Formiga, centro-oeste de Minas Gerais, Silviano Santiago completa, em setembro, noventa anos. Com mais de trinta obras publicadas e um prêmio Camões no currículo, ele “odeia se repetir”. “Assim, já foi Graciliano, Stella, Artaud ou Machado. Já foi até mesmo Silviano”, conta o jornalista João Pombo Barile logo nas primeiras páginas de Presente do acaso: um ensaio biográfico sobre Silviano Santiago

Não se trata de uma biografia clássica, tampouco de autobiografia. Instigado por Santiago a encontrar a própria voz e sair do lugar de narrador oculto, Barile optou por revelar os bastidores da suada apuração. O resultado é um livro saboroso, fácil de ler, em que acompanhamos a saga de um repórter obstinado e a vida nada ordinária de um consagrado escritor. “Só posso falar depois que você encontrar o narrador. Se você não sabe por onde começar, não é possível prosseguir”, avisou, de saída, o biografado, impondo ao biógrafo sua obsessão: o foco narrativo. “A cada novo livro, um novo narrador.” 

O jornalista João Pombo Barile (Camila Coutino/Divulgação)

Há mais de uma década, os dois, Santiago e Barile, cortejavam-se, ora trocando e-mails, ora encontrando-se. Mas a conversa só ficou séria no dia em que, às 8h da manhã, numa esquina de Copacabana, encontraram-se para irem juntos, pela primeira vez, ao apartamento-biblioteca de Santiago, em Ipanema. Os ecos da pandemia ainda assombravam, e o refúgio na rua Antônio Parreiras parecia um tanto abandonado. 

“Centenas de livros, distribuídos por todo o imóvel de dois quartos, o acervo ocupa até mesmo a cozinha e a área de serviço”, conta Barile. Na parede defronte da escrivaninha de trabalho, Barile avistou uma fotomontagem de Formiga, que o remeteu imediatamente a uma das obras ficcionais de Santiago, Uma história de família (Rocco, 1992): “Você sabia, tio Mário, que tenho uma fotografia não da sua Pains, mas da minha Formiga dos anos 1930 na parede?”. A vida acética do mineiro também se fez notar. Conforme tratou de explicar: “Nunca quis que aqui fosse confortável. Para não virar uma segunda casa”. 

O narrador assume sua relação afetiva com o personagem, recusando a ilusão da neutralidade

A ideia do narrador implicado na narrativa, claro, não é nova. Além do diálogo com o New Journalism, Presente do acaso se inscreve numa tradição ensaística em que o narrador assume sua posição e, sobretudo, sua relação afetiva com o personagem, recusando a ilusão da neutralidade. Muitos autores navegaram por essas águas, cruzando fronteiras invisíveis. 

Em Roland Barthes por Roland Barthes (Estação Liberdade, 2018), o francês escreveu sobre si mesmo como personagem, questionando até a ideia de verdade biográfica. Em Os anéis de Saturno, de W. G. Sebald (Companhia das Letras, 2010), o narrador caminha, observa, lembra, comenta, lamenta. Já no clássico A mulher calada: Sylvia Plath, Ted Hughes e os limites da biografia (Companhia das Letras, 2012), Janet Malcolm se intrujou no texto como consciência crítica. Por fim, figura no time de experimentadores o próprio Santiago. 

Na sua obra, ele antecipa em décadas o debate sobre autoficção. Caminha com elegância entre testemunho, invenção e crítica. Em liberdade, publicado em 1981, por exemplo, era um diário imaginário, baseado em sólida pesquisa, de Graciliano Ramos. Machado, de 2016, combinou ensaio crítico e imaginação literária, com um narrador onisciente, mas reflexivo. 

Armários

“Fique tranquilo. Temos tempo”, aconselhou Santiago na conversa inaugural com Barile: “É preciso, antes de tudo, achar a forma. Você está acostumado com texto de jornal. Aqui é diferente. […] Tudo pode entrar nesse livro. Inclusive isto: a dificuldade do começo”.

Desde o início, uma dinâmica se estabeleceu: Barile corria atrás de fragmentos — cartas, fotografias, notícias de jornal, documentos de arquivos públicos e privados — e enviava a Santiago, por e-mail ou WhatsApp. Para a alegria do autor, o quase nonagenário manejava o “zap” muito bem, respondendo rápido, sempre adentrando em algum armário da memória, reavivada pela mensagem. 

“A primeira imagem que lhe mandei, para testar sua intimidade com o aplicativo, foi um papel solto, que encontrei na biblioteca da rua Antônio Parreiras.” Era um textinho curto, em espanhol, que, na opinião de Barile, antecipa em quase quatro décadas o tom de Menino sem passado (2021), romance atravessado pela memória — e pela falta dela. A mãe de Santiago, Noêmia Farnese, morrera quando ele tinha apenas um ano e meio. Deixou mais seis filhos. Viúvo, o pai, Sebastião Santiago, afamado cirurgião-dentista de Formiga, casou-se de novo, com a professa Jurandy Cabral. Logo viriam mais quatro irmãos. 

Silviano durante o verão que passou em Stanford (Arquivo pessoal/Silviano Santiago/Divulgação)

Santiago não gostou — e deixou claro que não tolerava associações rápidas entre vida pessoal e obra. “É preciso evitar respostas esclarecedoras, mas falsas. Acho que a gente vai ter que evitar o tom convencional das biografias”, avisou mais uma vez. Demonstrando obstinação de saída, Barile não desistiu: 

Meses depois da nossa conversa sobre o doutor Sebastião, mandei um e-mail a Silviano, no qual voltei ao tema do pai. Contei que muitos da família Santiago com quem eu havia conversado se lembravam bem de um verso do poema “Pai”, do seu livro Crescendo durante a guerra numa província ultramarina, que termina assim: “Cultiva flores do jardim e esquizofrênicos em casa”. 

A resposta não tardou: “As figuras familiares não entram no meu universo pela porta da experiência cotidiana”, devolveu Santiago. E ainda: 

Neste contexto, destaco a figura do pai. Criança, nem sentia sua presença física. Muito trabalho no consultório, muitos filhos e certo desamparo na vida que me desemparava ainda mais na orfandade prematura. Tinha prazer em ficar ao seu lado, sentado no chão, quando lia os jornais ou escutava as notícias do dia no rádio. Retrospectivamente: vejo-o sempre a cuidar das rosas no jardim. 

Quebra-cabeça

Ao fim das 344 páginas, juntando as peças do quebra-cabeça, Presente do acaso traz um retrato honesto de Silviano Santiago. Entre a cidade de Formiga e o mundo, sempre no encalço do escritor-professor, o período em Belo Horizonte é determinante. Corria o ano de 1947 quando a família Santiago se mudou para a capital mineira. BH era então uma festa, administrada pelo prefeito Juscelino Kubitschek. O jovem arquiteto Oscar Niemeyer andava pela cidade, semeando o modernismo, em obras de concreto no entorno da represa da Pampulha. 

Adolescente, coube a Santiago disputar uma vaga no concorrido Colégio Estadual e trabalhar atrás do balcão na nova loja do pai, a Dental Santiago. Aos poucos, no entanto, as coisas foram acontecendo e, em 1952, ele entrou para o Centro de Estudos Cinematográficos, o CEC, comandado pelo jornalista e poeta Jacques do Prado Brandão, que o infectaria com cinema e boa literatura. O modesto cineclube contava com uma máquina de projeção de 16 milímetros e cadeiras sem estofamento, e os filmes eram projetados num lençol branco. Ali, Santiago viu tudo: os clássicos norte-americanos e italianos, além da filmografia da vanguarda francesa. 

Algo muito interessante acontecia na BH dos anos 1950 e Santiago estava no lugar certo, na hora certa

No CEC também fez dois amigos para a vida inteira: Maurício Gomes Leite, que logo se tornaria um renomado crítico de cinema, e José Ezequiel Moreira Neves, futuro jornalista e produtor musical. Juntos integraram aquela que viria a ser conhecida como Geração Complemento. A Complemento era a revista cultural que o trio lançou, juntamente com outros nomes da fértil BH. De fato, algo muito interessante acontecia na cidade e Santiago estava no lugar certo, na hora certa. 

Silviano Santiago (o terceiro a partir da esquerda) no lançamento da revista Complemento,
em 1955, em Belo Horizonte (Arquivo pessoal/Silviano Santiago/Divulgação)

A cena literária reunia nomes como Vanessa Neto, sobrinha de Lúcio Cardoso, Autran Dourado, Francisco Iglésias, Murilo Rubião, Pedro Nava, Carlos Drummond de Andrade, Henriqueta Lisboa, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino. Alguns já moravam no Rio, outros permaneciam, porém todos, uma hora ou outra, circulavam pelos cafés do Centro. “Havia um clima de boemia endinheirada e descontraída, competitiva e maledicente”, como descreveu Santiago em Mil rosas roubadas, de 2014, em que retornou aos anos de formação. 

Glauber Rocha esteve em Minas pela primeira vez em 1957 e deu uma palestra no CEC. Ao descrever a cena mineira, em carta transcrita em Presente do acaso, o cineasta baiano resumiu a turma que pariu Silviano Santiago: “Bebo há quatro dias e estou doente. grande turma. Muito veado. Muita gente séria. Muita mulher feia. Muito concretista. Muita sofisticação. Muita Inteligência”.

Quem escreveu esse texto

Karla Monteiro

Jornalista, é autora da biografia Samuel Wainer: o homem que estava lá (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “No encalço de Silviano Santiago”

Feira do Livro 30 de maio–7 de junho Praça Charles Miller, São Paulo Entrada gratuita

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização voltada para a difusão do livro no Brasil, da Maré Produções, empresa especializada em exposições de arte, e do Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet.

A edição de 2026 tem patrocínio ouro do Mercado Livre, da Motiva e da Prefeitura de São Paulo e prata do Itaú e Laranjinha Itaú. Juntos, os patrocinadores reforçam seu compromisso com o acesso à cultura, à leitura e à democratização do conhecimento. Conta ainda com o apoio do Pinheiro Neto Advogados, do Instituto Ibirapitanga, do Enjoei e da Companhia das Letras, além de parceria institucional da Livraria da Travessa, do Mercado Livre Arena Pacaembu, da SP Livro, do Museu do Futebol, junto à Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado de São Paulo. O evento também tem o apoio institucional da Embaixada da França no Brasil, do Instituto Camões, da Arco Educação, do Ministério das Relações Exteriores do Uruguai, do Instituto Ramon Llull, da Gráfica Viena, da Chambril, da Kiro, da Frida & Mina, do INNSiDE by Meliá São Paulo Higienópolis, do Ernesto Tzirulnik Advocacia, da Ecooar, da ArPa, da ,ovo e do Bubu restaurante. A visibilidade e a difusão d’A Feira do Livro 2026 são ampliadas por meio de parcerias de mídia com a Quatro Cinco Um, Folha de S. Paulo, UOL, TV Brasil, Rádio Nacional, JCDecaux, Piauí, CartaCapital, Mídia Ninja, Nexo, Gama e PublishNews, que potencializam o alcance do evento.

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