Poesia,
História, persistência e talento
Antologia com trinta poetas nacionais, do Brasil Colônia ao século 21, revela como essas mulheres provocam fissuras no status quo
20mar2026A publicação de Inesquecíveis: quatro séculos de poetas brasileiras é um ponto de amarração importante no projeto editorial da Bazar do Tempo. Organizada pelas escritoras e pesquisadoras Ana Rüsche e Lubi Prates, a antologia se insere no conjunto de obras e promoções culturais através das quais a editora privilegia o debate e a difusão do pensamento crítico articulado em obras de autoria feminina.
A antologia divide-se em quatro partes que abrangem, respectivamente, a poesia escrita por mulheres nos períodos do Brasil Colônia, do Brasil Império, do Brasil República (até 1940) e do Brasil pós-1940. O índice remissivo e as referências bibliográficas completam a estrutura do livro, fornecendo dados que permitem ao leitor, especializado ou não, avançar nos estudos sobre a atuação fundamental das mulheres na literatura brasileira. Esses aportes, complementados por análises das organizadoras da antologia, perfis biográficos e seleta de poemas, revelam a confluência de pensamento entre mulheres que conformaram no patrimônio literário do país uma visão de mundo libertária.
Considerando essa moldura, as organizadoras destacaram textos e poetas que dialogaram com seus respectivos momentos histórico-sociais e as tendências literárias vigentes. Do século 18 às primeiras décadas do século 21, as poéticas tecidas por mulheres desenham uma cena complexa, que tensiona a estrutura do cânone literário nacional, ora reiterando, ora discordando de heranças provindas do romantismo, do realismo ou das experimentações modernistas.
As poéticas se destacam pelo aspecto híbrido, quimérico, prestes a dizer o não dito
Em linhas gerais, as pesquisas e as edições sobre a escrita articulada por mulheres — tal como ocorre com as literaturas dos povos originários, das autorias trans e da diáspora africana — apontam para uma outra história da literatura brasileira posta em confronto com a versão canônica circunscrita à dominância de autorias masculinas. Essa perspectiva vê espelhados na cena literária os conflitos que restringem na cena social a visibilidade de certos grupos e indivíduos excluídos por força da misoginia, do racismo, da transfobia e outras formas de violência entranhadas na sociedade. A partir dessa perspectiva as organizadoras explicitam seu objetivo, levando em conta sua própria inserção nesse cenário:
Sendo nós duas também poetas, realizar um trabalho de recuperação da obra de mulheres na poesia brasileira faz emergir perguntas incômodas sobre como será o futuro daquelas que escrevem hoje.
Na expressão “grandes esperanças e afetos furiosos” empregada por Rüsche e Prates subjaz uma intenção política, amalgamada à crítica literária, que implica a escolha de uma ação (pesquisar e partilhar um saber sobre mulheres poetas); o pacto sensível com uma coletividade (mulheres de ontem e de hoje, pesquisadoras, leitoras interessadas em amplificar o espaço de seus diálogos); e a formação de uma consciência que resulte na inclusão da escrita de mulheres na vida dos leitores e leitoras.
Referência imaginativa
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Outras expressões como “recuperar”, “escavar” e dar “atenção às entrelinhas de poemas” revelam a ação contumaz de autoras que contestam a legitimação de obras baseada em privilégios de classe social e poder econômico; a restrição de espaços de circulação devido à proposição de ideias que destoam dos gostos literários impostos pelo mercado; e, por fim, a limitação do acesso às experimentações estéticas realizadas por mulheres nos diferentes âmbitos artísticos.
A leitura de Inesquecíveis evidencia que a literatura não realiza por si só as transformações necessárias para a edificação de um mundo mais justo, embora forjada por um complexo arsenal de temas, formas e um desejável relacionamento com o público. Porém, quando essas mudanças ocorrem, a arte em geral e a literatura em particular se estabelecem como referências imaginativas da vida e dos vínculos humanos para além do tempo histórico.
Os cem poemas de Inesquecíveis foram escritos por trinta mulheres de múltiplas procedências étnicas e sociais e de diferentes fases da história literária brasileira. Esse conjunto representa um acervo em construção, uma vez que, a par dos nomes citados, os nomes ausentes sinalizam um vasto território a ser percorrido por quem se interessa pelas interações e pelos conflitos inerentes à história da literatura. A antologia se configura como um convite à descoberta dessas poéticas que, no dizer de Maria Lúcia Alvim, são como “árvore-corpo/ pojando” num perspicaz desafio aos leitores.
Os poemas selecionados, de consistente teor lírico, mostram como as poetas se empenharam para superar estereótipos relacionados às mulheres. Ao enfatizarem esse intento, compuseram um painel no qual as características individuais provocam fissuras nostatus quo das cenas social e literária, tanto no caso das poetas do passado quanto no das contemporâneas. Suas poéticas se destacam pelo aspecto híbrido, quimérico, prestes a dizer o não dito, insinuando realidades submersas num mar que “vagueia onduloso sob nossos pensamentos”, como nos recorda Conceição Evaristo. Na apresentação, a professora Masé Lemos observa que a antologia “nos presenteia com um arquivo vivo que agora pulsa no tempo presente”.
Manifestação
À primeira vista, o fato de Gilka Machado voltar a circular com sua obra completa recém-editada pelo Círculo de Poemas; de Pagu ter sido a homenageada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), em 2023, e Orides Fontela, a deste ano; de Maria Lúcia Alvim ter vencido o prêmio Jabuti, em 2021, e ter sua obra reunida, publicada pela Relicário; e de Conceição Evaristo ter sido distinguida com o Troféu Juca Pato de Intelectual do Ano, em 2023, parece confirmar o pleno reconhecimento da participação feminina na literatura brasileira.
Contudo, dados levantados pela pesquisadora Zahidé Lupinacci Muzart (1939-2015) na antologia Escritoras brasileiras do século XIX (Mulheres, 1999) indicam a atuação de 53 escritoras somente naquele período. O Dicionário crítico de escritoras brasileiras (Escrituras, 2002), organizado pela professora Nelly Novaes Coelho (1922-2017), reuniu em suas 750 páginas informações sobre a vida e a obra de autoras com trabalhos profícuos entre 1711 e 2001.
Pesquisas referentes aos séculos 20 e 21 ampliaram o percentual e o corpus literário de autoria feminina, abrangendo a prosa de ficção, a poesia, o teatro, a crônica e a ensaística. Por um lado, a nomeação de trinta poetas deve ser festejada, considerando a intenção e o recorte que sustentam o projeto de Rüsche e Prates. Por outro, a concisão dessa cifra expõe um cenário ainda tímido, levando-se em conta o número de autoras, a consistência e a variedade de temas e estilos abordados por elas no decorrer da formação e do desenvolvimento de nossa literatura.
Os versos revelam o quanto suas autoras vivenciaram a tensão entre as demandas sociais e a pesquisa estética
A antologia adverte que, apesar dos avanços democráticos, não é incomum, ainda hoje, que mulheres artistas tenham de se confrontar com circunstâncias desfavoráveis à manifestação pública do seu próprio pensamento. Essa condição estruturante da sociedade pode ser rastreada no passado. Veja-se, por exemplo, o modo como Olavo Bilac dirigia-se à sua noiva Amélia de Oliveira (1868-1945), sublinhando o desinteresse pela circulação do que ela escrevia. Segundo Rüsche e Prates, o vate parnasiano, em carta à poeta, manifestou-se nestes termos: “o primeiro dever de uma mulher honesta é não ser conhecida”. Mais do que um pormenor biográfico, de apelo íntimo entre um casal de intelectuais, esse evento se revela como fruto de uma estrutura social opressiva, marcada pelas desvantagens que infringia à atuação social das mulheres.
Não fosse a têmpera de talento e persistência de tantas mulheres escritoras, não veríamos em seus textos o rigor formal que viabiliza a expressão de uma poética substancial, moldada pela combinação entre melancolia, erotismo e visão crítica do mundo.
É o que observamos em poemas como os de Gilka Machado (“O Vento sob o céu de brumas carregado,/ passa, ora langoroso, ora forte, medonho!”) e de Amélia de Oliveira (“Mas um canto vibrou, longe, plangente,/ Quem é que a solidão perturba agora?/ Ah! quem se atreve pela noite afora/ Um grito desferir, lugubremente?…”).
Sem acesso a essas vozes, estaríamos impedidos de reivindicar a ampliação da estética sombria e lancinante que permeou escritos como Noite na taverna, de Álvares de Azevedo, e os sonetos de Cruz e Souza, a exemplo deste “Longe de tudo”:
Cá nesta humana e trágica miséria,/Nestes surdos abismos assassinos/ Teremos de colher de atros destinos/ A flor apodrecida e deletéria”.
No prefácio à Antologia de antologias: 101 poetas brasileiros “revisitados” (Musa, 1995), organizada por Magaly Trindade Gonçalves, Zélia Thomaz de Aquino e Zina Bellodi Silva, Alfredo Bosi chamou atenção para a possibilidade de “a memória estética das gerações” ser influenciada pelos padrões de permanência reiterados em obras didáticas, sobretudo nos ambientes de ensino. Em tempos recentes, a intervenção do mercado — que impõe determinadas linhas estéticas como o “gosto” — pode ser mais um passo rumo ao engessamento que restringe a emergência de estéticas dissonantes, pojadas pela força do atrito e da inquietação.
Fronteiras
Os poemas de Inesquecíveis — reunidos em face desses parâmetros — revelam o quanto suas autoras vivenciaram a tensão entre demandas sociais e pesquisa estética. Se a primeira se impôs como necessidade de sobrevivência pessoal e coletiva, a segunda contracenou com a acuidade de quem fez do risco um método para a busca de novos mundos. Para essas poetas, como afirma Micheliny Verunschk, a “palavra fronteira/ passa a não fazer sentido algum”. Nessa primeira metade do século 21, quando os nacionalismos excludentes erguem muros, cerceando-nos o acesso aos territórios e às ideias, questionar as fronteiras é uma razão para que Inesquecíveis se torne um retrato da poesia-liberdade.
