O jornalista carioca Rodrigo Faour (Divulgação)

Livros e Livres,

Capital gay do Brasil

Biógrafo de grandes nomes da MPB, Rodrigo Faour conta como o Rio de Janeiro foi por décadas cenário da memória LGBTQIA+ do país

20mar2026 • Atualizado em: 19mar2026

Biógrafo de Cauby Peixoto, Dolores Duran, Angela Maria, Claudette Soares e Leny Eversong, o jornalista Rodrigo Faour já havia unido a história da música popular brasileira com o tema da sexualidade em seu livro História sexual da MPB: a evolução do amor e do sexo na canção brasileira (Record, 2006) e nos dois volumes de História da música popular brasileira sem preconceitos (Record, 2021 e 2022). 

Em seu mais recente lançamento, A audácia dos invertidos: as estratégias de sobrevivência e visibilidade LGBTI+ no Rio de Janeiro e sua importância no Brasil (1950-1990), publicado em 2025, Faour faz um importante trabalho de preservação da memória, oriundo de sua tese de doutorado em letras, ao descortinar quatro décadas da história LGBTIA+ do Rio de Janeiro, ouvindo personagens pioneiras e transgressoras. Em conversa com a Quatro Cinco Um, o jornalista falou sobre o que e quem fez da cidade “a mais gay do Brasil” nesse período.

Você biografou cantoras muito associadas ao público gay, como a Angela Maria. Por que acha que os gays se atraem por essas cantoras?
São mulheres que têm uma personalidade forte, melodramática ou com um certo glamour diferente, teatralidade, uma voz poderosa. E isso tudo tem a ver com a cultura gay, das trans e travestis. Isso é mundial. O público gay sempre se identificou também com as grandes vedetes e algumas grandes atrizes.

Rodrigo Faour e Alcione no evento de lançamento do livro (Cristina Granato/Divulgação)

Cauby Peixoto não falava sobre a sexualidade. Como você abordou essa questão na biografia?
Cauby dizia sempre: “falem mal, mas falem de mim”. O Di Veras, grande empresário que criou o Cauby, dizia que o cantor tinha que ser polêmico para estar na mídia. E o Cauby foi pioneiríssimo nisso no Brasil. O Di Veras não queria que fosse sobre a homossexualidade, mas Cauby acabou sendo polêmico por várias razões, inclusive essa. E havia muitos estratagemas para conseguir ocultar essa homossexualidade, que era um tabu máximo nos anos dourados. Eram coisas muito engraçadas. Cauby lutando jiu-jitsu, fazendo ginástica para mostrar que era viril, as noivas que o Di Veras arrumava para ele. 

O Cauby era inteligente. Ele gostava de deixar esse mistério na cabeça das pessoas. Então, qual foi a minha saída? Brincar com esse tema no livro inteiro. Havia entrevistas dos anos 70 e 80 em que o objetivo do repórter era tirar essa confissão dele. E eles nunca conseguiam, porque o Cauby respondia o que ele queria. E como era muito sedutor, as pessoas ficavam enfeitiçadas. Sempre escapava pela tangente. Depois que lancei o livro, ele se sentiu à vontade para me contar as verdades, porque a gente ficou amigo.

Você acha que faz sentido falar em uma MPB LGBTQIA+? 
Sim e não. Todo rótulo restringe. Como a bandeira LGBT+ foi sufocada por séculos, é legal, sim, que exista um nicho que fale de temas com uma linguagem que se aproxime mais desse público; por exemplo, com clipes com beijo na boca, coisas que há quinze anos não existiam. Por outro lado, o legal é conseguir furar a bolha, falar do seu quintal e ser universal. Ser autêntico, mas não se restringir a uma coisa marginalizada demais. Acho que o equilíbrio é o grande barato. A Pabllo [Vittar] foi uma que conseguiu transcender o gueto. Liniker também.

Há uns anos, houve uma polêmica entre Johnny Hooker e Ney Matogrosso: um defendia a importância de dizer que é gay, levantar a bandeira, outro dizia que não, “a bandeira sou eu”. Como vê essa mudança geracional?
O Ney nunca quis ser capturado como “o cantor gay”. Ele sempre quis transcender, quebrar os paradigmas do feminino e do masculino. E também teve casos com mulheres. Uma parte dessa geração que nasceu nos anos 40 e que desbundou na década de 70 tinha uma utopia de liberdade. Eles não queriam se enquadrar em nada. Queriam ser livres para transar com quem quisessem, sem rótulos. 

Hoje essa pode ser uma postura ultrapassada, porque sem uma mínima organização comunitária, sem direitos políticos, a gente não avança. Talvez hoje o Ney entenda isso melhor, tanto que gravou com o Johnny. São duas visões que se complementam. 

Ney Matogrosso nos anos 70 tinha uma estética queer que não deixa nada a dever a Pabllo Vittar

Acho que nenhum dos dois está errado. Eles são frutos de suas épocas. Mas, diferentemente de outros artistas gays e lésbicas veteranos, o Ney nunca fugiu ao debate. Nunca negou que transasse com homens. Nunca negou uma entrevista a publicações LGBTs. Ele conseguiu um público gigantesco, do jeito dele: um homem diferente, com uma voz de mulher, levando uma estética queer para as apresentações de uma maneira que até hoje não deixa nada a dever a coisas da Pabllo, do Johnny. Basta rever os vídeos de seus shows e clipes dos anos 70 e 80.

Rodrigo Faour e Ney Matogrosso no evento de lançamento do livro (Cristina Granato/Divulgação)

O que levou você a escrever A audácia dos invertidos?
Tive três amigos que me inspiraram a fazer esse livro: o Edy Star, o César Sepúlveda e o Luiz Fernando Borges. Eram amigos mais velhos, na faixa dos oitenta anos, que me mostraram que a gente não veio do nada, que tinha um passado, ninguém inventou nada. As coisas já estavam aí, só eram subterrâneas. Eu não quis problematizar o legado dessas pessoas, porque elas são fruto do tempo delas. Só o fato de elas estarem vivas e contando a história em primeira pessoa já é forte. 

As pessoas de hoje precisam saber que o mundo não começou há dez anos e que algumas travestis da geração da Eloína, da Rogéria, falavam “Eu não sou mulher, eu não tenho ovários”. Elas não tinham essa visão mais abrangente que hoje é possível. Hoje muitas travestis nem colocam peito, nem tomam hormônio, nem fazem operação de redesignação de gênero, e se sentem mulheres. É uma mudança muito grande. E acho importante mostrar essa diferença, já que é um documento de época. 

Você traça um cenário do Rio como a cidade mais gay do Brasil. Qual é a diferença entre Rio e São Paulo?
O Rio foi a capital do Império e da República. Desde os anos 20, como o Ruy Castro mostrou em Metrópole à beira-mar [Companhia das Letras, 2019], já era uma das cidades mais modernas da América Latina. Tudo de mais importante da vida cultural vinha daqui e se projetava para o resto do Brasil via imprensa, literatura, depois rádio e TV. Isso também se refletiu na questão comportamental. Claro que São Paulo também é importante, só que a grande maioria dos LGBTs famosos moravam no Rio de Janeiro entre os anos 50 e 80, época retratada no livro. Não falo por bairrismo, porque não foram só os cariocas que fizeram isso. Muitos artistas sentiam aqui uma liberdade que não conseguiam em outros lugares.

São Paulo é importante, mas a grande maioria dos LGBTs famosos moravam no Rio entre os anos 50 e 80

A partir dos anos 80, São Paulo começou a ter um papel cada vez mais importante, culminando, no final dos anos 90, na realização da maior parada LGBT do Brasil. As pessoas de São Paulo falam muito das boates, dos pontos das travestis no centro, mas não tem como comparar com a quantidade de coisas que aconteceram na comunidade do Rio. O primeiro grande baile gay de Carnaval foi no Rio, em 55. Em 56, a imprensa internacional já vinha cobrir esse baile, no teatro João Caetano. Isso era amplificado pelas revistas para o Brasil todo. 

Depois teve concurso de miss gay no Carlos Gomes, outro teatro tradicionalíssimo. Teve o visionário que criou um Oscar gay, o cabeleireiro Pedrinho Martins. Gal Costa, Chico Buarque, Marília Pera, Bibi Ferreira, todo mundo ia. Havia o Berro do Paulistinha, em que os bicheiros fechavam a rua Gomes Freire, no Centro, para um concurso de fantasias de travestis. Essa cultura de sauna gay começou no Rio, no Flamengo. Desde 1959 já tinha boate gay, as pessoas faziam footing [passeio a pé, com intenção de paquera] pela Nossa Senhora de Copacabana, pela Cinelândia em 1950. A Praça Tiradentes, como bem falou [o brasilianista] James Green, era um grande point na década de 10 e de 20 do século passado. 

E quais eram os principais pontos de encontro das lésbicas no Rio?
O maior, sem dúvida, foi a Gaivota, na Barra. Era uma boate que ficava numa casa com quintal. Parecia que você estava indo à casa da sua avó, da sua tia. Tinha sinuca, totó, música. Era um lugar no meio do nada, numa rua discretíssima. A Barra ainda era um lugar distante, com pouca gente. Várias meninas de classes sociais diferentes iam, artistas.  A praia de Ipanema, na altura da rua Farme de Amoedo, no começo, era mais de lésbicas do que de gays. Mas havia o Pizzaiolo, na esquina da Vinícius de Moraes com a Barão da Torre, um restaurante que muita gente do meio artístico frequentava.

Já havia também os times de futebol ainda não oficiais pela cidade, no subúrbio e na zona sul. Havia boates desde 59 e eventualmente bares frequentados por elas no subúrbio, como o famoso bar da Lili Sapatão, no Méier dos anos 80. Obviamente, nada que se compare à vivência gay e travesti. Era tudo muito mais escondido, discreto. O tema das lésbicas é muito invisibilizado. Do Rio de Janeiro não havia nada escrito sobre elas. As mulheres não gostam muito de falar. Quase não tem fotografia. Algumas falaram com pseudônimo, e eu tive que arrancar essas informações com muita dificuldade. 

Você trabalha com memória num país que não a valoriza tanto. Mas vêm surgindo cada vez mais livros com foco nessa população invisibilizada. Como vê essa mudança?
E não é só em livro. Vejo muito vídeo, no Instagram, tentando resgatar essa memória — o que é ótimo, porque o Brasil vê muito mais do que lê. 

Para fazer um livro consistente de memória você tem que ter um tempo e uma concentração que pouca gente tem. Se por um lado existe a facilidade da internet, por outro tem que ser guerreiro para organizar tudo. Para essa história oral fazer sentido, é preciso ouvir muita gente, cruzar parcas informações da imprensa e ver o que não é exagero no meio daquilo, para chegar próximo a uma verdade.

Há um resgate não só em relação aos gays, mas às mulheres e aos negros. São três categorias que estão sendo revalorizadas em todos os níveis. A gente está conseguindo trazer de volta essas histórias esmagadas e esquecidas. Desde que comecei a escrever o livro, umas seis ou sete figuras já foram embora, como a Jaqueline Dubois, a trans mais velha que entrevistei, de 86 anos. A Camille K, uma figura importantíssima, como cabeleireira e como artista; a Lorna Washington, um mito na nossa comunidade; o Edy Star, outro mito; Angela Ro Ro, tanta gente incrível. Cada um que se vai é um arquivo que se perde, porque quase não tem livro e documentação sobre a nossa história. 

Quem escreveu esse texto

Danilo Cymrot

Doutor em direito pela USP, é autor de "O funk na batida: baile, rua e parlamento de O funk na batida: baile, rua e parlamento (Edições Sesc).

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.