Biografia,
Uma vida sequestrada
Relato de Virginia Roberts Giuffre detalha anos de abuso que começaram em casa e se estenderam à poderosa rede de pedofilia de Jeffrey Epstein
19mar2026 | Edição #104“Como seria ter alguma importância?” Essa pergunta é feita no começo de Garota de ninguém: a história real de uma das principais vítimas do caso Jeffrey Epstein. Virginia Roberts Giuffre, autora da biografia (escrita com a jornalista Amy Wallace), foi uma das vítimas do financista Jeffrey Epstein e de sua rede de tráfico de adolescentes para fins de pedofilia. Eu sabia que me entregar à leitura não seria uma atividade fácil. Toda mulher que lê sobre delitos sexuais volta de alguma forma à cena de um crime cometido contra ela mesma em algum momento da vida. Talvez não tenhamos feito parte de uma rede internacional de tráfico de meninas para o prazer doentio de homens poderosos, mas visitamos nossa cota de estresse pós-traumático sempre que o assunto vem à tona.
“Quando se cresce mulher, o perigo está em toda parte. Sei disso desde que me conheço por gente”, escreve Giuffre. Os perigos para ela começaram dentro de casa, como acontece em mais de 70% dos casos de violência contra meninas. O pai, um homem que ela considerava doce e divertido, começou a estuprá-la quando ela tinha oito anos. Em seguida, um amigo do pai, que tinha livre acesso à casa, passou a fazer o mesmo.
Adolescente, ela tentou contar à mãe e a outros adultos o que acontecia havia anos, mas ninguém ligou. Virou uma jovem revoltada e foi internada em um centro de recuperação para adolescentes problemáticos, onde uma das atividades obrigatórias era ficar na frente de um espelho repetindo em voz alta: “Eu sou uma puta, uma piranha, uma drogada”.
Giuffre fugiu algumas vezes e, numa delas, teve contato com o primeiro empresário que atuava no tráfico de meninas para servir pedófilos famosos. Conseguiu se desvencilhar e voltou para casa. Se o mundo queria apenas seu corpo, ela preferia se submeter a abusos familiares do que aos abusadores que não conhecia.
Giuffre lembra que olheiros foram enviados ao Brasil num jato para recrutar garotas menores de idade
No ano 2000, o pai arrumou para ela um emprego no clube privado de Donald Trump, Mar-a-Lago, onde conheceu Epstein e sua cúmplice, Ghislaine Maxwell. Diferente do pai e dos homens que abusaram dela nas ruas, Maxwell era uma predadora especialista: “tão gananciosa e exigente por dentro quanto parecia ser bonita, composta e segura por fora”. Giuffre entrou para a órbita de Epstein e Maxwell quando tinha dezesseis anos e lá ficou até depois dos dezoito.
A pior coisa que Epstein e Maxwell fizeram comigo não foi física, e sim psicológica. Desde o começo eles me manipularam para participar de comportamentos que me consumiram, erodiram minha capacidade de entender a realidade e me impediram de me defender. Desde o começo, eu fui preparada para ser cúmplice da minha própria destruição.
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Claro que a primeira pergunta a toda mulher que sofre abusos recorrentes é: como você reclama de sofrer abuso se podia facilmente ter ficado longe? Giuffre explica que a pergunta desconsidera contextos ao ignorar um perfil comum em meninas sequestradas pelo tráfico: o que elas passaram antes na vida. Estupros dentro de casa, testemunhas de assassinatos, vítimas de torturas, abandono, pobreza. Maxwell sabia recrutar com precisão.
A casa de Epstein na Flórida, relata, era cor-de-rosa e ele dizia que tinha escolhido rosa porque era “cor de boceta”, revelando apenas uma das camadas do racismo que circulava pelo mundo do pedófilo. Em pouco tempo, Giuffre descobriu que Epstein e Eppinger, o primeiro homem que tentou traficá–la, se conheciam: “Meus cerca de dezessete anos no planeta tinham me ensinado que alguns homens adultos forçavam crianças a fazerem sexo com eles e não sofriam consequências”.
Pirâmide
Giuffre foi observando como o recrutamento se dava. Em Nova York, o time de Epstein reservava as tardes para caçar meninas. “Às três da tarde, horário de saída das escolas de ensino médio, elas iam para a rua e procuravam garotas bonitas para abordar.” O esquema era em forma de pirâmide: depois que uma garota visitava Epstein pela primeira vez, era informada de que podia dobrar o valor recebido se levasse uma amiga na visita seguinte.
Giuffre foi emprestada sexualmente por Epstein e Maxwell a acadêmicos, escritores e nomes famosos, entre eles Andrew, ex-príncipe, um primeiro-ministro cujo nome não pôde revelar por medo e um bilionário influente cujo nome ela também não pôde tornar público.
Ela via homens poderosos entrando e saindo das casas de Epstein, espalhadas por locais como Nova York, Santa Fé e Caribe. Em uma ocasião, lembra que um grupo de olheiros foi enviado ao Brasil num jato para recrutar garotas menores de idade. Elas foram entregues para Epstein usá-las e, depois, enviadas de volta.
Em março de 2001, embarcou no maior avião de Epstein, “um Boeing 727 que ele (e depois a imprensa) chamava de The Lolita Express”. Engravidou, sofreu um aborto espontâneo e pôde ver, no hospital presbiteriano de Nova York, como a rede se estendia ao âmbito da saúde. Médicos, juízes, professores, cientistas: o esquema de influências das redes de pedofilia é institucionalizado e capilarizado.
Aos dezenove anos, conseguiu escapar, casou-se com um australiano, com quem teve três filhos. Quando a filha nasceu, ela decidiu contar tudo o que viveu em nome de um mundo melhor para os filhos. Em sua tentativa de ser ouvida, foi difamada, processada, silenciada e moralmente abusada. No final do relato, escreve:
Estou tornando público que de jeito nenhum sou suicida. […] Eu comuniquei isso à minha terapeuta e ao meu médico; se acontecer alguma coisa comigo, pelo bem da minha família, não deixem que seja esquecido e me ajudem a protegê-los.
Giuffre se suicidou em 2025, seis meses antes do lançamento da biografia. Sem sua voz, talvez não estivéssemos sabendo tanto sobre a rede de pedofilia montada por Epstein e Maxwell.
Por que você deveria ler esse livro, mesmo sabendo que ele pode funcionar como um gatilho? Porque uma das coisas que o feminismo oferece com mais força é a capacidade de compartilhar coragem. No ponto em que Virginia Roberts Giuffre parou de correr, nossa missão é pegar o bastão e seguir. Que ela esteja em um lugar melhor.
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026.
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