Ciências Sociais, Livros e Livres,
Tese sobre uma domesticação
Jasbir K. Puar se afasta de narrativas progressistas e defende que políticas de inclusão e retóricas de ódio se reforçam na hierarquização de corpos
26mar2026 • Atualizado em: 31mar2026 | Edição #104Nos últimos anos, os acontecimentos parecem ter perdido o pudor em relação ao tempo. Crises se acumulam sem digestão possível e a política passa a operar num regime de urgência permanente. Nesse cenário acelerado, a crítica costuma ser acusada de lentidão ou de irrelevância. Como pensar, perguntar, desconfiar, quando tudo exige resposta imediata? Talvez o problema não seja o atraso da crítica, mas a velocidade com que o poder produz consensos. A pressa não é neutra, pois seleciona quem deve ser protegido e quem pode ser descartado em nome da segurança.
Ler Agenciamentos terroristas, de Jasbir K. Puar, hoje, é aceitar esse desacordo com o presente e reconhecer que desacelerar pode ser um gesto político subversivo. Publicado originalmente em 2007, o livro costuma ser lido como mais uma análise sobre o pós-11 de Setembro. Mas essa leitura cronológica diminui sua força. O que Puar propõe não é um retrato de época, tampouco uma teoria do terrorismo, da sexualidade ou da nação. O ensaio opera como um gesto para deslocar o olhar, interromper continuidades fáceis e recusar a ideia de que a história avança por rupturas claras.
Ao mobilizar a noção de agenciamento, a professora de estudos de gênero da Universidade Rutgers (EUA) afasta-se das narrativas progressistas, entregando uma análise para além do seu tempo. O tempo que interessa não é o do antes e depois, mas o das sobreposições, dos retornos ou das acelerações desiguais. Há corpos que são forçados a se mover rápido demais — para se justificar, se provar, se normalizar —, enquanto outros ganham o privilégio da inocência presumida. A autora torna visível essa assimetria temporal como tecnologia de poder. Assim, quem lê Agenciamentos terroristas não deve buscar respostas prontas, mas se entregar a um desorganizador do ritmo do presente.
O conceito de homonacionalismo, talvez o mais conhecido de Puar, não designa um grupo nem acusa indivíduos. Ele nomeia um processo: a incorporação seletiva de certas vidas dissidentes ao imaginário moral da nação. Não se trata de reconhecer diferenças, mas de administrá-las. Algumas sexualidades passam a funcionar como prova de civilização, tolerância e progresso, desde que se apresentem como respeitáveis e alinhadas às promessas do Estado.
Puar mostra como discursos de contraterrorismo são focados em concepções de gênero, raça e sexualidade
Puar mostra como discursos de contraterrorismo são focados em certas concepções de gênero, raça e sexualidade. A figura do “sujeito universal” reaparece, agora adornada por uma diversidade filtrada. A diferença é celebrada apenas quando ajuda a reafirmar fronteiras: entre quem merece proteção e quem encarna a ameaça; entre o cidadão confiável e o corpo suspeito. Nesse jogo, a inclusão não dissolve hierarquias, mas as reorganiza de modo mais sutil e dissimulado.
O homonacionalismo opera como uma pedagogia política do pertencimento. Ao mesmo tempo em que certas vidas LGBTQIA+ são elevadas à condição de emblema nacional, outras são mantidas no campo da vigilância ou do abandono. A promessa de igualdade convive com a intensificação do controle e a retórica da segurança transforma direitos em ativos morais. Não há contradição entre inclusão e exceção, já que, muitas vezes, avançam juntas.
Mais Lidas
Mais do que denunciar um desvio, Agenciamentos terroristas obriga a perguntar pelo custo da adesão. O que se perde quando a dissidência passa a ser medida por sua utilidade política? E que formas de vida ficam de fora quando a diferença deixa de ser risco e passa a ser capital?
Pânico moral
Ancorado no contexto estadunidense, o livro ilumina dinâmicas que atravessam o Brasil recente. Aqui, o terror raramente se apresenta como ameaça externa organizada, pois se infiltra no cotidiano sob a forma de pânico moral. Fantasias sexuais e familiares operam como dispositivo eficaz de mobilização política. Durante a ascensão do bolsonarismo, a sexualidade tornou-se um campo dessa pedagogia do medo. Narrativas grotescas — como “mamadeira de piroca” — funcionaram menos como desinformação do que como tecnologia afetiva: produziram repulsa, urgência e autorização tácita para a violência simbólica e material. O inimigo não precisava ser real; bastava ser imaginável, sexualizado e moralmente abjeto.
Nesse cenário, a domesticação de certas dissidências caminha, paradoxalmente, lado a lado com sua expulsão. Algumas vidas LGBTQIA+ são convocadas a provar que não oferecem risco — casais discretos, patriotas, homossexuais “do bem” —, enquanto outras seguem associadas ao desvio, à promiscuidade ou à ameaça difusa. A normalização aparece como condição de sobrevivência, não como conquista emancipatória. Aqui, o “terror” se traduz menos como ameaça externa e mais como fabricação doméstica de inimigos.
Puar permite compreender esse movimento sem reduzi-lo a hipocrisia ou incoerência. Políticas de inclusão e retóricas de ódio não se anulam; elas se reforçam por meio de corpos e sexualidades hierarquizados. Ao examinar a figura dos “muçulmanos queer”, a autora desmonta a narrativa segundo a qual a libertação sexual depende da secularização, do afastamento da religião ou da adesão a modelos liberais de subjetividade. A pergunta não é quem é mais ou menos tolerante, mas quais formas de vida se tornam inteligíveis — e quais permanecem ilegíveis — dentro do vocabulário dos direitos.
Esse debate ressoa com força em contextos como o brasileiro, em que certas dissidências ainda são tratadas como excesso ou ameaça. Há corpos LGBTQIA+ que não cabem na gramática do progresso: não performam a respeitabilidade exigida, não se alinham ao ideal de cidadania secular, não se deixam traduzir em demandas reconhecíveis pelo Estado.
Ao insistir nesses corpos “fora de eixo”, a autora tensiona o imaginário segundo o qual a ampliação de direitos seria suficiente para enfrentar a violência. Nem toda dissidência quer ou pode ser incorporada. E nem toda recusa à norma se expressa como resistência visível. Agenciamentos terroristas nos lembra que há vidas que seguem sendo governadas, não apesar da inclusão, mas através dela.
Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026. Com o título “Tese sobre uma domesticação”
Porque você leu Ciências Sociais | Livros e Livres
Sem perder a ternura
Historiadora recria o contexto político e social de levante lésbico em 1983 sem esquecer a memória afetiva da vida noturna
JULHO, 2026
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Há nove anos nutrindo leitores onívoros!
Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil
Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.
Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.
Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.
