Imã desfila na Parada LGBTQIA+ em Londres, em 2006 (Liz Van Gerven/Divulgação)

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Tese sobre uma domesticação

Jasbir K. Puar se afasta de narrativas progressistas e defende que políticas de inclusão e retóricas de ódio se reforçam na hierarquização de corpos

26mar2026 • Atualizado em: 31mar2026 | Edição #104

Nos últimos anos, os acontecimentos parecem ter perdido o pudor em relação ao tempo. Crises se acumulam sem digestão possível e a política passa a operar num regime de urgência permanente. Nesse cenário acelerado, a crítica costuma ser acusada de lentidão ou de irrelevância. Como pensar, perguntar, desconfiar, quando tudo exige resposta imediata? Talvez o problema não seja o atraso da crítica, mas a velocidade com que o poder produz consensos. A pressa não é neutra, pois seleciona quem deve ser protegido e quem pode ser descartado em nome da segurança. 

Ler Agenciamentos terroristas, de Jasbir K. Puar, hoje, é aceitar esse desacordo com o presente e reconhecer que desacelerar pode ser um gesto político subversivo. Publicado originalmente em 2007, o livro costuma ser lido como mais uma análise sobre o pós-11 de Setembro. Mas essa leitura cronológica diminui sua força. O que Puar propõe não é um retrato de época, tampouco uma teoria do terrorismo, da sexualidade ou da nação. O ensaio opera como um gesto para deslocar o olhar, interromper continuidades fáceis e recusar a ideia de que a história avança por rupturas claras.

Poulomi Desai segura uma placa com os dizeres “Eu também sou um Homossexual” (Poulomi Desai e Parminder Sekhon/Divulgação)

Ao mobilizar a noção de agenciamento, a professora de estudos de gênero da Universidade Rutgers (EUA) afasta-se das narrativas progressistas, entregando uma análise para além do seu tempo. O tempo que interessa não é o do antes e depois, mas o das sobreposições, dos retornos ou das acelerações desiguais. Há corpos que são forçados a se mover rápido demais — para se justificar, se provar, se normalizar —, enquanto outros ganham o privilégio da inocência presumida. A autora torna visível essa assimetria temporal como tecnologia de poder. Assim, quem lê Agenciamentos terroristas não deve buscar respostas prontas, mas se entregar a um desorganizador do ritmo do presente.

O conceito de homonacionalismo, talvez o mais conhecido de Puar, não designa um grupo nem acusa indivíduos. Ele nomeia um processo: a incorporação seletiva de certas vidas dissidentes ao imaginário moral da nação. Não se trata de reconhecer diferenças, mas de administrá-las. Algumas sexualidades passam a funcionar como prova de civilização, tolerância e progresso, desde que se apresentem como respeitáveis e alinhadas às promessas do Estado.

Puar mostra como discursos de contraterrorismo são focados em concepções de gênero, raça e sexualidade

Puar mostra como discursos de contraterrorismo são focados em certas concepções de gênero, raça e sexualidade. A figura do “sujeito universal” reaparece, agora adornada por uma diversidade filtrada. A diferença é celebrada apenas quando ajuda a reafirmar fronteiras: entre quem merece proteção e quem encarna a ameaça; entre o cidadão confiável e o corpo suspeito. Nesse jogo, a inclusão não dissolve hierarquias, mas as reorganiza de modo mais sutil e dissimulado.

O homonacionalismo opera como uma pedagogia política do pertencimento. Ao mesmo tempo em que certas vidas LGBTQIA+ são elevadas à condição de emblema nacional, outras são mantidas no campo da vigilância ou do abandono. A promessa de igualdade convive com a intensificação do controle e a retórica da segurança transforma direitos em ativos morais. Não há contradição entre inclusão e exceção, já que, muitas vezes, avançam juntas.

Mais do que denunciar um desvio, Agenciamentos terroristas obriga a perguntar pelo custo da adesão. O que se perde quando a dissidência passa a ser medida por sua utilidade política? E que formas de vida ficam de fora quando a diferença deixa de ser risco e passa a ser capital?

Pânico moral

Ancorado no contexto estadunidense, o livro ilumina dinâmicas que atravessam o Brasil recente. Aqui, o terror raramente se apresenta como ameaça externa organizada, pois se infiltra no cotidiano sob a forma de pânico moral. Fantasias sexuais e familiares operam como dispositivo eficaz de mobilização política. Durante a ascensão do bolsonarismo, a sexualidade tornou-se um campo dessa pedagogia do medo. Narrativas grotescas — como “mamadeira de piroca” — funcionaram menos como desinformação do que como tecnologia afetiva: produziram repulsa, urgência e autorização tácita para a violência simbólica e material. O inimigo não precisava ser real; bastava ser imaginável, sexualizado e moralmente abjeto.

Nesse cenário, a domesticação de certas dissidências caminha, paradoxalmente, lado a lado com sua expulsão. Algumas vidas LGBTQIA+ são convocadas a provar que não oferecem risco — casais discretos, patriotas, homossexuais “do bem” —, enquanto outras seguem associadas ao desvio, à promiscuidade ou à ameaça difusa. A normalização aparece como condição de sobrevivência, não como conquista emancipatória. Aqui, o “terror” se traduz menos como ameaça externa e mais como fabricação doméstica de inimigos.

Puar permite compreender esse movimento sem reduzi-lo a hipocrisia ou incoerência. Políticas de inclusão e retóricas de ódio não se anulam; elas se reforçam por meio de corpos e sexualidades hierarquizados. Ao examinar a figura dos “muçulmanos queer”, a autora desmonta a narrativa segundo a qual a libertação sexual depende da secularização, do afastamento da religião ou da adesão a modelos liberais de subjetividade. A pergunta não é quem é mais ou menos tolerante, mas quais formas de vida se tornam inteligíveis — e quais permanecem ilegíveis — dentro do vocabulário dos direitos.

Esse debate ressoa com força em contextos como o brasileiro, em que certas dissidências ainda são tratadas como excesso ou ameaça. Há corpos LGBTQIA+ que não cabem na gramática do progresso: não performam a respeitabilidade exigida, não se alinham ao ideal de cidadania secular, não se deixam traduzir em demandas reconhecíveis pelo Estado. 

Ao insistir nesses corpos “fora de eixo”, a autora tensiona o imaginário segundo o qual a ampliação de direitos seria suficiente para enfrentar a violência. Nem toda dissidência quer ou pode ser incorporada. E nem toda recusa à norma se expressa como resistência visível. Agenciamentos terroristas nos lembra que há vidas que seguem sendo governadas, não apesar da inclusão, mas através dela.

Quem escreveu esse texto

Eder van Pelt

Professor de direito na Universidade Federal Fluminense (UFF), é autor de Sujeito de direito digital (Telha).

Matéria publicada na edição impressa #104 em abril de 2026. Com o título “Tese sobre uma domesticação”

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