Literatura japonesa,
Perder a mãe
Sem idealizações ou julgamentos morais, Minae Mizumura provoca reflexão sobre tradições japonesas e ocidentais a respeito do luto
01mar2026 • Atualizado em: 26fev2026 | Edição #103A morte de um ser amado, esse golpe extremo da experiência humana, inscreve-se numa tradição literária consolidada, cuja formulação mais emblemática talvez seja a frase de abertura de O estrangeiro, de Albert Camus: “Mamãe morreu hoje”. Num diálogo que une os costumes do luto do Oriente e do Ocidente para discutir os paradoxos atuais da cultura japonesa, chega ao Brasil A herança da mãe, da escritora e ensaísta Minae Mizumura, que foi lançado inicialmente como folhetim no Yomiuri Shimbun, o jornal de maior circulação do Japão.
Infensa a clichês, Mizumura conta a história de Mitsuki e Natsuki, as duas filhas de Noriko, mãe tirânica que, logo no início da narrativa, sofre um acidente que a deixa inválida — atalho para a demência e, dali, para a morte. Mitsuki, que tem por volta de cinquenta anos, é professora em uma universidade de Tóquio e descobre, ao mesmo tempo que precisa cuidar da mãe, que o marido está tendo um caso com uma mulher mais jovem. Ela tenta ser estoica, mas o resultado é uma frieza que lembra a da própria mãe em seus melhores momentos, quando alijava a filha mais velha, Natsuki, do convívio do núcleo feminino da família.
Mitsuki, que organiza a vida familiar e odeia a tarefa, chega a desejar a morte da mãe, uma das muitas ocasiões em que dialoga com Meursault, o narrador de Camus. Natsuki, desprezada a partir de um momento, é como uma coadjuvante na assistência ao movimento de lenta degradação de Noriko — aquela passividade típica que decorre da combinação de impotência com a falta de aptidão ou de vontade para qualquer iniciativa.
Romance de um drama cruel, A herança da mãe evoca, por evidência interna, relações preciosas com a tradição do luto. A primeira delas é embalada pela frase dita por Mitsuki no escuro da casa, “Aujourd’hui, maman est morte”, primeira linha do primeiro romance em francês que havia lido na vida, bordão-mantra que ela iria repetir internamente até que a frase correspondesse aos fatos.
Tudo no romance se opõe frontalmente à ideia de que a morte seja capaz de produzir reconciliação
A recusa da culpa ou do drama como resposta à morte da mãe ou ao seu declínio lento une os dois personagens não do ponto de vista sentimental, mas do ponto de vista ético, pois ambos se esquivam de quaisquer vínculos com o transe da doença e da morte. Assim como Meursault não chora porque não sente, Mitsuki não se penitencia porque não deve — e impressiona a lucidez, quase uma navalha, com que reage à mãe tirânica e, depois, demente. É como se a personagem, através desse narrador que tudo vê, pudesse expor filigranas de sentimentos que a maioria afogaria por inconfessáveis.
Tudo no romance se opõe frontalmente à ideia de que a morte seja capaz de produzir reconciliação, absolvição ou mesmo idealização tardia — e isso, para alguns padrões, pode ser escandaloso. Como sublinha Natalia Timerman no posfácio-ensaio, na cultura japonesa, como em várias outras, são as mulheres que cuidam da casa e de quem adoece. Isso, como ela nota, é desestabilizado em A herança da mãe: a mãe não vira heroína, e tampouco o papel atávico de cuidadora se demonstra naturalmente. Na verdade, há uma profunda revolta e desprezo por ele.
Mais Lidas
Numa prosa limpa e muito acessível, com cortes que obedecem à ordem de folhetim com que foram publicados, os capítulos do romance fazem o leitor se sentir desconfortável em alguns momentos, tamanha a crueza. A mãe é vista como pessoa que deu amor, já que as duas filhas conseguiram sobreviver em bases razoáveis, mas também se compreende que ela não ofereceu uma maternidade plena. Houve o vínculo essencial, embora não exemplar, o que não significa negar o amor filial.
Caos do amor
É impossível não aproximar A herança da mãe do belíssimo Lili: novela de um luto, de Noemi Jaffe, igualmente marcado pelo flagrante da perda materna em seu mais frágil desconcerto. Em Jaffe, o luto se organiza como intimidade e sentimento, como pensamento que vem em ondas de lembrança e que quer se manter como tal, a escrita sendo a organização do caos do amor — das páginas mais belas e mais tristes que existem. Em Mizumura, a opção pelos capítulos curtos e pelo narrador seletivo produz outro efeito: cria distância suficiente para o juízo, relativizando sem anular a densidade afetiva, mas com sinal oposto ao da narrativa de Jaffe. A dor, em ambas as narrativas, não é dissolvida pela forma; é sustentada por ela.
Há, contudo, uma diferença decisiva: enquanto Lili se constrói pela suspensão do consolo e pela doce vigilância, A herança da mãe se estrutura a partir de uma ética das possibilidades. Em uma passagem, a protagonista escolhe se prender aos bons momentos — não por ingenuidade, mas por decisão. Essa escolha não apaga o que houve de mesquinho, apenas impede que a falha ocupe todo o território da memória.
Também é possível estabelecer um diálogo com Patrimônio, de Philip Roth, romance da devoção de um homem ao trajeto paterno, forjado em gratidão e sofrimento por vezes inacreditável — a degradação física do personagem de Roth chega a ser nauseante. Ambos falam de uma herança que em nada condiz com a ideia de bens ou de patrimônio. Em Roth, herdam-se o corpo que adoece e o alto sentido da lealdade filial; em Mizumura, uma relação incompleta, feita de falhas; em Jaffe, herdam-se o amor ensinado e a promessa de um luto a ser refinado com o tempo.
Outro clássico sobre o tema, Diário de luto, de Roland Barthes, traz, por comparação, mais brilho ao livro de Mizumura. Em Barthes, a mãe ocupa o centro da vida afetiva e sua morte provoca devastação: a escrita processa um pesar irredimível. Em A herança da mãe, ao contrário, o luto não desorganiza — ele esclarece. Não há dissolução, mas reorganização ética da memória.
Ao evitar a idealização e o ajuste de contas ressentido, Mizumura não transforma a falha em acusação ou a dor em capital moral enquanto provoca a reflexão sobre envelhecimento, declínio do corpo e tentativa de resistir à inclemência do tempo. Sem inflexões rasas, a narrativa se torna mais complexa e matizada, com ganhos do ponto de vista humano e literário.
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Perder a mãe”
