Encontro de Leituras,
Em estado de tesão
Eugénio de Andrade não se esconde da tristeza, mas a incorpora na exploração da sutileza e da luminosidade deste corpo de amor que temos
23fev2026 • Atualizado em: 26fev2026Não é incomum que poetas que chegam à maturidade repudiem seus primeiros versos, talvez por vergonha, talvez por achá-los incoerentes com a obra que, depois, acabaram criando. Eugénio de Andrade (1923-2005) foi desses. Reconhecido muitas vezes como o maior de seu tempo em Portugal (Herberto Helder lhe escreveu, no ano 2000: “não há nenhum poeta português que possa ombrear consigo neste meio século”), Eugénio renegou seus três primeiros livros, em especial o primeiro, Narciso, plaquete publicada em Lisboa quando ele tinha dezessete anos e ainda assinava com o nome de batismo, José Fontinhas.
Haja ferramenta de busca para encontrar esse texto, que parece ter sido republicado em Portugal apenas na antologia Eco e Narciso: leituras de um mito, organizada por Abel N. Pena (Cotovia, 2017). Fora isso, o livro não teve reedições e continua excluído do que hoje se edita como “obra completa” de Eugénio de Andrade, mesmo 21 anos após sua morte e três após as comemorações de seu centenário de nascimento. Talvez se julgue que a efêmera produção de Fontinhas não faça falta no volumoso e excelente trabalho de Eugénio.
Em Narciso, o eu lírico é um rapazinho que encontra, no “fundo/ Do cristal onde me espelho”, um outro rapazinho igualmente bonito, igualmente encantado. O menino tenta escapar da visão, mas fica preso aos “olhos muito belos”, ao “cabelo doirado” e aos “lábios vermelhos” do outro — que, além de tudo, quer “beijar a minha boca,/ Num beijo brusco, brutal”.
Os dois meninos começam uma aproximação hesitante, mas irresistível. Uma voz terceira, talvez da consciência culpada, atrasa o encontro a cada tanto com um travessão que lamenta: “Ai, meu menino bonito!”, e aconselha: “Não queiras nunca pecar!”. Mas o rapaz do espelho chega “mais perto do meu rosto” e enfim “beija/ A minha boca vermelha/ Que se rendeu ao pecado”. O menino cai ao chão chorando “de arrependimento”, e o travessão arremata: “Ai, meu menino bonito!/ Tens razão…, nós só choramos,/ Depois de termos pecado!”.
Muitos motivos podem ter levado Eugénio a abdicar de seu primeiro livro, mas, quando o lemos ao lado da antologia Os amantes sem dinheiro e outros poemas, uma diferença se destaca. Mais do que o apuro formal dos livros posteriores, o que destoa em Narciso é a presença repressora e entediante do pecado, palavra ausente não apenas dessa seleção, mas de toda a obra poética canônica do autor português.
O desejo é mais urgente que o crime. Isso só pode ser obra, bendita seja, de uma bichinha muito atrevida
Eucanaã Ferraz, organizador do livro e apaixonado pela obra de Eugénio (“Esta é uma antologia amorosa”, ele diz), nota: “Culpa e pecado passam longe dos versos”; e complementa: “O erotismo dos corpos é pródigo e veemente. A figura humana define-se pela liberdade que lhe é intrínseca. A palavra vai buscar, assim, a humanidade reintegrada ao seu mais alto destino”.
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Não se trata, como o próprio Eucanaã sublinha, de um ideal abstrato. Porque outra característica dos versos de Eugénio é uma atenção voltada para elementos concretos do cotidiano, e é por meio deles que se percorrem, quando existem, os caminhos do sublime. Já o primeiro poema da antologia, “Green God”, compõe a visão de um deus material, que caminha com pés, move braços, toca flauta e dança. A figura passa diante de um eu lírico admirado, contente por presenciar tal graça e independência: “Era o corpo como um rio/ em sereno desafio/ com as margens quando desce”.
O poema faz parte de As mãos e os frutos (1948), este sim considerado por Eugénio seu trabalho inaugural, cuja epígrafe (não incluída na antologia) talvez sirva para toda a obra posterior: “Let thy blood be thy direction till thy death” (“Que o teu sangue te sirva de guia até morreres”, em tradução de Carlos Alberto Nunes). A frase, disferida como maldição na tragédia Troilo e Créssida, de Shakespeare, ao ser retirada de contexto e situada no pórtico de entrada de um poeta iniciante, ganha também uma dimensão positiva. Ela parece evocar um pacto com a natureza inexorável da vida, com a essência impossível de ser domada por disciplinas e repressões. Também esse corpo passará em “sereno desafio”.
Nisso, o eclipsado Narciso talvez se sentisse em casa como parte da obra autoral de Eugénio de Andrade. Afinal, descontados os chiliques do vozerio do entorno e o desmaio arrependido do mocinho no final, é admirável a coragem de um adolescente que publica, em pleno Estado Novo português, no ano da ascensão do fascismo na Espanha e às vésperas de Hitler ocupar a França, uma cena tão carregada de homoerotismo, na qual um beijo se impõe contra o medo, e o desejo é mais urgente que o crime. Isso só pode ser obra, bendita seja, de uma bichinha muito atrevida.
Eros operante
O atrevimento é fundamental na poesia de Eugénio. Segundo Eucanaã, ela é caracterizada por “uma compreensão erótica do mundo”, formulação afim à definição que Eliane Robert Moraes dá do erotismo literário. A estudiosa diz, na introdução à sua Antologia da poesia erótica brasileira (Ateliê, 2015), que essa categoria não diz respeito a um texto que tenha “o sexo como tema”, mas a “uma escrita que se singulariza por fazer de Eros seu operador fundamental, elegendo-o como mediador exclusivo de seus jogos entre forma e fundo”.
Nessa perspectiva, o erotismo de Eugénio de Andrade fica ainda mais evidente. Quase sem recorrer ao óbvio e maravilhoso repertório do chulo, ele consegue construir um universo obsceno com o que há de mais singelo no mundo das palavras. Em geral, sua poesia se compõe com uma imagética bucólica — cheia de rios, pedras, cabras e cães — atravessada pelo elemento humano, constantemente representado por partes do corpo que não necessariamente denotam sexo: mãos, olhos, bocas, quase nada genital. Mas tudo isso se combina num permanente estado de tesão.
O poeta consegue construir um universo obsceno com o que há de mais singelo no mundo das palavras
Os verbos talvez sejam os principais responsáveis por essa suruba oblíqua, assumindo a função tanto gramatical quanto sexual de cópula. É impressionante o quanto as coisas ardem, tremem, crescem, entram, penetram. As palavras mordem, as flores dão, os homens dão. Às vezes, como em Narciso, o encontro sexual é explícito:
Amar a boca fatigada do corpo
ou outra ainda mais estéril
entrar
onde o silêncio desce às fontes
Morrer e não morrer sobre os teus rins
Em outros momentos, porém, as cenas e os atos são interações com animais, plantas ou seres inanimados, não exatamente como sexo, mas na já citada “compreensão erótica do mundo”. O poeta pode, então, confidenciar: “dei às aves os meus olhos a beber”; ou observar o mar e ver: “Corpos ou ondas:/ iam, vinham, iam,/ dóceis, leves — só/ ritmo e brancura”; ou, ainda, descrever que uma estação do ano chega com “seu dardo mais puro/ cravado na terra,/ cobras que despertam/ no silêncio duro”, e concluir: “eis como o verão/ entra no poema”.
Muitos comentadores salientam a melancolia do poeta. Em tempos desesperados, porém, o contraste favorece a alegria solar e gostosa que seus poemas afirmam sem concessão. Atravessando a ditadura mais longa da Europa e uma das revoluções mais bonitas do século 20, e escrevendo num momento em que a homossexualidade era conceituada pelos poderes instituídos como crime e doença (status que só mudou oficialmente, em Portugal, nos anos 80), Eugénio de Andrade nos deu uma poesia que não se esconde da tristeza, do medo e da ruína, mas que os incorpora na exploração vigorosa da sutileza, do afeto e da luminosidade. É um poeta que nos ensina: “Sem mácula não há luz sobre os joelhos”, e que resume, num lembrete atrevido para a vida: “é um corpo de amor este que temos”.
