A escritora gaúcha Dani Langer (Divulgação)

Livros e Livres,

Mistério de cada dia

Romance sobre a dor da perda, Deságua mostra que, por mais próximos que sejamos das pessoas que amamos, há sempre um ponto cego

23jan2026 • Atualizado em: 11fev2026 | Edição #102

Apresentar um livro dizendo que uma personagem morre é um dos spoilers mais clássicos. Evitar essa informação, inclusive, está entre as regras básicas de etiqueta entre leitores. Por mais irrelevante que seja a personagem que morre, é bem provável que o interlocutor fique frustrado ou até ofendido ao saber. Se for uma personagem central, então, nem se fala. No caso de Deságua, primeiro romance da gaúcha Dani Langer, a autora nos poupa desse constrangimento, porque a notícia da morte de uma das personagens principais vem na primeira frase: “Faz mais de duas semanas que Sofia caiu do décimo segundo andar”.

A diferença entre um leitor descuidado que dá o spoiler fatal e uma excelente escritora que começa a narrativa assim é a habilidade com a linguagem. A autora não diz, literalmente, que a personagem morreu. Em vez disso, diz literariamente — pois quem caiu do décimo segundo andar certamente não está mais vivo. E o verbo “caiu”, que é intransitivo — decidido, finito, como uma guilhotina sintática —, sendo usado na voz ativa deixa no ar uma dúvida incômoda sobre a agência na cena. Um jeito bastante engenhoso de tocar no tabu do suicídio.

Além disso, ao abrir a narrativa com uma informação do passado, utilizando um recurso simples de flashback, Langer dá uma pincelada fundamental na construção da paisagem emocional do romance. Ainda que o título pareça um verbo conjugado no presente, Deságua é feito de retornos em busca de um tempo há muito vivido — lembranças de infância, a fazenda da família, a convivência com Sofia e o mistério que envolve essa relação. Um eco material, brutal e monolítico como a morte. Um passado que escorre em correnteza até o presente, de forma incontida e incontornável, indomável como a água em seu estado mais livre e impetuoso.

Até aqui, não sabemos quem é a tal Sofia — mas já temos um nome — nem qual é a relação dela com a narradora — que, depois vamos descobrir, se chama Antonia. Mas já sabemos que é uma história sobre o luto e a dor de uma perda.

É impressionante quanta coisa cabe na primeira frase de um romance. Ficamos sabendo do tempo transcorrido desde o acontecimento crucial que rompeu a barragem. “Faz mais de duas semanas que Sofia caiu do décimo segundo andar” dá uma pista do estado de espírito em que vamos encontrar a narradora: não será em choque ou em pânico, com informações e sentimentos desencontrados, como costumam ficar as pessoas imediatamente depois de um trauma. É mais provável que o trauma já esteja em elaboração e ela precise dividir tudo aquilo com alguém. 

Irmãs

Antonia e Sofia são irmãs e viveram juntas uma infância bucólica na estância da família no interior do Rio Grande do Sul: as árvores, as poças d’água em dias de chuva, as brincadeiras a cavalo, o gosto em comum por música na adolescência e as mesmas canções de The Smiths e Patti Smith. As memórias de família, a relação com o pai, a doença da mãe, presença e ausência — tudo tramado com delicadeza, numa narrativa envolvente da primeira à última frase.

Depois de receber a notícia da morte da irmã, Antonia tem que ir a São Paulo, onde Sofia morava havia alguns anos, para reconhecer e liberar o corpo, cuidar da burocracia e se haver com seu futuro e seu passado. O presente parece ficar em suspenso.

Ao chegar na cidade, Antonia começa a tentar ajustar as escalas, inclusive a do tempo: como seria sua vida a partir dali sem a irmã? Mas e antes? Sofia já não fazia parte da sua vida havia quanto tempo mesmo? “A vida inteira, Sofia a me afastar verticalmente” como quem se atira do décimo segundo andar de um hotel e deixa você ali na janela, inerte, vendo aquele corpo se distanciar no abismo.

Voltar a São Paulo depois de tanto tempo, ainda mais pela morte da irmã, significava inevitavelmente encontrar Alex. “Alex, a melhor amiga de Sofia. Alex, a primeira menina que eu beijei na vida.” Antonia recebe uma mensagem SMS da ex–namorada logo depois de entrar no apartamento da irmã pela primeira vez desde que tudo aconteceu, carregando a sacola plástica do IML com os pertences encontrados no quarto de hotel onde Sofia estava hospedada. 

‘Deságua’ é feito de retornos em busca de um tempo há muito vivido, lembranças de infância

“Faz mais de duas semanas que Alex tocou a campainha” — a semelhança com a frase inicial do livro deixa saber que Antonia terá que lidar com mais um luto, o do fim do relacionamento com Alex, em suspenso por tanto tempo e agora incontornável. Uma segunda trama começa a ser trançada com impressionante destreza temporal: lembranças da noite em que se conheceram, a descoberta da sexualidade, a dor do rompimento e a tensão do reencontro. 

Faz mais de duas semanas que Alex tocou a campainha, o som me encontrando encolhida na poltrona. […] Ao abrir a porta para a melhor amiga de Sofia, eu abria uma fenda, e o mundo criado por mim mais cedo se tornava permeável. A presença dela me realocava do particular para o tempo e o espaço comuns. Tempo e espaço a correr, a contar as horas de uma irmã morta. Tempo e espaço sobrepostos, onde os mortos que acumulei ao longo dos anos gritavam e esmurravam as lápides que construí para cada um.

Antonia teme e evita o reencontro, mas logo percebe que seu medo é uma projeção. Os dias vão transcorrendo e Alex passa a ser um lastro do tempo presente na vida de Antonia, um abrigo para a tempestade que acaba de desaguar sobre ela. É Alex quem sugere que a narradora abra as fotos da câmera deixada por Sofia no quarto do hotel. São imagens de lugares em São Paulo, alguns reconhecíveis, como o topo de edifícios famosos. Talvez Sofia estivesse estudando o melhor lugar para executar seu plano. A dúvida atormenta a irmã.

O fato é que há sempre um ponto cego, o mistério nosso de cada dia. Por mais próximos que sejamos das pessoas que amamos, haverá sempre uma distância inacessível, que nem o mais forte vínculo é capaz de neutralizar. A vida, assim como a morte, é feita de mistério, “life is filled with holes”, como canta Patti Smith nos fones de Antonia. É também nesse ponto, feito de silêncio, dor ou esquecimento, que a arte ganha corpo, preenchendo fendas e buracos. E produzindo vida apesar da morte.

Quem escreveu esse texto

Nanni Rios

É jornalista, produtora cultural e fundadora da Livraria Baleia, em Porto Alegre.

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “Mistério de cada dia”

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