Poesia,
Triângulo poético
Inspirado por troca epistolar entre Marina Tsvetáieva, Boris Pasternak e Rainer Maria Rilke, Alberto Martins cria poemas da melhor cepa
28jan2026 | Edição #102O intenso e assimétrico namoro entre a literatura brasileira e a russa acaba de produzir um saboroso e original livro de poemas. Boris e Marina, de Alberto Martins, dialoga, no mais cristalino português de dicção brasileira, com a troca epistolar de dois dos maiores poetas da Rússia no século 20.
Bruno Gomide, professor de literatura e cultura russa da USP, definiu como “febre de eslavismo” o contágio que as letras russas começaram a produzir entre as brasileiras a partir do final do século 19, infectando nomes que se tornariam decisivos em diversos gêneros de nossa literatura, da poesia de Carlos Drummond de Andrade aos contos de Clarice Lispector e Lima Barreto, passando pelos romances de Graciliano Ramos, Lúcio Cardoso e Rubem Fonseca, até chegar ao teatro de Nelson Rodrigues, numa lista que está longe de ser exaustiva.
Gravador, escultor, prosador e poeta, Martins tem sido um agente direto da disseminação dessa febre, como editor da casa mais associada aos russos no Brasil, a Editora 34. E sua própria obra autoral é marcada por esse diálogo. Para não ir muito longe, basta lembrar sua última obra publicada, a lírica e densa Violeta: uma novela (Editora 34, 2023), que gira em torno de um grupo de teatro amador que tenta montar uma peça de ninguém menos do que Maiakóvski na zona portuária de Santos, na década de 40.
Agora sua imaginação foi captada pela troca epistolar entre os dois personagens do título: Boris Pasternak (1890-1960) e Marina Tsvetáieva (1892-1941). São autores editados no Brasil, embora sua recepção por aqui seja algo desigual. De Pasternak o que se conhece, essencialmente, é o romance Doutor Jivago, adaptado às telas por David Lean em 1965 (com Omar Sharif no papel-título, e popular trilha sonora de Maurice Jarre); e que foi laureado em 1958 com um prêmio Nobel que o governo soviético o pressionou a recusar. Já Tsvetáieva foi objeto de um alentado volume biográfico de Tzvetan Todorov, Vivendo sob o fogo (Martins Fontes, 2008), tem merecido antologias poéticas de várias editoras, e mesmo sua prosa curta vem recebendo atenção.
Correspondência
Os dois começaram a se escrever em 1922, com Tsvetáieva radicada em Berlim e Pasternak, em Moscou, e dedicaram uma série de obras literárias um ao outro. Após muitos adiamentos, e treze anos de correspondência, finalmente se viram, em 1935 — um anticlímax que Tsvetáieva posteriormente chamaria de “não encontro”.
Martins elege como ápice dessa correspondência os seis meses de 1926 em que ela se torna um triângulo, com a entrada em cena do poeta austríaco Rainer Maria Rilke (1875-1926), que vivia então na cidade suíça de Valmont e encontrara o pai de Pasternak, o pintor Leonid, nas viagens que fizera à Rússia com Lou Andreas Salomé, no final do século 19.
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Pois bem: naquele ano, Pasternak recebe ao mesmo tempo um poema de Marina e uma carta do pai, transmitindo os elogios que Rilke fizera a seus versos. Empolgado, Boris escreve a Rilke para agradecer os elogios e recomendar-lhe que entre em contato com Tsvetáieva.
Os lados do triângulo são desiguais: Boris e Rilke param de se escrever. Ambos se correspondem, sim, com Marina. Boris cada vez mais inflamado de amor por ela, que, por seu turno, exalta-se de arrebatamento romântico na correspondência com Rilke. Este compõe uma elegia para Tsvetáieva, mas mantém certa reserva: além da distância (a poeta russa residia na cidade litorânea francesa de Sainte-Gilles-sur-Vie), havia a questão de sua saúde em declínio — Rilke viria a falecer em 29 de dezembro do mesmo ano.
O livro tem elementos da biografia dos poetas mortos sem pedantismo ou meticulosidade
Em 1935, ao falar de colegas na arte poética, Marina diz:
Entre os que se igualam a mim em força, só encontrei Rilke e Pasternak. O primeiro — por escrito, seis meses antes de sua morte, o outro — sem vê-lo. Oh, não apenas em força — poética! Força como um todo + força poética. (De criação verbal). Pois, para mim, não pode existir força como um todo sem força verbal. Para mim (em mim e nas minhas exigências) trata-se — de uma coisa só. Não posso me imaginar muda — como também a Rilke — ou a Pasternak.
Essa é a força motriz de Boris e Marina, como o autor conta em nota introdutória ao livro:
Os poemas deste livro começaram a ser escritos uma década atrás, sob o impacto da leitura dessas cartas. Mais tarde, foram organizados em sequências nas quais se alternam as vozes desses poetas, de modo que cada fragmento pode ser lido também como parte de um movimento maior. O rodapé de cada página registra a voz que está falando e, em alguns casos, rubricas no alto, à direita, contextualizam a ação.
Martins tem elegância e erudição suficientes para salpicar seus poemas de elementos da biografia dos poetas mortos sem pedantismo ou meticulosidade que truncariam a leitura. Dignos de nota são os poemas dedicados à relação de Pasternak com a música, embalados pela audição imaginária de uma Suíte para violoncelo solo de Bach — filho de uma pianista de concerto, Rosa Kaufman, Boris foi aluno do compositor Reinhold Glière e escreveu obras influenciadas por Scriabin (que era amigo de seu pai), incluindo uma Sonata para piano em si menor, antes de largar a música e abraçar a literatura.
Cor local
Quem estiver em busca de “cor local” vai achar riqueza de alusões à taiga, à vodca, e uma superabundância de topônimos, de Minsk ao Quirguistão, passando por logradouros públicos moscovitas e pelas inescapáveis alusões siberianas.
Analogamente, a literatura russa se faz presente, seja com menções diretas a Púchkin e Tchékhov, seja com alusões à “barata do Kremlin” (Stálin por Mandelstam), ao “NOSSO TEMPO/ que rifa poetas/ como poeira” (ecoando “A Geração que Esbanjou seus Poetas”, de Roman Jakobson) ou com a subversão dostoievskiana “sua beleza não salvará o mundo”.
No diálogo com os personagens que lhe serviram de inspiração, o ponto culminante são os poemas que abordam o suicídio de Marina em Ielábuga. O livro é concluído por uma poderosa evocação do além-túmulo na voz poética de Rilke. Porém, como Martins afirma em sua nota de introdução, não se deve esperar na obra “nem versos nem verdades que correspondam às figuras reais de Tsvetáieva, Rilke, Pasternak”.
Embora Tsvetáieva tenha morado por algum tempo em um balneário, e o mar seja um tópos poético dos mais tradicionais, as múltiplas alusões marítimas do livro não nos deixam esquecer o quanto a literatura de Martins é informada por sua cidade natal, Santos (SP). Assim como sua predileção pela poesia de Francisco Alvim o faz imaginar Pasternak a deparar-se com um livro do poeta mineiro, e declarar a Marina: “busco em poetas futuros/ coisas que por um momento/ me aproximam de você”.
Em Boris e Marina, Martins não faz dissertação acadêmica. Não faz biografia. Faz poesia. Brasileira. No nosso português. Da melhor cepa. E muito boa de ler.
Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “Triângulo poético”
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