Literatura japonesa,
Dentro das sombras
Romance policial de Edogawa Ranpo mergulha no lado obscuro do gênero ao unir elementos das narrativas ocidentais e tradição nipônica
01dez2025 • Atualizado em: 30nov2025 | Edição #100Nas primeiras páginas de A besta nas sombras, o narrador indica a existência de dois tipos de escritor de romances policiais. O primeiro demonstraria interesse pelo aspecto brutal e psicológico dos crimes cometidos pelos personagens, enquanto o segundo se voltaria para o procedimento investigativo, dedicando atenção à lógica por trás das pistas encontradas ao longo do caminho. Ao examinar os atos e a mentalidade dos criminosos, os escritores pertencentes à primeira categoria seriam considerados sujeitos de caráter duvidoso, uma vez que cultivam uma predileção pelo lado mais sombrio da mente humana. Logo em seguida, o narrador anuncia que se enquadra na segunda categoria e completa: “Posso afirmar que talvez eu seja uma pessoa com um dos sensos morais mais elevados deste mundo”.
Publicado em 1928, o romance de Edogawa Ranpo (pseudônimo de Tarō Hirai criado a partir da pronúncia japonesa de Edgar Allan Poe) combina elementos das narrativas investigativas ocidentais com a tradição artística nipônica, com destaque para a presença do vazio e da alusão. O vazio, na literatura, manifesta-se em descrições mínimas e essenciais, elipses temporais e tramas com desfecho em aberto, garantindo espaço às considerações do leitor. Ao explorar uma ficção investigativa que valoriza o vazio, Ranpo se desvincula da ideia de arte como algo fixo, acabado e fechado, e estimula a participação do leitor na fruição do romance.
Escrito como relato de um personagem sem nome, A besta nas sombras apresenta o intrincado relacionamento entre um escritor e uma mulher rica e casada. O envolvimento entre os dois nasce de um encontro no Museu Imperial de Tóquio, diante de uma estátua budista marcada pela compaixão. Através da camada de vidro que protege a figura religiosa, o escritor enxerga a imagem refletida de uma bela mulher a poucos passos de distância. Com gestos contidos e timidez, Shizuko Oyamada se apresenta como admiradora de sua obra, dando início a uma amizade entre eles.
Em uma ficção investigativa que valoriza o vazio, o autor se desvincula da ideia de arte como algo fechado
Após meses de troca de cartas, o escritor recebe a inesperada visita de Shizuko, que lhe revela a origem de suas angústias recentes. Um ex-namorado tem enviado cartas para sua casa, assombrando-a com promessas de vingança. Em uma das mensagens, o sujeito confessa viver sob o pseudônimo de Shundei Oe e afirma que o rancor nutrido durante anos por ela lhe permitiu escrever sangrentos romances policiais. Ele ainda descreve com precisão os momentos de intimidade da antiga amada, como se fosse uma criatura oculta nas sombras da residência dela. Temendo que o marido descubra esse relacionamento do passado e perceba que não se casou com uma mulher virgem, Shizuko espera que o narrador a ajude a localizar o paradeiro do ex e a impedir seu plano de retaliação.
A obra literária de Shundei Oe, de acordo com o narrador, enquadra-se na primeira categoria de sua teoria sobre os diferentes tipos de escritores de romances policiais. O estilo cruel e desagradável de seus textos é justamente o que sustenta sua popularidade entre os leitores, embora ele fosse conhecido por cultivar um comportamento misantropo e estivesse havia um ano sem publicar um novo livro. O interesse mórbido de Shundei Oe revelaria seu caráter desvirtuado, colocando-o em oposição à obra e à moralidade do narrador.
Ainda que não acreditasse na ameaça, ele decide aceitar o pedido de ajuda, admitindo tanto o desejo de permanecer mais tempo ao lado de uma mulher casada quanto a possibilidade de derrotar o rival. Tudo ganha contornos mais dramáticos quando um crime ocorre, evidenciando a ameaça invisível em torno dos personagens.
Borrões
Mais Lidas
As fronteiras entre ficção e realidade mantêm-se em constante movimento ao longo da trama. O narrador e Shizuko parecem acreditar no intercâmbio entre o que está em um romance e o que ocorre na vida deles. Enquanto a mulher procura um escritor de histórias detetivescas para solucionar um mistério real, engendrado por outro escritor do mesmo gênero, o narrador revela uma visão pueril ao acreditar que alguém que escreve histórias cruéis seja, por isso, cruel. Ao tentar desvendar o enigma, o narrador se baseia nos romances de Shundei Oe, comparando-o a seus próprios personagens.
Este caso emana traços das obras de Shundei Oe, por isso, peguei seus romances para ler imaginando que se eu os pesquisasse em mais profundidade obteria uma chave para sua solução.
As sombras desempenham um papel fundamental em toda a narrativa, pois ocultam indivíduos terríveis e perturbam os ambientes. Dentro delas, pessoas e objetos perdem os limites que os definem, tudo se desfaz em borrões. Os personagens se veem desorientados, com suas certezas e identidades constantemente confundidas. Embora o narrador afirme não explorar a subjetividade de personagens defeituosos e não cultivar um interesse mórbido por temas obscuros, aos poucos mergulha na interioridade perturbada dos envolvidos nessa teia macabra. A fragilidade de Shizuko se desdobra em uma faceta assustadora.
Perdidos entre as sombras, os personagens podem ser a besta a que o título se refere. O projeto estético de Ranpo não admite respostas simples; qualquer expectativa nesse sentido pode resultar em uma experiência frustrante. Impedindo um desfecho terminante, os enigmas permanecem em efervescência após o término da leitura e atraem o leitor para dentro de suas sombras.
Editoria com apoio Japan House São Paulo
Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025. Com o título “Dentro das sombras”
