Livros e Livres,
O ladrão está de volta
Escrito na prisão, romance de estreia de Jean Genet retorna às livrarias após quarenta anos e apresenta caráter contraditório, provocador e maldito do autor
30set2025 | Edição #98Depois de quarenta anos fora de catálogo, a Todavia anunciou no início deste ano, enfim, a publicação de quatro dos cinco romances da série autobiográfica de Jean Genet, começando por Nossa Senhora das Flores, sua estreia no gênero. Publicados entre 1943 e 1948, de forma clandestina, os romances do autor foram escritos num rompante, operando a metamorfose excepcional de prisioneiro desconhecido a escritor cultuado. Ainda que o seminal Diário de um ladrão tenha sido editado nos anos 2000, é estranho pensar que a obra do autor passava incólume às apostas do mercado editorial brasileiro, sobretudo na última década, dado o surgimento e a valorização de vozes autobiográficas e marginais. Apesar de sua obra teatral encontrar sobrevida, graças principalmente às atualizações nos palcos, é de se questionar por que levou tanto tempo para que os romances retornassem às livrarias.
Os predicados que frequentemente acompanham o nome do autor — órfão, desertor, gay, prostituto, ladrão e vagabundo — oferecem um prato cheio para atrair a atenção de editores e leitores. Mas, no caso de Genet, talvez tenha sido o conjunto dessas qualidades que lhe custou quatro décadas fora de catálogo. Parte da demanda por uma literatura representativa ou “necessária” parece requerer certo higienismo moral, exigindo que personagens LGBTQIA+, negros, mulheres, entre outras minorias políticas, sejam representados como bons ou inaptos à contradição, pois assim servem para consolar a angústia que o real é incapaz de aplacar. Felizmente, Genet não oferece resoluções, muito pelo contrário. O que lhe interessa é buscar o mal como em uma ascese escatológica que transforma os personagens, bem como o próprio autor, em santidades que, como diz em Heliogábalo (2025), peça inédita recém-lançada pela Ercolano, habitam outro mundo: o imundo.
Interessa a Genet buscar o mal como em uma ascese que transforma seus personagens em santidades
Agora, em seu retorno, a ânsia contemporânea por encontrar na literatura um espaço de justiça social resulta na pressa em oferecer uma imagem formatada do autor — como figura totalizante, precursor e ativista queer. Mas a sua obra e biografia escapam a simplificações: Genet manteve amizades com escritores colaboracionistas, foi acusado de nazismo devido a seu terceiro romance, Pompas fúnebres (1947), e nunca foi um militante pelos direitos dos homossexuais — ainda que, no fim da vida, tenha colaborado com os Panteras Negras e defendido a Palestina no texto “Quatro horas em Chatila” (1983). É justamente seu caráter contraditório e provocador, cerne de sua atitude literária, que deve ser preservado e apresentado ao público, que decidirá como lê-lo.
Mitologia das bichas
Em 1943, um poema do prisioneiro até então desconhecido chegou às mãos do escritor e dramaturgo Jean Cocteau. No ano anterior, Genet encomendou a impressão da plaquete O condenado à morte (1942) a um falsário de tíquetes de alimentação, conhecido da prisão de Fresnes. Cocteau se impressionou com a qualidade do poema e logo quis conhecer o autor. No encontro, Genet disse que tinha um romance em gestação e lhe deu o manuscrito das primeiras páginas de Nossa Senhora das Flores. Pouco depois, ao ler a versão integral, o dramaturgo registrou as primeiras impressões de leitura em seu diário: “Trezentas páginas incríveis nas quais ele cria, de todas as formas, a mitologia das bichas. […] É o grande acontecimento da época”.
Nossa Senhora das Flores foi publicado nas últimas semanas de 1943. O volume não trazia o nome de uma editora, apenas o título e o autor. Os primeiros exemplares começaram a circular no início de 1944, mas a repercussão do romance só ganhou tração após a Liberação de Paris, em agosto. Não demorou para que se tornasse um clássico cult e lançasse Genet, o escritor-prisioneiro, como a novidade da cena artística e literária francesa, angariando amigos como Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Após a publicação nos Estados Unidos, em 1963, Nossa Senhora das Flores caiu nas graças da cultura alternativa. A travesti Divina inspirou a icônica Divine de John Waters, David Bowie planejou adaptar o romance para
o cinema, Patti Smith passou a adorá-lo, e o romance é citado na lista de referências culturais obrigatórias para se trabalhar na Vogue nos anos 90.
A dedicatória do romance traz o nome de Maurice Pilorge, o assassino que degolou seu amante mexicano, foi condenado à morte e executado em praça pública. A primeira palavra do romance é o nome de Eugen Weidmann, o alemão que foi condenado à morte pelo assassinato em série de seis pessoas e entrou para a história como o último a ser guilhotinado em praça pública na França, em 1939. Ainda nos primeiros parágrafos, Genet lembra Ange Soleil, que assassinou sua mulher e foi condenado a trabalhos forçados, e Marc Aubert, marinheiro francês condenado e fuzilado por espionagem e traição.
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Em sua cela, após apresentar essas quatro figuras do crime como em um ritual de invocação, o narrador afirma que busca honrar essa “maravilhosa eclosão de belas e escuras flores”. As primeiras páginas do romance são, portanto, um prenúncio exuberante do projeto poético do autor: do espaço inerte da cela, erigir uma contrassoberania feita da matéria vaporosa dos sonhos, rica em imagens, povoada por belos assassinos, ladrões e travestis, que traem e transam como se essas fossem as únicas leis a reger o mundo. E, como termo do projeto, conforme ele dizia, criar sua própria lenda.
Tragicomédia
O romance conta a história da travesti Divina, do assassino apelidado de Nossa Senhora das Flores e a própria história do narrador Genet, confinado em sua cela. A vida de Divina é uma tragicomédia que lembra Ángel, protagonista do filme Má educação (Pedro Almodóvar, 2004); Simona, narradora do romance Neca (2024), de Amara Moira; ou ainda as irmãs magníficas de Camila Sosa Villada. Em Paris, Divina se diverte com o cafetão Gostoso-de-Pé-Pequeno, com a amiga Mimosa e, tal como uma rainha da Place Blanche-Pigalle, no bairro boêmio de Montmartre, exibe uma sexualidade fluida. Pouco preocupada com seus pronomes e devota da vulgaridade, quer sobretudo gozar, ser devorada pela noite em uma explosão de fogos multicoloridos.
Nossa Senhora das Flores, personagem que dá nome ao romance, é o extremo oposto de qualquer um dos signos que se poderiam colar à imagem de uma santa. O jovem entra na história como num gesto teatral. Assassina um velho burguês e, assombrado pelo cadáver que acabou de produzir, vomita sobre a boca do morto. Quando o crime é descoberto e o nome de Nossa Senhora das Flores domina as manchetes policiais por toda a França, o padre de um vilarejo se confunde e reza uma missa em louvor à nova santa; uma criança pergunta à mãe se ela produz milagres.
A todo momento a narrativa retorna à cela e encontra Genet sonhando com seus personagens. A alternância de foco entre Divina, Nossa Senhora e o narrador obedece mais ao desejo de elaborar e perseguir imagens poéticas do que a qualquer pretensão de oferecer um fio narrativo bem delimitado. O caráter errante da narrativa poderia ser lido como uma dificuldade de um escritor principiante — e talvez seja. Mas, nos romances seguintes, a forma se repete e se estabelece como um estilo que dialoga com diferentes correntes do romance francês e adianta traços do nouveau roman, que surgiria na década de 1950.
Para Sartre, o romance é uma “epopeia da masturbação”, tanto no seu conteúdo quanto na forma. Se Édouard Louis — que o tem como estimada referência — empreende seu projeto autobiográfico contra a literatura e, portanto, não recorre a metáforas nem a uma atitude lírica, produzindo um texto que busca se sustentar na crueza de sua forma e que se assemelha mais a um relato de terapia, o texto de Genet é como um altar barroco sobre o qual a tragédia da vida é encenada. O amor, o sexo, a traição e a morte são iluminados por uma linguagem que recupera tanto referências clássicas quanto os romances de aventura que o autor lia quando criança, oscilando entre a emulação da sintaxe dos versos alexandrinos de Baudelaire e as inventivas gírias do submundo parisiense. O pau que atravessa a boca é como um campanário que rasga uma nuvem de tinta, a bata de um padre libera seres secretos e tristes, Gostoso-de-Pé-Pequeno avança sobre o narrador com a gravidade implacável das florestas em marcha.
A nova tradução dá conta da linguagem grotesca e sublime do escritor e oferece soluções divertidas
Diferente da tradução da primeira edição do romance, ainda constrangida com o teor sexual, a tradução de Júlio Castañon Guimarães, que tem um trabalho notável com a obra de Baudelaire e Rimbaud, dá conta da linguagem grotesca e sublime do autor e oferece soluções divertidas, como a do nome de Mignon, que, no Brasil, é Gostoso.
É preciso celebrar o retorno do ladrão. Quando Nossa Senhoras das Flores estava prestes a ser impresso, o revisor de prova quis corrigir o início da primeira frase do romance: “Weidmann apareceu para vocês”. Ele imaginou que Genet queria ter escrito “apareceu para nós”. Quando relatou o ocorrido em uma entrevista, em 1982, Genet respondeu: “Eu decidi manter ‘apareceu para vocês’, pois marcava a diferença entre vocês, a quem eu falo, e eu, quem lhes dirige a palavra”. Assim, deixando claro que está do lado dos seus, Genet convida à leitura como quem deseja exibir uma ordem medieval na qual quem é assassino é rei.
Que Nossa Senhora das Flores se abata sobre os leitores brasileiros tal como o rosto de Weidmann sobre o cotidiano dos burgueses entristecidos, fazendo lembrar que, rente à monotonia das estantes das livrarias, agita-se neste livro uma horda de seres prontos para tomá-los de assalto.
Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “O ladrão está de volta”
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