Os Melhores Livros de 2025, Poesia,
Santas vulgaridades
Sagrado e profano se irmanam em nova coletânea poética de Adélia Prado, que narra vivências de uma mulher exposta à voragem do tempo
08set2025 • Atualizado em: 01dez2025 | Edição #100A nova coletânea poética de Adélia Prado, O jardim das oliveiras, é um acontecimento literário em virtude de seu alto nível de realização. O título, com as fortes ressonâncias bíblicas tão caras à autora, reconfigura o Jardim do Getsêmani, onde Jesus orou na noite anterior à sua crucificação, recebeu o beijo de Judas e foi preso. Lugar de angústia e agonia, portanto, de embate entre o Filho e o Pai em razão de um destino sobre-humano de difícil aceitação: “Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, seja como tu queres” (Mateus, 26).
Transformar tudo isso em poesia, a partir das vivências cotidianas de uma mulher exposta à voragem do tempo, que a reminiscência converte em temps retrouvé, é a tarefa à qual a poeta se entrega de corpo e alma. Entrega que refaz o longo caminho percorrido pela sua poesia — “memória forjada em pó/ de carvão e lágrimas” —, depurando-a ao máximo. E que reforça, assim, a dicção que lhe é própria e, ao mesmo tempo, abre caminho para nuances imprevistas, novos significados: “enigma que chamo Deus,/ outros chamam poesia”.
O poema de abertura, “Pange lingua” (do latim: canta, ó língua), remete ao hino sacro escrito por São Tomás de Aquino em louvor ao Santíssimo Sacramento. Ao recuperá-lo como ponta de lança da linguagem poética, em que a voz lírica lamenta a “pouca valia” de si e “a perfeição impossível”, a composição afirma metaforicamente a persistência da poesia, como indica o último verso, “Maranata!”: “Vem, Senhor!”, expressão aramaica usada na Bíblia como invocação e expectativa pela segunda vinda de Cristo.
Nesses termos, o pacto de leitura proposto por Adélia se apresenta como “Uma história com refrões”, título do segundo poema, voltado para a lembrança da menina que foi e que mostra seu dia a dia como revelação permanente. Sagrado e profano não se distinguem mais, aparecem justapostos ao sabor da “vida incorruptível”, diz a poeta-caçadora “do que nunca foram só borboletas”.
O milagre da poesia se apresenta então como o possível “diminutivo”, mais plausível para a menina que se defronta, pela primeira vez, com a morte de um bebê:
Se o defuntinho está vivo/ em sua casa nova no céu,/ um milagrinho mais fácil pode acontecer:/ meu reloginho querido andar de novo/ por força da minha fé.
Mais Lidas
A recuperação da perspectiva infantil imprime leveza à onipresença da morte, que comparece em toda a coletânea como motivo condutor da relação entre o sagrado e o profano, inseparáveis na memória poética e, de certo modo, razão maior de seu exercício, sem romper o enigma que encerra: “Nem quero que a bruma se desfaça,/ nem de leve romper o mistério das coisas que ela encobre”.
Falar de Deus ou dar forma àquilo de que se traveste são instâncias reversíveis, nas quais o sublime e o mais prosaico se irmanam para dar conta das “santas vulgaridades” que, afinal, configuram a dimensão humana em sua dimensão divina — ou o contrário? Ambas demandam da poeta uma busca interminável, que se confunde com a própria vida, pois “[a] vontade de Deus é o mundo,/ também inescrutável em seu mistério” — escreve em “A imitação de Cristo”, atualizando o tratado de moral cristã e referendando seu valor devocional, mas como força viva, que se move e se refaz ao longo do tempo.
O pecado é bastante contingente, embora não perca seu valor prescritivo: “Continuar querendo/ me faz bondosa e pobre./ Ó criador e dono dos diamantes,/ me dê a certeza de que não é pecado/ não parar de pedir o que já tenho” — ou seja, de continuar desejando.
De todo modo, amor e morte, duas forças irmanadas no erotismo, como transcendência e limite da vida, são fortemente insinuados nos belos versos finais de “Caleidoscópio”: “A boca de Deus no seio róseo/ comendo e regurgitando o virginal colostro./ Os gatos recomeçaram no telhado,/ não há como enxotá-los”.
Neblina
Em “Névoa”, que remete ao amor de Riobaldo e Diadorim, ressoa a proposta de “A invenção de um modo”, do livro de estreia, Bagagem (1976), poema este que conclui enunciando as interlocuções da poeta: “Tudo é Bíblias. Tudo é Grande Sertão”. Agora, a memória se distende como paisagem que se faz e se desfaz na névoa da lembrança: o pai morto, o “Espírito de Deus pairando sobre as águas”, o frio de maio, a escola, a paixão impossível de Riobaldo: “Diadorim é a minha neblina”, repete a poeta tornada leitora.
Ao poema cabe dar contorno ao que não se deixa contornar — no duplo sentido do verbo —, objetivo impossível de antemão. “Não se faz poesia apenas com palavras;/ poemas, sim, mas quem precisa deles?”, aceitação da derrota como agente da “voz que de outra maneira soa”. Essa visão religiosa do mundo, em Adélia, tem no corpo — “terra de dores” — sua razão de ser, uma vez que ele é meio e fim, sujeito e objeto da expressão poética: “Falo do corpo que deixei dormindo/ e desperta agora, feliz e bruto./ Deus não se agrada de santidades mofinas”. Daí o “corpo ininteligível” de “Reza na tarde quente” ou o de “Corações”: “Amo a carne que desprezo,/ me sirvo dela para encontrar o espírito,/ que não sente medo nem vergonha./ Nada explica o mistério que me sustenta” — e que sustenta a poesia.
Amor e poesia, enfim, buscam dar voz a “uma fome tão grande” que não cessa de demandar sempre e mais a “lucidez cruel” que permita alcançar “o pressentido ritmo,/ a imemorial paisagem”. O sagrado e o sacrifício, então, se realizam nas “palavras que possam dar ao horrível da vida/ uma porção de alegria”, como é dito em “Vale de lágrimas”.
Voltar à poesia de Adélia Prado, no momento em que o sentimento religioso muitas vezes se amesquinha e se reveste de demagogia e imposição ideológica, é um ato imprescindível de resistência e libertação.
Matéria publicada na edição impressa #100 em dezembro de 2025.
Porque você leu Os Melhores Livros de 2025 | Poesia
Lucidez selvagem
Livros de Orides Fontela, homenageada da Flip 2026, ganham nova edição e mostram que sua poesia alcança o presente e o futuro
JULHO, 2026
