Encontro de Leituras,
Você não soube me amar
Cartas entre Fernando Pessoa e Ofélia, sua única namorada, formam um quase romance epistolar
18ago2025 • Atualizado em: 19ago2025 | Edição #97Fernando Pessoa não é o poeta dos apaixonados. Ele escreveu versos de amor, mas esses não são tão expressivos ou ardentes a ponto de alguém, na alta madrugada, insone em meio à obsessão pelo ser amado, folhear com urgência um livro de Ricardo Reis ou de Álvaro de Campos, dois de seus heterônimos. No primeiro, encontrará o sentimento idealizado: “Que quer o amor mais que não ser dos outros?/ Como um segredo dito nos mistérios,/ Seja sacro por nosso”. No segundo, a ironia tão característica do poeta: “Todas as cartas de amor são/ Ridículas”.
Pessoa também não foi um grande amante. Pelo que sabem seus biógrafos, teve apenas uma namorada, Ofélia, com quem trocou beijos e carícias, sem nunca consumar, de fato, o romance. Morreu virgem, provavelmente, exercendo sua misteriosa sexualidade apenas no papel. No entanto, temos aqui a coletânea de suas cartas de amor. O que dizer sobre elas? Ou, melhor, o que dizem sobre um homem tão reservado que não abriu sua vida sentimental nem a seus escassos diários?
Não é o poeta, nem seu estilo, o que mais atraiu esta resenhista em Cartas de amor, editado pelo professor, tradutor e crítico Jerónimo Pizarro. Afinal, como dito, o poeta é quase uma ausência quando se trata de paixões. A solidão e a angústia de ser e pensar, essas sim, são seus temas de preferência. O que atrai na coletânea é justamente o encontro das faltas de Pessoa com a possibilidade do amor, com uma mulher — Ofélia — por quem se encanta e que o deseja como marido.
É possível ler Cartas de amor como um romance epistolar: a história de um encontro seguido de uma série de desencontros — ela queria o casamento, ele, a liberdade para o trabalho literário. O namoro minguou, deixando um caminho não percorrido. Um destino improvável, quem sabe odiável, quem sabe alegre. “(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira/ Talvez fosse feliz)”, escreve Álvaro de Campos em seu célebre “Tabacaria”.
Bebé e Nininho
Ofélia e Fernando (ou Bebé e Nininho, como viriam a se chamar) se conheceram em 1919. Em outubro daquele ano, Ofélia foi entrevistada para ser secretária da empresa onde Fernando cuidava da correspondência comercial. Foi aprovada. Os dois começaram a trocar olhares e bilhetes, sempre discretos, já que Ofélia tinha namorado. Mas em 22 de janeiro de 1920, quando ela estava de pé em seu gabinete, vestindo seu casaco e prestes a ir embora, ele entrou. Sentou-se na cadeira dela e se declarou, citando Hamlet — que também amava uma Ofélia.
Assustada com a declaração, ela terminou de vestir o casaco e deu as costas, se despedindo. Num gesto rápido, ele a agarrou pela cintura e, sem dizer nada, beijou-a “apaixonadamente, como um louco”, conta a própria Ofélia em depoimento transcrito na cuidadosa apresentação da coletânea, assinada por Pizarro. Foi só em março, decorridos quase dois meses desse beijo, depois de tentar averiguar — sem sucesso — se as intenções de “Fernandinho” eram direitas, que ela deixou o então namorado, um rapaz chamado Eduardo Cunha. Estava iniciado o relacionamento mais importante, talvez o único, da vida de Pessoa.
Kiss me
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É desse período a primeira correspondência trazida no volume. Papéis dobrados com pequenas súplicas: “Kiss me” e “Dê-me um beijinho, sim?”, outros com versinhos, além das cartas inaugurais com apelidos carinhosos, diminutivos, muitos “beijinhos” e perguntas já feitas por tantos namorados: “Gostas de mim, do Íbis, do Nininho?”. Fernando conta que está doente, tenta combinar o próximo encontro, suspira “ai, meu amor, meu Bebé”.
Não espere a leitora ou o leitor encontrar nesses registros um trabalho de linguagem análogo ao da poesia de Pessoa, nem no seu ritmo nem nas suas imagens e reflexões originais. As cartas, assinala Pizarro na apresentação, têm algo de “puerilidade”, em sua maioria carregam um tom infantil. O editor cita David Mourão-Ferreira, primeiro leitor dessa correspondência como conjunto textual, que viu nelas o tema “da infância procurada ou reencontrada através do amor”. De fato, além de chamar sua amada de bebê, por vezes o poeta, então com 31 anos, reproduz a fala de uma criança, o que pode causar constrangimento em quem lê, como se, de repente, víssemos o grande escritor só de ceroulas (ou fraldas): “venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!”.
O traço de linguagem mais interessante é o humor e a ironia presentes em alguns escritos, principalmente os da segunda fase do namoro, entre 1929 e 1931 — a primeira durou de janeiro a novembro de 1920. Talvez porque foram menos contaminados pela paixão, talvez porque Pessoa estivesse mais maduro para compreender a natureza da relação. Vários dos trechos lembram Álvaro de Campos, não só pelo estilo, mas porque ele é nominalmente citado, como um amigo que vê com desconfiança a proximidade do casal. Na última carta que envia a Ofélia, em janeiro de 1930, Pessoa escreve:
Obtida a devida autorização do sr. eng. Álvaro de Campos, mando-lhe o poema que escrevi entre as estações de Casa Branca e Barreiro A […]. Este poema deve ser lido de noite e num quarto sem luz. Também, devidamente aproveitado, serve para fazer papelotes para as bonecas de trapo, para tapar as fechaduras contra o frio, os olhares e as chaves […].
Não são as palavras, separadamente, o que encanta na coletânea. E sim a história que contam. À medida que viramos as páginas, vemos se desenhar um conflito que, carta a carta, se infiltra no sentimento dos amantes e os afasta duas vezes num intervalo de dez anos. O problema se anuncia no princípio, como sempre no amor. Os namorados insistem, tentam novas promessas, mas o nó não deixa de existir, até que paralise tudo. No caso de Fernando e Ofélia, a questão é comum, mas não simples: ela quer se casar, ele, apesar de apaixonado, nunca manifesta tal desejo. Aos poucos e repetidamente, expõe sua vontade de servir a outros mestres, à literatura, isolando-se para tal.
É curioso — e aqui já acompanhamos o poeta como um personagem do tal romance epistolar — como essa postura se repete ao longo do volume. Observamos suas respostas esquivas, suas promessas vagas e, ao mesmo tempo, suas reafirmações de uma vida própria, voltada à sua obra. Enquanto isso, nas entrelinhas de suas justificativas e perguntas (“por que falas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando dele…?”) e nos rodapés do editor, vislumbramos a angustiada figura de Ofélia.
Trata-se de uma reunião dos escritos de Pessoa, mas a sombra da namorada é a presença mais instigante do volume, dedicado ao amor, não esqueçamos. Enquanto Pessoa parece brincar de paixão, desviando-se de qualquer compromisso, Ofélia investe intensamente na relação. Sem subterfúgios, suplica uma vida comungada. Ele tenta ignorá-la. Em uma nota da edição, lemos que ela “pede ao seu ‘Nininho’ que faça uma jura sagrada, prometendo que se casará com ela, para, assim, suavizar a ‘ferida que tanto tem sangrado e sangra ainda’”. Pessoa interpreta o rogo como uma tentativa da mulher de “fugir” dele.
‘Pessoa escolheu a literatura simplesmente porque não podia escolher o amor’
O puxa-e-empurra da relação segue entremeando a correspondência, aparecendo com mais intensidade aqui e ali, por vezes sumindo atrás de um passeio agradável, noutras se exibindo sem disfarces: “Olha, filhinha, não vejo nada claro no futuro. Quer dizer: não vejo o que vai haver, ou o que vai ser de nós”. O conflito conduz a uma separação gradual. Um dos prazeres, melancólicos, que se diga, de ler as cartas em sequência, é perceber como Pessoa vai se afastando. Primeiro, somem os “beijinhos”. Depois, a repetição do “sempre e muito teu” antes da assinatura. Por último, os apelidos íntimos. Os escritos ficam mais curtos e os namorados se desencontram também na cidade, perdendo a hora combinada: “diferença de relógios?”, ele pergunta. Depois de cinco cartas não respondidas, Ofélia dá o ponto-final. O poeta recebe a decisão com “pena e alívio”. Para ele, “o amor passou”.
A correspondência de Ofélia e Pessoa já foi publicada. No entanto, a edição de Pizarro, concentrada nos escritos fugidios do poeta com as súplicas de Ofélia no rodapé, dá ênfase à perspectiva dela. Podemos responsabilizar a sensibilidade contemporânea, mas é difícil compreender a narrativa fora da chave de gênero: Ofélia como mulher que, sem tantas alternativas, almeja mais do que tudo se casar; Pessoa como homem que vê o casamento como uma armadilha para sua liberdade, necessária à criação. Ofélia como esposa. Pessoa como poeta.
Ele defende nas cartas que talvez “o casamento, o lar” não “coadunem com sua vida de pensamento”. Entretanto, nos poemas sobre Ofélia, presentes nos ricos anexos da edição, onde também há fotografias das cartas, lamenta sua falta: “E ou jazigo limpo/ Ou sótão com pó,/ Bebé foi-se embora/ Minha alma está só”. Há aqui um poeta, um homem, que não soube amar? Houve uma escolha ou uma impossibilidade? “Pessoa escolheu a literatura simplesmente porque não podia escolher o amor”, diz a primeira epígrafe da apresentação de Pizarro, de autoria do escritor e especialista pessoano Antonio Tabucchi.
Outra conversa
Ainda nos anexos, vemos escritos bem menos conhecidos do que os endereçados a Ofélia: cartas de Pessoa a Madge Anderson, irmã de sua cunhada casada com um de seus meios-irmãos que morava na Inglaterra. Considerada “louca” pela família, por ser mais independente, Madge foi a Portugal algumas vezes entre 1929 e 1935, chegando a viajar sem o marido. Em parte delas, acredita-se, encontrou-se com Pessoa. É notável como a conversa entre os dois — um homem poeta e uma mulher mais livre ou mais rebelde ante os desejos da família — é de outra natureza. Não se fala em casamento, claro, nem em intenção amorosa, apenas sugerida em versos que enviam um ao outro. Há certa camaradagem, uma troça inconsequente.
No fim do livro, que é também o fim da vida de Pessoa, morto semanas após a correspondência com Madge, pensamos na experiência do amor para homens e mulheres. Fossem elas mais livres, seriam eles mais amantes? Fossem todos mais iguais, não seria o poeta da existência também o poeta do amor?
Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “Você não soube me amar”
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