Livros e Livres,
Maligno vapor pernambucano
Biografia resgata importância do argentino Tulio Carella e suas vivências sexuais, intelectuais e políticas no Recife pré-golpe de 1964
01ago2025 • Atualizado em: 29jul2025 | Edição #96Quando o dramaturgo, poeta, diretor e ensaísta argentino Tulio Carella (1912-1979) chegou ao Recife, em 1960, o calor da cidade, que tanto o surpreenderia e afetaria, era não só climático, mas político e cultural. A capital pernambucana apresentou ao escritor um território com temperatura instigante para suas experimentações intelectuais, sexuais e afetivas. Essas vivências com os recifenses, sobretudo tipos socialmente excluídos e invisibilizados, influenciaram de forma profunda sua trajetória — e estão registradas em Orgia, livro publicado em 1968 que reúne os diários de sua temporada brasileira.
Após décadas de ostracismo no seu país natal, e de uma popularidade restrita no Brasil, Carella agora tem sua memória celebrada em Orgia e compadrio: Tulio Carella, drama e revolução na América Latina, de Alvaro Machado. A biografia reflete sobre os dezoito meses do argentino no Recife — período em que morou no Centro da cidade e viveu sua sexualidade livre, com homens e mulheres de diferentes origens, raças e classes —, mas também amplia o escopo em torno da produção e da importância do argentino.
No Brasil, o nome de Carella esteve por muito tempo restringido a um grupo pequeno mas fervoroso de admiradores, graças a Orgia, esgotado logo após a publicação, adquirindo uma aura mítica. Os relatos eróticos de Carella, sua descrição da cidade, dos seus parceiros sexuais, e sua percepção dos prazeres carnais como forma de contato também com a espiritualidade destacaram a narrativa dentro de uma tradição erótica latino-americana, alvo de admiração de leitores como Hilda Hilst.
A liberdade que esse espaço lhe proporcionou; a atração por um povo tão diferente do seu, na cor da pele, nos costumes e na sexualidade; assim como a própria cidade, sua natureza e arquitetura (a praia, o rio, o porto, bares, quartos de pensões e bordéis, banheiros sujos, becos escuros), instauraram em Carella uma revolução interna que rompeu com o modelo europeizado de pensamento, adotando uma filosofia produzida também a partir do corpo.
Revoltas políticas
Figura de prestígio no meio cultural argentino, Carella foi convidado pelos escritores Hermilo Borba Filho e Ariano Suassuna para lecionar no curso de Teatro da Escola de Belas Artes. Sua vinda ao Recife é fomentada por um descontentamento com a produção artística e intelectual portenha, que ele considerava subserviente aos modelos europeus. Carella já expressava interesse no fortalecimento das culturas latino-americanas e nas trocas entre as nações, valorizando as particularidades de seus povos. Ainda que não tenha se envolvido nas movimentações políticas que aconteciam em Pernambuco,
ele esteve rodeado por elas, o que se reflete em seus cadernos.
Historicamente, o estado é marcado por movimentos intelectuais, políticos e culturais de contestação. “Maligno vapor pernambucano” e “ardência natural dos pernambucanos” foram expressões que, em meio às revoltas sociais e políticas do século 19, como a Revolução Pernambucana e a Confederação do Equador, tentaram explicar, uma pejorativa e outra elogiosamente, a vocação do estado e dos seus habitantes para a insurreição.
Carella passou por uma revolução interna, adotando uma filosofia produzida a partir do corpo
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A chegada do dramaturgo ao Recife coincide com o início da gestão do socialista Miguel Arraes na prefeitura. No seu governo, o Movimento de Cultura Popular reuniu educadores, artistas, estudantes e membros da sociedade civil na luta contra o analfabetismo e pelo acesso da população pobre à cultura. No interior, as Ligas Camponesas lutavam pela reforma agrária e melhorias na vida dos trabalhadores do campo. No âmbito internacional, pouco mais de um ano antes, a Revolução Cubana acendia a esperança da esquerda e o pânico na direita da América Latina, intensificando as dinâmicas da Guerra Fria.
Nesse contexto, as andanças de Carella — um homem de quase dois metros, cerca de cinquenta anos, branco, com porte e roupas elegantes, de língua espanhola — pelo Centro, interagindo com homens da classe trabalhadora, foram vistas com desconfiança. Seus lances com os que levava para o quarto ou trocava flertes nas ruas, às vezes por interesse mútuo, outras, por pequenas quantias em dinheiro, figuram entre o segredo e o descaramento. É um embaralhamento da sexualidade, inclusive do próprio Carella, que se permite experimentar várias formas de prazer.
Seus escritos, com o pseudônimo de Lúcio Ginarte, foram descobertos justamente porque ele foi investigado pelo Exército, sob suspeita de ser um infiltrado cubano a serviço da revolução comunista no Brasil. Em 1961, foi detido, levado à prisão em Fernando de Noronha, onde sofreu torturas físicas e psicológicas por oito dias e, após ser solto, foi demitido e deportado para a Argentina. Em Buenos Aires, passou a se corresponder com Borba Filho, a quem confiou a missão de traduzir e editar os diários no Brasil (não há uma cópia remanescente do original em espanhol, sendo a tradução brasileira de 1968 a única versão do texto). Antes, em 1965, Borba Filho publicou Roteiro recifense, livro de poemas do argentino marcado pela saudade de Pernambuco.
Sua escrita é reveladora e profunda, capaz de descrever o desejo e o sexo de forma explícita, ao mesmo tempo que apresenta um olhar de alteridade para os sujeitos e a cidade. É um relato queer que fala do e a partir do Nordeste. O título que dá aos seus diários está relacionado à ideia filosófica de caos-orgia e quase ganhou outros títulos que dialogam com seu interesse não só pelo sexo, como também pela cidade e seu povo, conforme apontou em carta a Borba Filho. Entre eles, Diário corporal, Os deuses tropicais, Diário do sol ardente, Gozo negro e O rubro caminho de Sodoma.
Apagamento
A repercussão de Orgia na Argentina, a partir dos poucos exemplares distribuídos pelo próprio autor, exerceu impacto negativo na sua carreira. Carella não só perdeu espaços de trabalho, mas também sofreu um apagamento da sua importância na história do teatro do país. Dos anos 80 em diante, sua obra passou a ser resgatada em trabalhos sobre sexualidade na América Latina, como Devassos no paraíso, de João Silvério Trevisan, e nas últimas duas décadas tem sido estudada de forma sistemática, não só em relação à história LGBTQIA+, mas no campo do teatro e da intelectualidade no continente.
Alvaro Machado tem papel seminal nesse processo. O jornalista e escritor foi responsável pela reedição de Orgia em 2011, mais de quatro décadas após sua publicação, iniciativa fundamental para apresentar Carella a novas gerações. As pesquisas em torno da vida e obra do argentino continuaram nos anos seguintes, incluindo sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo, publicada agora em Orgia e compadrio.
A biografia oferece dados inéditos, como trechos da correspondência do argentino com Borba Filho por mais de uma década, traduzida por Machado. O pesquisador teve acesso apenas às cartas de Carella, preservadas por Leda Alves (1931-2023), viúva do pernambucano, já que a família do argentino, após sua morte, queimou vários documentos (entre eles, possivelmente, o segundo volume de Orgia) e até hoje não permite acesso ao material remanescente. A pesquisa minuciosa reúne um vasto acervo iconográfico de Carella, do Recife e de fatos e personagens citados no livro, contextualizando o escritor nas nuances do seu tempo. A publicação apresenta sua grande produção e influência para a cultura argentina, não só no teatro, mas nos estudos da cultura popular, como o tango, na política e na arte.
O livro faz um resgate do artista argentino e de uma história LGBTQIA+ latino-americana
O livro faz um resgate do artista e intelectual argentino e, a partir dele, de uma história LGBTQIA+ latino-americana. As experiências sexuais de Carella, de uma pansexualidade radical, dialogam com o que o cubano José Esteban Muñoz (1967-2013) propõe em Cruising Utopia [Navegando a utopia]. O autor entende o desejo (o “maligno vapor” ou “a ardência natural”) e a utopia queer como potências insurgentes contra as estruturas normativas e excludentes, tensionando questões políticas, raciais, de classe, sexualidade e gênero.
Os escritos do portenho sobre o Centro do Recife e sua gente são significativos para a memória da cidade. A região que tanto fascinou Carella passa hoje por um forte processo de degradação. A desigualdade social que o horrorizou se mantém, talvez até intensificada. Os prédios, em sua maioria, mesmo que mais decadentes, também resistem como podem aos avanços imobiliários que entendem a “recuperação” da área a partir da sua gentrificação. A população queer, em suas mais variadas existências, segue fazendo desse território um espaço de dissidências e disputas. O desejo continua criando novas rotas, ocupando espaços, ardendo.
Matéria publicada na edição impressa #96 em agosto de 2025. Com o título “Maligno vapor pernambucano”
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