Editora 451,

Os fatos acontecem agora

Ao narrar a história de um assassinato, romance ambientado no interior de São Paulo faz irromper a memória de um Brasil opressor

01dez2020 - 01h00 | Edição #40 dez.2020

A atmosfera de O velho que não sente frio e outras histórias é a de um presente que não passa, própria de certos espaços onde o tempo parece ter parado, mas também do traumático e de sua repetição. Ambientado no bairro da Vila Tibério, em Ribeirão Preto, o livro liga de modo surpreendente um crime cometido no presente a outro de um passado que é ainda ferida aberta em nossa história: a ditatura militar (1964-85). 

O velho bebe uma cerveja no bar da esquina das ruas Conselheiro Dantas e Luiz da Cunha. Desse ponto no espaço, ele se torna testemunha de um assassinato: uma mulher que dormia nas escadarias da igreja morre em chamas. De outros pontos de sua quase memória, vem à tona no coração espantado do idoso outra vítima de ação brutal. 

Os crimes não se dissociam na prosa de Daniel Francoy. Ela estreita os laços e nós cegos entre a decadência e abandono dos espaços e a violência comum (coletiva) e a do Estado que nos atinge dia a dia. No agora, mas também vinda do passado, nos interpelando sobre o futuro.

São muitas as perspectivas e reverberações da tragédia em praça pública, ainda que tantas vezes elas fiquem nos porões em nossa história. Direções às quais, nesse livro, apenas o olhar do escritor e sua dicção poética nos dão acesso. Desde seu A invenção dos subúrbios (Jabuticaba, 2018), Francoy recria certos recantos invisibilizados da cidade onde vive, sem jamais apagar a realidade crua em favor da estetização. 

Assim, o Lar Santana, antigo orfanato situado no bairro Vila Tibério, desponta em O velho que não sente frio pelo ângulo dos fundos, onde a alvura das roupas de cama no varal lega a seguinte questão: “Afinal, de que forma o sangue pode macular os lençóis que servem uma casa onde reina a sagrada assepsia?”.

Presa, torturada e exilada em 1969 pela ditadura, a madre Maurina Borges da Silveira (1926-2011), conhecida por ser a única religiosa vítima do regime, era diretora do Lar Santana. Abro este parêntese para chamar a atenção para o fato de que, se em O velho que não sente frio não reconhecemos essa mesma história em seu aspecto documental, não podemos ignorá-la quanto topamos com a que é contada no livro. 

Nesse aspecto, Francoy concorda com Parra: “O poeta não cumpre sua palavra/ Se não muda os nomes das coisas”. São versos do chileno em seu “Mudanças de nomes”, que não estão em O velho que não sente frio, mas poderiam estar. É do poeta chileno a epígrafe-alerta: “‘As risadas deste livro são falsas!’, argumentarão meus detratores”. 

Os crimes não se dissociam na prosa de Francoy, que estreita os laços e nós cegos entre e o abandono dos espaços e a violência do Estado que nos atinge

Como leitores conduzidos por um narrador que se dirige a nós, oferecendo-nos opções, numa espécie de “você decide”, tardamos a reconhecer a conexão entre os fatos destacados acima. Também nos damos conta de que esse suposto gesto democrático do narrador talvez não seja tão confiável. Eis a primeira das muitas enquetes propostas: 

“Como o relato, além de cheirar a inconclusão, torna-se demasiado doloroso, pergunto: 

(  ) é verídico pelo menos em 50%; 

( ) é mentiroso pelo menos em 50%”.

A sugestão contida no título também pode ludibriar. Não se trata de contos. Há outras histórias assim como há outras testemunhas oculares e auditivas: um viciado que brinca no parque; uma mãe que amamenta seu filho. “O miserável que brinca nos balanços parece uma personagem inventada. Por outro lado, uma mãe é sempre possível e crível, o que pode dar ensejo à seguinte oração inventada por mim: eu não acredito em Jesus Cristo, mas acredito que Maria concebeu uma vida sagrada; eu não acredito na crucificação, mas acredito que Maria guardou o sudário sujo com o sangue do filho massacrado”. 

A oração prossegue nesse pequeno romance de chagas, no qual nada remete a Natal: “Um dia antes de morrer incendiada, a miserável acordou com um rato sobre o seu ventre”.

Vaga-lume

“Os fatos acontecem agora.” Estão diante de nós. Os verbos estão conjugados no presente: os termômetros marcam dez graus, a tv do boteco está sintonizada no Altas horas e, na praça, uma leitora de Wislawa Szymborska pega fogo. O passado fervilha incólume: seis meses antes da noite fatal, ela fora esterilizada por decisão judicial. Dormir ao relento e saber de cor o poema “Vietnã” da polonesa é o que soa mais inverossímil. Já o absurdo deixa de ser extraordinário passados alguns dias.

Diante de crimes e tragédias pessoais, poderíamos supor uma atmosfera manipulada em favor do suspense e do desenlace, do encontro de culpados e suas motivações. A investigação central, entretanto, é bem diversa da que encontramos na literatura policial. 

Embora Francoy seja diretor do Juizado Especial Cível e Criminal de Brodowski, nessas linhas reconhecemos o olhar do poeta — vencedor do Jabuti, em 2017, com Identidade (Urutau). Sem suspeitarmos do quanto de insondável passa pela mesa de um escrivão de carreira em matéria das chamadas “pequenas causas”.

O convite de ordem poética é escancarado: “Proponho agora o seguinte exercício de lirismo./ É noite de verão sobre um jardim. Há um vaga-lume. […]/ Acompanhar a trajetória de um vaga-lume específico, no oloroso jardim de verão, logo se revela uma tarefa impossível”. 

Subjetividades são vasculhadas e nem sempre se topa com pistas que são agarradas. “Completemos o exercício acima com a seguinte proposição: cada um dos vaga-lumes é um pensamento ou uma sensação do velho que não sente frio. Quando o vaga-lume brilha ou arde, é o momento em que o velho tem a sensação ou o pensamento. Quando o vaga-lume se apaga, a sensação ou o pensamento também se apaga, ainda que volte a se iluminar daí a dois ou três metros.”

Em A invenção dos subúrbios, há flagrantes da dura aprendizagem desse mesmo “lirismo e sua contenção” e do “modo Vila Tibério de construir eternidade”, reconhecido, por exemplo, na pichação: 7 x 1. “Eu fico com a sensação de que o placar já estava escrito no muro desde 2009, depois desde 2005, depois desde 1993, depois desde 1979, e que eu sempre vi o placar da derrota ao passar por aquela esquina.” Já os leitores de O velho que não sente frio não terão dificuldade de retroceder a 1977 e a 1971.

O autor recria certos recantos invisibilizados da cidade onde vive, sem jamais apagar a realidade crua em favor da estetização

Nesse território nada é datado, no sentido de superado, apesar da aparência das fachadas. Ele arrasta para outras épocas sem ditar uma sequência cronológica ou a resolução de causas secretas intrincadas a questões ligadas à nossa formação enquanto país. No comércio local, reproduz-se o arraigado em séculos de escravidão, e a proprietária de vendinha decadente reconhece-se mais irmanada a sinhás do que a escravizados.

Se a cabeça do velho e a onisciência do narrador caducam, com que tipo de certeza caminhamos pela Vila Tibério de Francoy? A de que perambulamos pela cena de crimes hediondos e interioridades devastadas. Endereço poético e localizável no mapa do interior paulista, sem nunca deixar de ser o Brasil de todo canto e lugar. Onde a memória irrompe involuntária e falha.

Quem escreveu esse texto

Luciana Araujo Marques

É doutoranda em teoria e história literária na Unicamp.

Matéria publicada na edição impressa #40 dez.2020 em novembro de 2020.