Literatura,

Inferno particular

Mirisola sai-se bem em gambiarra ficcional sobre seus fracassos pessoais

15nov2018 - 18h54 | Edição #9 mar.2018

Nas primeiras linhas de Como se me fumasse, novo romance de Marcelo Mirisola, já ficamos sabendo sobre o que trata o livro à medida que o narrador, sem mesquinharia, logo oferece o “resumo” de sua vida: “a disposição de estar errado no lugar certo (e vice-versa)”. Eis a fórmula fatal ou a fantasia que dará certo arranjo à precariedade das memórias do narrador, que se chama Mirisola e se vira como pode para contar a história de seus fracassos, que não foram poucos.

Daí sua constante ruminação que adquire feições variadas ao longo do texto — galhofa, ressentimento, melancolia, maledicência, autoironia, autocelebração — e coincide com o vaivém de um personagem que é mezzo viajante, mezzo fugitivo. Ruminação e fuga são indissociáveis aqui e elevam à máxima potência a disposição para o erro — que o narrador identifica no próprio pai, “seu Zé Paulista, o rei das roubadas”. Freud explica, poderíamos concluir, e Chico Xavier também, dirá o autor. Do que afinal se foge tanto?

O narrador só escreve por causa de Ruína. Ela é a escuna que encalha, o sangue ruim, a ideia fixa

Quanto à desvairada jornada do personagem pelo país, o que tem de maldita tem também de aleatória. Ele parte ao interior de São Paulo para estudar agronomia, apesar de não ter vocação para “enxergar a beleza do mundo a partir de teodolitos ou através do sistema digestivo de bois e vacas”. De lá, vai procurar diamante na Serra da Canastra embarcado numa Belina 82, momento em que ficamos sabendo sobre a “Zona da Gorda”, cafetina que “sublocava” as seis ou sete filhas para os fazendeiros da região. Já nos anos 1990, decide estudar direito em uma universidade mambembe em Santa Catarina, mas acaba trocando seu Gol por um barco de pesca, transformado em escuna de passeio e batizado de Joscielle, “com dois elles”.

Que encalha, obviamente, tanto o amor quanto a escuna — esta cheia de turistas, na época uma tremenda dor de cabeça para a Capitania dos Portos, e aquele sem mais ninguém, já que o personagem foi expulso até “da própria solidão”, segundo sugere. E por aí vamos, com uma ideia de jerico atrás da outra, sendo cada trecho da viagem um círculo diferente (e cada vez mais brega) do inferno. Como escreveu a crítica Maria Esther Maciel citando Cioran, a salvação busca-se no inferno.

Mais do que nos livros anteriores, o autor aqui recorre às próprias memórias, que contudo se apresentam como “alucinação”. A certa altura, o narrador comenta ser impossível separar as duas: memória e alucinação vêm juntas. É por isso que no romance a ênfase não está posta em uma reconstrução do sujeito, mas em sua dissolução radical, como é possível concluir tanto do título quanto do sermão do feiticeiro das celebridades, El Mago.

Como se me fumasse seria então uma “ficção autobiográfica” que se sustenta como uma gambiarra, precariamente, repleta de fragmentos inacabados e casos de amor mal-ajambrados, pois é “invadida” aqui e ali pela dura realidade: a mãe morta, a escuna encalhada, os dois elles de Joscielle. E pelo retorno de Ruína, personagem central da história, que poderia se chamar também Realidade, mulher-fantasma que possui como característica principal retornar — como a própria alucinação, o trauma e as dívidas no cartão de crédito. Daí o narrador ruminar tanto, mudar constantemente de assunto como quem muda de rota: é que se foge também da realidade.

Ruína é a mulher que volta para “destruir tudo”, assim como é também uma espécie de alegoria de toda a trajetória do personagem. Mas meio às avessas: se ela é “enfática, fleumática e objetiva”, ele, ao contrário, especula, perde o controle, volta atrás. É por isso que ela trai, ele perdoa; ela mente, ele acredita. Em suma, uma louca, segundo a profecia do tal mago. 

Seja como for, o narrador só escreve por causa de Ruína, embora também apesar dela. Ela é a escuna que encalha, o sangue ruim, o sintoma e a ideia fixa, tudo batido numa geleia geral e servido como um drinque no inferno, ou na Zona da Gorda na melhor das hipóteses. Não podia dar em coisa boa. Deu em outro romance de Mirisola, escrito com as virtudes de quem se despede, seja da mãe, da realidade, de São Paulo ou da literatura. 

Quem escreveu esse texto

Victor da Rosa

É crítico literário e co-organizador da antologia 99 poemas de Joan Brossa (Demônio Negro).

Matéria publicada na edição impressa #9 mar.2018 em junho de 2018.