Literatura israelense,

A piada não morreu

A extinção das anedotas, que deram lugar ao ‘stand-up’ e aos ‘memes’, não parece ter afetado o humor judaico

01out2021 - 08h18 | Edição #50

Moskowitz e Finkelstein estão num café, tomando chá.
Moskowitz examinou a xícara e disse, suspirando: “Ah, meu amigo, a vida é como uma xícara de chá”. Finkelstein considerou isso por um instante e disse em seguida: “Mas por que a vida é como uma xícara de chá?”.
Moskowitz respondeu: “Como é que vou saber? Sou filósofo por acaso?”.

Antes de gostar de humor, eu gostava de piadas. Lembro que tinha fascínio por elas antes mesmo de conseguir entendê-las — ou por isso mesmo. As piadas da minha época começavam de um jeito parecido. “Um português e um papagaio estavam num deserto…” Uau. Como é que eles foram parar lá? Não importava tanto o arremate, que muitas vezes eu não tinha idade pra entender. O começo já bastava pra prender minha atenção. “Um cavalo e um cachorro entram num bar” — toda anedota podia ser o início de uma peça de Ionesco.

Tive uma infância cercada de piadas por todos os lados. Talvez fossem os anos 90, talvez fosse minha família. Acontecia depois de um almoço, ou de um jantar. Os mais velhos começavam: “Conhece aquela do papagaio?” — daí alguém emendava com o encontro de um brasileiro, um americano e um português no deserto, e às vezes chegavam um bêbado e uma loira. Depois do começo inusitado, vinha o arremate. “Calma, deixa eu colocar o diafragma”, e todos riam. Não sabia o que era diafragma, mas foi ali que fiquei sabendo. Assim como suruba, boquete, punheta. Minha educação sexual aconteceu por causa das piadas — algumas contadas pela minha avó, o que diz muito sobre minha educação sexual.

A anedota tinha uma forma bastante rígida: pequena peça de ficção oral, nunca durava mais que três minutos. Toda narrativa se estruturava como uma escada pra chegar a uma frase lapidar, surpreendente e inusitada, que inverteria a expectativa criada até então, provocando a risada no interlocutor. Na minha família, a graça costumava recair sobre portugueses, loiras e bêbados. Hoje, quando revisito minhas piadas preferidas da infância, já não consigo rir.

A piada costumava ser passada de pai pra filho, avô pra neto, ou, mais frequentemente, de tio pra sobrinho. Mas não só: embora fosse um gênero oral, existiam inúmeras coletâneas publicadas, e eu tinha todas elas. Os adultos sabiam do meu gosto particular e me presenteavam com anedotas nas datas festivas. Agora mesmo tenho uma dessas coletâneas na minha frente e posso garantir: nenhuma das piadas presentes no livro sobreviveu aos últimos trinta anos.

A piada morreu, dirão, junto com os avôs e as avós. Os contadores de piada deram lugar aos comediantes de stand-up. Um humorista que contar uma anedota num show de stand-up terá que sair do teatro escoltado. Na internet, a piada narrativa deu lugar ao meme — mais curto, mais visual, mais postável. A grande extinção das anedotas, no entanto, não parece ter afetado a piada judaica. Assim como os pequenos mamíferos sobreviveram ao meteoro, o humor judaico não morreu — ainda “está com tudo”, nas palavras de Devorah Baum, que cita o sucesso de um programa de tv: “velhos judeus contando piadas”, com ótimos índices de audiência.

Foi com um misto de euforia e receio que deparei com seu livro A piada judaica, em tradução de Pedro Sette-Câmara e belíssima edição da editora Ayiné. Euforia porque amo piadas, e receio pela mesma razão. A autora é uma acadêmica — e poucas piadas resistem quando contadas por um professor universitário. “Explicar uma piada”, dizia E.B. White, “é como dissecar uma rã: você entende como funciona, mas ela morre no processo.” Analisar uma piada está no diâmetro oposto de contá-la, da mesma maneira que não se consegue fazer uma autópsia num corpo que está dançando.

Os judeus têm uma peculiaridade: suas melhores piadas recaem sobre si mesmos

Devorah Baum, no entanto, tem respeito profundo pela matéria viva que apresenta. “Nenhum dos animais foi ferido durante as filmagens”, diz o letreiro no fim do filme, e Baum pode garantir o mesmo das suas anedotas. A grande malandragem da autora está em não cair na cilada de explicar a graça das piadas. Quem pegar, pegou. Senão, bola pra frente. Baum se propõe a dissecar uma rã viva. E consegue pela agilidade do texto e também pela leveza com que aborda todos os assuntos, inclusive a falta de graça da piada que acabou de contar. O subtítulo já deixa claro que o livro não se leva a sério demais: Um ensaio com exemplos (pouco ensaio, muitos exemplos). Tem mais piadas que reflexão — e a reflexão não deixará, também, de ser engraçada. Contei 176 piadas no livro, e qual não foi minha surpresa ao descobrir que o livro tem 176 páginas, numa média assustadoramente precisa de uma piada por página.

Qual será o sucesso da longevidade do humor judaico? Afinal, a primeira piada judaica, lembra a autora, antecede Abraão. Em O humor judaico, Theodor Reik, discípulo de Freud, defende que o humor judaico remete ao Talmud. Moacyr Scliar nos lembra, em seu ótimo compêndio Do Éden ao divã: humor judaico, escrito com Patricia Finzi e Eliahu Toker,  que quando Deus anunciou à idosa Sara que ela teria um filho, aos 91 anos, sua reação foi uma sonora risada. Seu nome, Isaac, inclusive, vem daí: itzchak seria uma onomatopeia de riso, uma espécie de “kkkkkk” bíblico, registro gráfico dessa piada divina que foi a gravidez da sua mãe.

Alvo

Todo povo tem, na sua formação, um alvo tradicional de humor. Os americanos tinham os poloneses, os franceses tinham os belgas, os brasileiros riam dos portugueses e os portugueses riam dos alentejanos. Riam porque já não riem. Faz tempo que não ouço uma piada de português. Os judeus têm uma peculiaridade: suas melhores piadas recaem sobre si mesmos. Séculos de perseguição ensinaram-lhes essa arma infalível, a autoironia. Os judeus são seus próprios alentejanos. Daí a atualidade das suas piadas. Ninguém nunca te impedirá de rir de si mesmo. E se eles tentarem rir de você, duvido que façam alguma piada que você já não tenha feito antes.

Pergunta: Qual a diferença entre um alfaiate e um psiquiatra?
Resposta: Uma geração.

A piada judaica tem algo de críptico, sobretudo pra quem não é judeu. Uma piada judaica, como bem lembra Moacyr Scliar, é aquela em que o goy não ri porque não entende, e o judeu não ri porque já conhece. O leitor goy talvez diga: o livro não é pra mim. Mas calma. Lenny Bruce (né, Leonard Schneider) já deu a dica. Nem todo judeu é judeu, nem todo goy é goy.

Olha só: eu sou judeu. Count Basie é judeu. Ray Charles é judeu. Eddie Cantor é goy. B’nai B’rith é goy; Hadassah, judeu. Se você mora em Nova York ou em outra cidade grande, você é judeu. Não importa nem que você seja católico; se você mora em Nova York, você é judeu. Se você mora em Butte, uma cidadezinha de Montana, você vai ser goy mesmo que seja judeu.

Judeus são todos aqueles que usam o humor pra kvetch, palavra iídiche que serve pra descrever aquele prazer oriundo da reclamação. O humor estaria pro judaísmo como o blues pra negritude norte-americana: uma válvula de escape criativa. “Os negros criaram o blues, os judeus reclamaram”, diz Jon Stewart (né, Jonathan Leibowitz), “nunca pensamos em musicar as reclamações.”

O humor judaico é uma estratégia de sobrevivência — literalmente. Um povo que não tinha exército precisou inventar um jeito de dizer o que pensava. “Ao falarmos ‘estou brincando’, podemos estar falando de coisas inomináveis.” Baum cita o fato de que muitos sobreviventes do Holocausto só conseguiam falar de sua experiência por meio de “grotescas performances cômicas”. O humor serve pra entrar em cômodos trancados a chave. “Com morte não se brinca”, dizemos no Brasil. A cultura judaica inverteu a máxima: “Com morte SÓ se brinca”. Não venha me falar sério desse assunto tão importante.

Dois judeus estão na frente de um pelotão de fuzilamento aguardando sua execução. Enquanto aguardam, o líder do pelotão pergunta a eles: “Algum de vocês tem um último pedido?”.
O primeiro judeu diz: “Isto é um engano terrível!”.
O segundo judeu vira para ele e sussurra: “Morris, não arrume problema”.

A longevidade da piada judaica não tem tanto a ver com as risadas que ela provoca. Você dificilmente gargalhará ao longo do livro. Mas erra quem vê a risada como sinônimo do humor. Embora a risada seja uma das manifestações possíveis da graça, está longe de ser a única, ou a mais nobre — “Fazer rir é a forma mais baixa de comédia”, dizia Michael O’Donoghue. Uma piada pode te fazer rir e ser imediatamente esquecida — acontece todo dia. Pode também, na contramão, ficar gravada na sua mente como uma tatuagem — ou uma música da Dua Lipa.

E talvez essa seja a função primordial do humor, que a cultura judaica compreendeu tão bem, mas não só. Os mineiros dominam como ninguém a cultura da autoironia. Foram eles que me contaram as melhores piadas de mineiro, que, assim como as judaicas, são frequentemente crípticas e metafísicas — aliás, a piada mineira merece um livro à sua altura. Mas, voltando ao Sião, mesmo que o leitor não gargalhe, garanto que não se entediará ao longo do livro. É provável que ganhe algo muito mais precioso que uma risada. Não tenho dúvida de que encontrará nas piadas, quando não a graça, excelentes companheiras pra desgraça.

Antigamente, dois judeus, Moishe e Itzik, estavam andando pela floresta na Ucrânia. À distância, eles veem dois caras da região andando na direção deles. Moishe se vira para Itzik, entra em pânico e diz: “Itzik, o que faremos? Eles são dois, e nós estamos sozinhos!”.

Vínculo

Estamos sozinhos, e temos ficado cada vez mais. A pandemia, a crise econômica, a emergência climática, tudo parece atualizar a piada judaica. Não que ela nos ensine a aceitar o destino. Isso quem faz é o budismo — que não tem lá muita graça. A piada tampouco nos ajuda a derrotar as adversidades — isso quem faz é o coach, essa profissão tão goy. O que a piada judaica promove não é nada disso, mas apenas um vínculo entre os derrotados.

O astrônomo estava terminando a palestra: “Algumas pessoas acreditam que o Sol vai morrer daqui a uns quatro ou cinco bilhões de anos”.
“Quantos anos você disse?”, perguntou a sra. Shindler.
“Quatro ou cinco bilhões.”
“Ufa!”, respondeu ela. “Achei que você tinha dito milhões!”

Assim como aprendi com a minha avó o que era um diafragma através de uma piada, o humor judaico pode nos dar uma chave pra atravessar tempos sombrios. Funcionou com os judeus nos últimos 5 mil anos. Ou terão sido milhões?

Falando em tempos sombrios, a própria autora lembra que o Estado de Israel — e o regime de segregação que ele impõe a palestinos — colocou o judeu numa posição nova, e muito pouco engraçada. O humor judaico, tradicionalmente a arma dos derrotados, perde a graça quando o humorista em questão está armado até os dentes. A autora cita uma ou outra piada boba sobre a alegada falta de polidez do povo israelense — mas ela há de convir que os palestinos têm motivos pra kvetch que vão muito além da falta de polidez dos seus vizinhos.

Baum vê traços de humor judaico em Sayed Kashua, comediante palestino que escrevia crônicas num jornal israelense. Mas lembra, em nota de rodapé, que Kashua foi obrigado a migrar pros Estados Unidos com sua família. “Para que haja humor”, explicou ele, “é preciso haver esperança.”

Essa editoria tem apoio do Instituto Brasil-Israel

Quem escreveu esse texto

Gregorio Duvivier

É ator e escritor.

Matéria publicada na edição impressa #50 em agosto de 2021.