Literatura,

O mundo cede ao blefe

Livro ganhador do Goncourt sobre a 2ª Guerra Mundial testa limites entre história e literatura

01out2019 - 01h45 | Edição #27 out.2019

O escritor francês Éric Vuillard organiza seu breve romance A ordem do dia ao redor de algumas cenas: um encontro de empresários alemães com Adolf Hitler em 1933; um almoço do futuro ministro alemão Joachim von Ribbentrop com o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain em 1938; uma das sessões do tribunal de Nuremberg, em 1945, na qual Hermann Goering, chefe da Força Aérea alemã, começa a gargalhar. O relato é direto, com frases e capítulos curtos, contando com a presença de um narrador em primeira pessoa, responsável pelo resgate e por comentários de certos fatos relevantes no contexto da Segunda Guerra. 

Não se trata de um romance histórico convencional. A ordem do dia não se apresenta com uma estrutura-padrão de início, meio e fim. Graças a sua construção em episódios, seu tom ensaístico e digressivo e seus saltos temporais, o leitor tem a impressão de que o romance poderia seguir adiante para sempre. Isso significa que o procedimento de criação dessa narrativa funciona, indicando também a questão de fundo que a sustenta: a história está tanto nos grandes gestos quanto nos pequenos objetos e nas existências anônimas; ou, como escreve o narrador, “a verdade está dispersa em todo tipo de poeira”.

A história está tanto nos grandes gestos quanto nos pequenos objetos e nas existências anônimas

Esse não é o primeiro livro no qual Vuillard testa os limites do gênero. Em 2009 lançou Conquistadors, reconstrução ficcional da invasão do Peru por Francisco Pizarro; em 2012, La Bataille d’Occident, sobre a Primeira Guerra, e Congo, sobre a partilha da África entre as nações europeias; Tristesse de la terre (2014) resgata a história de Buffalo Bill e Touro Sentado, e 14 Juillet(2016), a Queda da Bastilha. A ordem do dia é mais uma peça dentro de um projeto estético em andamento. Vuillard expande com muita qualidade um campo da literatura dedicado a explorar os contatos entre fatos históricos e ficção.

Existe um episódio do livro bastante representativo de seu método: em Downing Street, Chamberlain recebe  Ribbentrop, que volta para a Alemanha como ministro. Durante o almoço, Chamberlain recebe uma mensagem avisando que a Alemanha invadiu a Áustria. Ribbentrop finge que não sabe o que está acontecendo e estende o encontro ao máximo, com amabilidades forçadas e assuntos aleatórios. A cena é tensa e ridícula, mínima em seu desdobramento mesquinho e máxima em sua repercussão histórica. Longe da inocência, a missão de Ribbentrop era retardar a resposta britânica. Ribbentrop sempre “encorajou o Führer a prosseguir com as ações mais temerárias, bajulando suas tendências megalomaníacas e brutais”, mas pelas costas era tratado com desprezo por Hitler, sendo chamado de “pequeno vendedor de champanhe”, em alusão ao seu passado de comerciante.

Vuillard arma uma cena densa de significados, com personagens que conheciam parcelas dos fatos e que atuaram na história a partir de suas perspectivas. A resolução dessa cena se dá anos depois, nos julgamentos de Nuremberg, quando o acusador lê os registros de um telefonema entre Ribbentrop e Goering. Sabendo que a ligação estava sendo interceptada pelos britânicos, Ribbentrop e Goering mentem, inventam uma história, exatamente como no almoço. A mentira é decisiva para o andamento da guerra e para o sucesso da iniciativa alemã. “O mundo cede ao blefe”, diz o narrador. 

O romance transita por este tenso paradoxo: uma ficção que investiga as mentiras da história e que, ao mesmo tempo, não busca uma posição ou conclusão definitiva. A ordem do dia investe na ambiguidade, no jogo de espelhos inerente aos fatos, referências e arquivos. Não à toa o livro gerou desconforto e polêmica: em resenha no The New York Review of Books, o historiador Robert Paxton criticou o livro por seu “dogmatismo” e o autor por sua “falta de neutralidade”, afirmando que Vuillard será esquecido por não fazer “boa literatura”. Vuillard denunciou a visão antiquada de Paxton, que espera “neutralidade” dos discursos e uma separação clara entre “literatura” e “história”, sendo a primeira para amadores e a segunda para profissionais. É fundamental ter acesso a essas provocações que testam os limites dos saberes e das disciplinas e a virulência dos ignorantes de plantão — algo em que A ordem do dia acerta em cheio.

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).

Matéria publicada na edição impressa #27 out.2019 em setembro de 2019.