Literatura,

A deusa trangressora

Poema da cultura mesopotâmica narra a descida de Ishtar ao mundo dos mortos e sua volta da ‘terra sem retorno’

31mar2020 - 18h02

A morte está sempre à espreita, mas fica mais evidente nesses tempos de pandemia. Diante da ansiedade trazida pela incerteza do futuro, descobrir como culturas mais antigas se relacionavam com a morte pode trazer alguma perspectiva para o presente. Ao Kurnugu, terra sem retorno: descida de Ishtar ao mundo dos mortos, lançado pela Kotter Editorial, permite um vislumbre do inframundo na cultura mesopotâmica. Datado da primeira metade do primeiro milênio antes da nossa era, o poema foi traduzido diretamente do acádio por Jacyntho Lins Brandão, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) que já havia vertido para o português Ele que o abismo viu: epopeia de Gilgámesh (Autêntica, 2017). Ele também faz uma análise detida desses versos escritos em cuneiforme inscritos em duas pequenas tábuas de argila pertencentes à biblioteca do rei assírio Assurbanípal (685-627 a. C.), localizada em Nínive (cidade babilônia que hoje corresponde a Mossul, no Iraque)  – há também uma terceira tábua que provém de Assur.

Ishtar, a deusa do amor e da guerra, resolve descer ao Kurnugu (“terra sem retorno”, em sumério) e, para tanto, precisa despir-se de seus adornos e vestimentas para adentrar o mundo dominado por sua irmã Eréshkigal – que faz a mesma pergunta que assombra os estudiosos do poema: “Por que seu coração trouxe a mim e por que suas entranhas perturbou por mim?”; ou seja, por que raios Ishtar foi ter “à casa onde quem ingressa é privado de luz,/ Em que seu sustento é pó, seu manjar é barro,/ Luz não podem ver, na escuridão habitam”? Na cultura mesopotâmica, acreditava-se na vida após a morte era ambientada em um lugar escuro, silencioso, em que não havia reprodução de vida nem desejo sexual, e os mortos não conseguiam se expressar com facilidade – eles assumiriam formas de espectros, “arrulhando” como pássaros.

Ao se encontrar defronte da irmã, Eréshkigal manda seu intendente Namtar lançar sobre Ishtar sessenta doenças: doença de olhos, de braços, pés, coração, cabeça, nela inteira. Com isso, a reprodução e o desejo sexual do mundo dos vivos foram extintos: “À vaca o boi não cobria, o asno à asna não emprenhava,/ À moça, na rua, não emprenhava o moço:/ Dorme o moço em sua alcova,/ Dorme a moça só consigo”. Ea, o deus da fonte de água doce, a pedido de Papsúkkal, intendente dos deuses, cria Asúshu-Námir, “um prostituto”, que desce a Érsetu (outro nome do Kurnugu) para, através da sedução, pedir que Eréshkigal quebre um tabu: que tenha acesso à água da vida para curar Ishtar das suas enfermidades e levá-la de volta ao mundo dos vivos. A rainha da “casa trevosa” bate na coxa e morde o dedo e amaldiçoa Asúshu-Námir, que é condenado à prostituição (“Pão do arado da cidade seja tua comida,/ O esgoto da cidade, teu vaso de bebida,/ A sombra da muralha seja o teu posto.// A soleira da porta, teu domicílio,/ O bêbado e o sedento batam-te  face!”). Só que o tabu foi quebrado, e Eréshkigal não tem opção a não ser acatar o pedido. No entanto, Ishtar precisa ser substituída nessa terra subterrânea. E essa sina recai sobre Dúmuzi, esposo de Ishtar, que se prepara para sua descida, em meio ao desespero de sua irmã Belíli – “Do irmão único não me prives!”. O poema termina invocando a subida de Dúmuzi e de outros mortos uma vez por ano ao mundo dos vivos.

Deusa invasiva

Brandão critica o fato de muitos estudiosos usarem como base de comparação o poema sumério Descida de Inana – produzido bem antes, na passagem do terceiro para o segundo milênio antes de Cristo, sendo mais longo e contendo informações mais detalhadas – para analisar Ao Kurnugu. Nessa visão, a descida de Ishtar seria uma “versão” mais sintética da história de Inana, considerada o equivalente sumério da deusa assíria. No entanto, o professor da UFMG defende o caráter original do texto acádio, destacando o recurso comum da intertextualidade entre os dois poemas e outros escritos da época, que formariam uma espécie de rede poética que se autorreferencia, incluindo-se aí também a epopeia de Gilgámesh.

Para o tradutor, Ao Kurnugu precisa ser lido como um texto em si, cujo caráter difere do da Descida de Inana, que teria por objetivo contar as aventuras da deusa e explicar o ciclo de funcionamento da natureza pela alternância das estações – um equivalente conhecido é o do mito grego do rapto de Perséfone por Hades, que a leva para o mundo dos mortos, entristecendo sua mãe, Deméter, o que acaba por comprometer a fertilidade da terra; para resolver o problema, Perséfone passa metade do ano ao lado da mãe e a outra metade no mundo dos mortos, alternando as estações de seca e de chuvas para as colheitas, assim garantindo a continuidade da vida. Apesar dessa esfera ser contemplada em Ao Kurnugu, a descida de Ishtar teria um caráter mais etiológico (em que se investiga a causa e origem de algo). A saber: a ligação da deusa com a reprodução do mundo dos vivos, com o estatuto da prostituição e, principalmente, com a festa anual dos mortos, momento em que as fronteiras entre o mundo dos vivos e dos mortos se tornavam porosas e os falecidos ascendiam para compartilhar refeições com seus entes queridos.

E essa é a face transgressora de Ishtar (e também de Inana), deusa da “ambiguidade encarnada” nas palavras de Rivka Harris, ficando entre o humano e o animal, o humano e o divino, a virgem e a prostituta, a vida e a morte. Ela também é símbolo de todas as formas de inversão sexual – era comum o travestimento em seus cultos: do lado esquerdo, a pessoa era adornada com aspectos masculinos; no direito, femininos. Só poderia ser ela, portanto, dentre o panteão dos deuses mesopotâmicos, a adentrar o mundo dos mortos; ela, que é a face da vida, detentora da sexualidade e da reprodução. É esse caráter liminar e invasivo que perturba a ordem estabelecida. Não há nada mais transgressor do que ameaçar trazer os mortos “para comerem os vivos”, como ela ameaça em Ele que o abismo viu. E era na festa dos mortos, a festa do deus Dúmuzi (cujo outro nome é Tamuz, mesma alcunha do mês de celebração aos mortos em hebraico), que as fronteiras entre esses mundos se tornavam porosas, e os mortos subiam ordenadamente para confraternizar com os que ainda não foram. 

O próprio Brandão teve de lidar diretamente com a morte enquanto produzia o livro: seu filho mais novo morreu aos 32 anos em um acidente rodoviário, e é a ele a quem a obra é dedicada, “com sua reflexão sobre a dura experiência da morte: tanto para os que se vão, quanto para os que ficam”.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).