Infantojuvenil,

Viva o polvo brasileiro

Um tubarão golpista protagoniza aventura subaquática de João Ubaldo Ribeiro, grande conhecedor da vida ao mar

13nov2018 - 13h04 | Edição #6 out.2017

Em 1990, quando publicou seu segundo livro infantil, A vingança de Charles Tiburone, João Ubaldo Ribeiro já era um escritor consagrado. Publicara pelo menos duas obras-primas indiscutíveis — Sargento Getúlio (1971) e Viva o povo brasileiro (1984). Também no campo da literatura juvenil o escritor baiano havia marcado posição. Seu primeiro livro para jovens, Vida e paixão de Pandonar, o cruel (1983), inspirado em episódios de sua infância, recebeu o prêmio da Associação Paulista dos Críticos de Arte.

Neste livro, o menino Geraldo tem como amigo imaginário o Pandonar do título, que o leva a grandes aventuras e triunfos de toda sorte, militares, interestelares e esportivos. Mas, na transição para a adolescência, Geraldo se apaixona pela primeira vez, por Maria Helena, uma colega de escola, e se debate sobre como conquistá-la.

Dois elementos fazem de Vida e paixão de Pandonar, o cruel um acerto total. O primeiro é que nele o leitor desliza sem solavancos entre a fantasia e a realidade do protagonista. O segundo é o humor. Nesse aspecto, o toque de mestre são os hilários nomes dos capítulos, todos em latim estropiado: “Is bellis ands trystes amoris del Pandonar”, “Solarius, espaciarius and campeonatis del Pandonar”, ou ainda “Qualis Fênix, el Pandonar apagatorius surgit des cinzs”. 

A vingança de Charles Tiburone, publicado sete anos depois, segue outra linha. Narra as aventuras dos agentes do Centro de Contra-Espionagem Danger People no fundo do mar, onde o general Charles Tiburone planeja um golpe contra o presidente da
República dos Peixes.

Na verdade, os agentes são quatro meninos e duas meninas, e o QG da agência de contraespionagem fica no alto de uma casa de árvore. Eles são: Mino, inteligente e dado a cientista; Juva, hábil diplomata e fascinado por tudo que vem dos EUA; Tonhão, companheiro fiel porém intelectualmente limitado; e o guloso e preguiçoso Bolota. Elas são: Neneca, irmã de Tonhão, menina valentona que descobre o QG na árvore e exige participar; e Quica, a mais jovem da turma, irmã caçula de Tonhão e Neneca, cujos guinchos potentíssimos são responsáveis por sua admissão como “Dêndgerr Píopio” e pela primeira derrota infligida a Charles Tiburone.

Esse grupo de protagonistas mirins respeita uma estrutura previsível. Em centenas de filmes e livros para crianças e jovens, encontramos a turma formada por personalidades bastante contrastadas, que vive uma grande aventura e, ao final, retorna à vida cotidiana. Também chama a atenção a relativa gratuidade de certas evoluções na trama. João Ubaldo parece disposto a fazê-la avançar sem ter de perder muito tempo procurando soluções mais curiosas e atraentes. Descontado o fato de o livro ser intencionalmente ligeiro, ainda assim a combinação que faz entre fantasia e realidade não resulta tão estimulante quanto a que encontramos em Vida e paixão de Pandonar, o cruel.

Mas é claro que um escritor do quilate de João Ubaldo compensa eventuais deficiências com um manejo habilidoso da língua. Ele alterna frases ágeis e outras de absorção mais lenta; aliterações e onomatopeias; escatologias ingênuas, como quando as crianças se xingam, e registros mais elegantes, com imagens capazes de atrair leitores de todas as idades.

Tais virtudes estilísticas, contudo, ainda não produzem o grande charme do livro. Tampouco a mensagem política que ele encerra, por melhor que ela seja. Afinal, não é difícil ver a tentativa de golpe militar, ocorrida na República dos Peixes, como um lembrete contra a ditadura que, quando o livro foi publicado, acabara no Brasil havia apenas cinco anos. 

Fascínio pelo mar

Seu grande charme está na maneira como o escritor injeta na história e em seus personagens o verdadeiro fascínio que sentia pela fauna submarina e pela biologia em geral. Esse traço de sua literatura já ficara evidente em Viva o povo brasileiro, na antológica descrição do acasalamento das baleias, e em O sorriso do lagarto, nas explicações sobre como e por que os homens da raça branca são mais próximos dos macacos que os de raça negra, contrariando os estereótipos do preconceito. Aqui, o interesse pelas ciências naturais é, pela primeira vez, voltado aos jovens leitores. E João Ubaldo se diverte com eles.

O cavalo-marinho, com seu bico em forma de trompete, vira o “hipocampo corneteiro”. As barracudas, peixes de mandíbulas potentes e dentes afiadíssimos, cantam seu hino: “Cada um de nós, de A a Z,/ Quer morder você, quer morder você,/ Quer morder você! (Palmas)”. A caçula Quica, após demonstrar a potência de seus guinchos, dá autógrafos “usando a canetinha e a tinta que uma lula muito simpática lhe emprestou”.

A guarda pessoal do presidente, um tubarão-baleia, é formada por caranhas, peixes de águas profundas dotados de dentes caninos, e caramurus, nome indígena para as conhecidas moreias. Neneca é cortejada “por um budião azul, muito vistoso apesar de um pouco dentuço”. E por aí vai, num rico e divertido desfile de robalos, robaletes, piranhas, peixes-navalha e tantas outras espécies alegremente inseridas na narrativa.

O exemplo máximo do quanto essa curtição naturalista é parte vital da narrativa está na guerra entre siris e caxangás. Sem essa divisão entre as duas espécies de crustáceos, o xadrez político do livro não se completaria. São os caxangás que fornecem aos meninos o chamado “fator molenga”, que,  misturado ao rancho dos siris, rouba-lhes a prontidão para o combate e neutraliza definitivamente o golpismo de Charles Tiburone. O Fator Molenga seria “a substância que o siri toma para poder ficar mole, mudar de casca e crescer”, numa alusão evidente à típica moqueca baiana.

A combinação submarino/vida marinha/literatura, obviamente, remete a Jules Verne e seu Vinte mil léguas submarinas. Como no clássico francês, há em A vingança de Charles Tiburone um visível prazer em tornar matéria literária o conhecimento da natureza que o autor possuía. 

Especial Infantojuvenil: oferecimento Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Rodrigo Lacerda

Escreveu O fazedor de velhos (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.