Infantojuvenil,

Uma menina foge do cotidiano insosso

Cansada de uma vida apagada entre pais que são apenas logotipos de si, adolescente decide ir embora

15nov2018 - 16h12 | Edição #8 dez.17-fev.18

Duas pernas azuis, desalinhadas, envoltas por fios vermelhos, tentam fugir. É o que vemos na capa do livro. Mergulham em cubos transparentes cujas bases são fragmentos de mapas antigos. Na contracapa, os mapas viram recheio das delicadas cordilheiras vermelhas e azuis, das quais brotam um enorme puçá e placas gigantes. Uma estrada de palavras gira em torno de um farol. Os desenhos de Catarina Bessel são inesperados: galinhas gigantes, banhistas saltando na Via Láctea, lombadas de livros convivendo entre prédios e catedral.

Quem pretende fugir é Marina, adolescente que, durante uma festa de aniversário, esquece como é: o rosto que vê no espelho não é mais seu. Decide ir embora da festa, da escola, dos amigos. Faz sua mochila vermelha com cadernos, livros, despede-se sem se despedir do pai e vai para a casa de Dora: vão distribuir bolo de banana vegano para mendigos.

Antes de encontrar com a amiga, Marina deita no banco da praça. O guarda a impede. É proibido. Para evitar vadiagem. Por “vadiagem” Marina entende “viadagem”: combate bravamente o guarda disparando “preconceito”, “discriminação”, “amor homoafetivo”. Em posse do mapa rodoviário que Dora lhe entrega, segue pela cidade em um ônibus vazio. No caminho “em linha reta” até o ponto final, Marina continua sua fuga nada retilínea, do fora para o dentro. Eric falara certa vez que ela se parecia com um besouro; Marina repete “humanidade” até que a palavra perca o sentido; vê seu reflexo na janela: “Não me achei feia nem bonita, mas deu pra ver que era eu”. Besouro, inseto (estojo) com asas. Melhor assim, ter asas.

Ao terminar Fuga, conhecemos pouco de Marina — e isso, longe de ser problema, faz pensar. A protagonista aparece apagada entre pais artistas/publicitários, mães doulas que praticam pilates, artistas garantidos por dinheiro de família. Marina vive entre pessoas que exercem logotipos delas mesmas. Asseguradas em seus lugares de classe, reproduzem comportamentos que a narradora descreve como em flashes comerciais. A própria narradora não convence com as definições que traz de si. Ser uma “Marina Plácida”? Ser “corredora, rabo de cavalo, meia, conjunto top de laicra”? Desejar “pular Carnaval e ter um amor de Carnaval”? É realmente o que quer uma adolescente que não tolera ficar ali, “as brincadeiras, as fotos, marcam, curtem, a notícia no jornal, os mendigos, o banco da praça”? Ser a Marina Plácida não é permanecer no mundo de barbárie, mas feito para ser curtido?

Suas interpretações literárias, quase envergonhadas, são surpreendentes, engraçadas

A narrativa revela tais contrassensos a conta-gotas: adolescentes presos a um mundo legal, contestador, político, mas cuja voz própria não passa da repetição de ideias colocadas por adultos (ideias importantes — mas como fazê-las serem formuladas, não decoradas?). Não é à toa que todos os capítulos — a não ser o último — acabem em ditos populares, moral de outros sobreposta à opinião da narradora por ela mesma. É difícil ser jovem.

Marina, quando consegue fugir de tudo isso, levando o leitor, dá grandes voltas ao mundo. Suas interpretações literárias, quase envergonhadas, são surpreendentes, engraçadas; os pensamentos sobre o casal de namorados que morre na rodovia, muito mais verdadeiros do que imaginar um beijo na chuva, assim como as dúvidas sobre o infinito dentro do infinito. A vontade de ter um docinho de marzipã na mochila vermelha vale mais do que colocar flores no túmulo de um desconhecido.

A verdadeira Marina se revela tímida, mas com um toque potente que lateja. São dela e de todos sempre em fuga os imprevisíveis títulos em que se abrem os capítulos da narrativa, além dos versos de Nicolai Assiéiev, na epígrafe do livro. Se conseguirmos fugir da barbárie, do individualismo, da propaganda a toda prova, seguimos com Marina, besouros-estojos, “como se cavalgássemos/ sobre um tempo de aço/ voando/ — olhos abertos —/ pelo espaço”. 

Quem escreveu esse texto

Malu Rangel

Doutora em teoria literária, é editora de livros infantis.

Matéria publicada na edição impressa #8 dez.17-fev.18 em junho de 2018.