Infantojuvenil,

Cinquenta brasileiras fora da caixinha

Apresentar mulheres pioneiras é um modo de revolucionar o imaginário social

13nov2018 - 13h37 | Edição #6 out.2017

Quais palavras normalmente usamos para elogiar meninas? Apesar da desconstrução que o movimento feminista vem historicamente fazendo das rígidas e excludentes categorias de beleza e da implosão do nocivo imaginário do amor romântico, responsável pela produção de frustrações em escala industrial, não há dúvida de que linda e princesa estão no topo de qualquer lista. Inclusive entre mães feministas — que saltam, arrependidas, depois da palavra princesa ter-lhes escapado da boca, o que é uma lição cotidiana sobre o poder das ideologias. 

Se repetirmos a pergunta, em busca dos elogios que fazemos para meninos, encontraremos palavras como forte, corajoso, esperto. O quanto esse léxico utilizado na infância limita as possibilidades da vida adulta de uma menina?

Expô-las às histórias de mulheres corajosas, fortes, inventivas, realizadoras, poderosas, empáticas, persistentes, ousadas, guerreiras, inovadoras e marcantes, como faz o livro 50 brasileiras incríveis para conhecer antes de crescer, constitui um gesto fundamental para a implosão desses limites e para a viabilização de um salto quântico de autoconfiança para as futuras gerações.

Expor os caminhos que muitas mulheres atravessaram para conquistar esses adjetivos é ampliar concretamente o universo de possibilidades de ser e estar para novas gerações. Ao apresentar histórias nada óbvias de mulheres que foram exceção à regra mas que, em seu pioneirismo, abriram portas para que outras mulheres ocupem cada vez mais lugares até hoje hegemonicamente masculinos, como nas ciências ou na política, é uma forma de promover pequenas grandes mudanças no imaginário e, futuramente, na sociedade. Se lugar de mulher é onde ela quiser, é urgente que conheçamos as que deram os primeiros passos fora da caixinha.

De guerreiras a escritoras

Mulheres que ousaram se vestir de homens para entrar numa guerra, como Maria Quitéria, ou que desafiaram, na pátria das chuteiras, a máxima de que “futebol não é coisa de menina”, como a supercampeã Marta. Mulheres que lutaram por uma agenda de direitos para outras mulheres, como a ativista Laudelina de Campos Melo, ou que fascinaram o mundo com suas palavras e universo próprio, como a escritora Carolina de Jesus. Mulheres que arrebataram o país com sua voz, como Elis Regina, ou que preferiram o trabalho ao casamento, como a próspera empresária Eufrásia Teixeira Leite. 

Saber que estas pioneiras são também mulheres negras e indígenas é uma flechada no coração do racismo. Compreender que as cinquenta brasileiras mais incríveis não ficaram presas ao enfadonho destino dos contos de fadas — encontrar um príncipe — é um alento. Recuperar a memória sobre mulheres fundamentais na história feminista, como Carlota Pereira de Queirós, a primeira deputada brasileira, ou Maria da Penha, cuja articulação entre luta e história de vida foi determinante na criação da lei que leva seu nome, é profundamente educativo. E ainda, em tempos de recrudescimento da intolerância religiosa, é oportuno ler sobre a vida da mais famosa Yalorixá do país: mãe Menininha.

Saber que as cinquenta brasileiras mais incríveis não ficaram presas ao destino dos contos de fada é um alento

Fazer tudo isso com uma prosa saborosa, que não teme lidar com temas difíceis, como a vida da própria Maria da Penha, é um grande mérito da autora, além da cuidadosa pesquisa de personagens. Os textos curtos são didáticos e charmosos. Ensinam meninas e meninos, assim como mães e pais. As cinquenta personagens são desenhadas por dezessete ilustradoras diferentes, o que oferece ao livro uma multiplicidade estética que dialoga com a variedade das perfiladas. Além de todas as qualidades aqui elencadas, vale dizer que, no meu test-drive particular, as páginas fizeram os olhos da minha filha mais abertos e curiosos. 

Especial Infantojuvenil: oferecimento Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Antonia Pellegrino

Roteirista, é curadora do blog #AgoraéQueSãoElas, hospedado no site da Folha de S.Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.