História,

Túnel do tempo carioca

Entre encantos e assombros, livro conta a história do Rio de Janeiro rememorando seus objetos mais notáveis

01ago2019 - 01h00 | Edição #25 ago.2019

A vida não é só isso que se vê. O verso do poeta Hermínio Bello de Carvalho, trecho do samba “Sei lá, Mangueira”, parceria com Paulinho da Viola, bem pode ser aplicado ao belo livro História do Rio de Janeiro em 45 objetos. O trabalho, afinal, tem uma perspectiva que cruza com a sabedoria do samba: a história do Rio de Janeiro contada a partir de objetos entrelaçados ao cotidiano da cidade vai além daquilo que aparentemente constrói os múltiplos modos de vida cariocas.

Cabe aqui um rápido bate-bola sobre a visão do fazer histórico que constrói o livro. Desde especialmente a segunda metade do século 20, desenvolveu-se uma percepção cada vez mais crítica sobre uma visão positivista da ciência, ancorada nas ideias do cientificismo do século 19, que teve forte repercussão no campo da história. Para os positivistas, grosso modo, o conhecimento científico se baseava na busca da verdade a partir da observação empírica rigorosa. Atribuíam, ainda, um caráter de neutralidade ao conhecimento científico, considerando que este se construiria a partir da descrição dos fatos observados.

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Reflexões mais recentes apontam para outra direção. A produção do conhecimento não exclui a criação e a imaginação — que não devem ser confundidas com exercícios diletantes de ficção — como componentes de sua elaboração. Pesquisadores, professores e produtores de conhecimento, de forma geral, não são personagens mudos diante dos fatos.

Fonte histórica é uma expressão que durante certo tempo foi sinônimo de documento. No sentido positivista, o termo é limitado por duas acepções: ele é visto como referente ao registro escrito e, mais especificamente, ao registro oficial. Durante muito tempo, considerou-se ainda que o pesquisador devesse buscar uma isenção só viável a partir do distanciamento do objeto de pesquisa.

A perspectiva citada abria mão do uso de relatos parciais e cronologicamente próximos ao evento mencionado. Um discurso de Getúlio Vargas anunciando a criação do Ministério do Trabalho seria, portanto, uma fonte histórica. Um samba sobre o cotidiano de um trabalhador que vivenciou os impactos daquele período não seria. Um relatório oficial da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) durante o governo de Juscelino Kubitscheck seria, ainda nessa perspectiva, uma fonte a ser trabalhada. Um registro sobre a seca obtido a partir de uma escultura de retirantes do Mestre Vitalino não seria.

O que se observa mais recentemente é uma mudança nessa perspectiva, com o alargamento do conceito de fonte histórica. Ampliando as possibilidades do conhecimento, fonte histórica, registro, vestígio e documento são termos correlatos capazes de abarcar tudo aquilo produzido pela humanidade no tempo e no espaço; a herança material e imaterial que serve de base para a investigação e elaboração do conhecimento histórico. 

O Rio parece viver nas encruzilhadas em que a memória urbana é construída a partir daquilo que se lembra e daquilo que — muitas vezes de forma conveniente — se esquece

Uma nova perspectiva começou a ser aberta, sobretudo, a partir da década de 1930, quando historiadores franceses vinculados à revista Anais de História Econômica e Social (os “Annales”) questionaram a ideia do documento como possuidor neutro de uma verdade indiscutível, ampliando, consequentemente, o que seria uma fonte histórica. Esta passa a ser entendida também como uma construção dos historiadores e demais cientistas sociais. Ganha importância o papel da crítica documental, fundamentada na construção de interpretações sobre o documento e na análise de sua origem e do contexto de sua produção. 

É nesse sentido que a fonte histórica vai além do documento oficial (sem, todavia, ignorá-lo) e passa a considerar o potencial que apresentam os objetos, o cinema, as artes plásticas, a oralidade, a música, os mitos, os hábitos cotidianos, a literatura, as danças, o teatro, as dramatizações, a arquitetura, os modos de enterrar os mortos e vestir os vivos, as maneiras de lidar com o território e as narrativas produzidas sobre ele para a compreensão crítica das sociedades e dos indivíduos, quando submetidos a procedimentos analíticos. Além disso, considera-se a relevância do confronto de fontes como fundamental para a produção do conhecimento.

Lembrança e esquecimento

Partindo desse pressuposto, os artigos que compõem o livro são ainda mais relevantes porque a cidade do Rio de Janeiro parece viver um embate permanente entre lembrança e esquecimento, no cruzamento em que a memória urbana é construída a partir daquilo que se lembra e daquilo que — muitas vezes de forma conveniente — se esquece.

A perspectiva de abordagem do livro mora na encruzilhada, o lugar de encontros e fluidez, onde não há fixação possível, mas fluxo e produção incessante de técnicas e procedimentos de estar no mundo. A história, a antropologia, a história da arte e a museologia oferecem ângulos inusitados, a partir da mirada de distintos autores, para a interação entre os objetos e a história da cidade.

Os objetos abordados são o mais distintos possível: uma imagem de São Sebastião, um esqueleto de baleia, um cachimbo de barro, uma carteira de cigarros, a saia de Carmem Miranda, a bola do milésimo gol de Pelé, um leque comemorativo do aniversário de d. João 6o, a escultura do Sambódromo, os amigos cariocas da boneca Barbie, um relógio de ferrovia, a batuta do maestro, o busto do prefeito, a viga da Perimetral, o vaso tupinambá etc.

Como numa renda de bilro que vai sendo pacientemente bordada, os pequenos artigos vão abrindo caminho para a construção de narrativas plurais sobre a vida urbana que confirmam a máxima de Marques Rebelo, grande cronista carioca, sobre o Rio de Janeiro: “Uma cidade é feita de várias cidades”. Dar conta dessas vozes múltiplas a partir de objetos também múltiplos é coisa que o livro faz com competência. 

É certo — e os organizadores revelam na introdução — que a perspectiva do livro segue a trilha aberta pela obra do diretor do Museu Britânico, Neil MacGregor, A história do mundo em 100 objetos. Ao contrário do título inglês, porém, o trabalho sobre o Rio de Janeiro não se fixa no acervo de um único museu. Acertadamente, a obra amplia o foco dos objetos escolhidos, abarca acervos de instituições que normalmente não são identificadas com as reflexões sobre a história da cidade e apresenta significativa quantidade de objetos acessíveis ao público. 

Saí da leitura — um verdadeiro passeio pelo Rio de Janeiro através dos tempos — reforçando uma impressão que tenho: a cultura carioca, dentre várias possibilidades sobre o que poderia defini-la, é também uma cultura de axé. E, mesmo que essa percepção possa causar alguma estranheza, considero História do Rio de Janeiro em 45 objetos um livro sobre o axé da cidade.

Em síntese, entendo a cultura de axé (expressão iorubá, língua de milhares de escravizados que chegaram ao Brasil nos porões dos tumbeiros) como aquela que transborda dos terreiros para as ruas e designa um modo de relacionamento com o real fundamentado na crença em uma energia vital — que reside em cada um, na coletividade, em alimentos, em elementos da natureza, em práticas rituais, na sacralização dos corpos pela dança, no diálogo dos corpos com o tambor etc. — que deve ser constantemente potencializada, restituída e trocada para que não se disperse. 

A cultura carioca, dentre várias possibilidades sobre o que poderia defini-la, é também uma cultura de axé

O axé, para os iorubás, também está presente nos objetos que nos cercam e na relação que estabelecemos com eles. Para as culturas de axé, os objetos são assentamentos em interação com o grupo social e conversam o tempo inteiro com as crianças, as mulheres e os homens. Mais que objetos, portanto, eles são sujeitos em interação com a história da nossa gente através dos tempos.

Os 45 objetos escolhidos para estar no livro falam a respeito daqueles que os produziram, recolheram e utilizaram. Cada um dos textos, ao buscar as diversas camadas de vestígios que um utensílio pode guardar, contam um pouco sobre a cidade fragmentada entre contrastes, dissabores, esperanças, assombros, desalentos, afagos, violências e maravilhas. Da espada de guerra que pertenceu ao governador Gomes Freire de Andrade ao rola-rola que transporta água na favela da Maré, eles falam da vida de todos nós.

Quem escreveu esse texto

Luiz Antonio Simas

Historiador, escreveu Almanaque brasilidades (Bazar do Tempo).
 

Matéria publicada na edição impressa #25 ago.2019 em julho de 2019.