História,

A República aos trancos e barrancos

Ensaios de José Murilo de Carvalho atestam um intérprete do Brasil treinado no ceticismo e nos valores republicanos

15nov2018 - 18h23 | Edição #9 mar.2018

“Mirar o passado para entender o presente é complicado, pois a história não se repete como tragédia nem como farsa; assemelha-se mais ao rio de Heráclito, em que não se pode banhar duas vezes. No entanto, há sem dúvida continuidades que justificam o exercício.” É assim, tomando banho no rio de Heráclito, que o historiador José Murilo de Carvalho começa um de seus vários artigos inspirados, que acabam de ser reunidos em livro. 

Dividida em cinco partes bastante orgânicas — “O pecado original da República”, “Revoltas, violências e transgressões”, “História feita de gente”, “Uma nação impenitente” e “As tramas da memória” —, a coletânea escapa da fórmula fácil que consiste em apenas ajuntar uma série de textos, adicionando um pouco de verniz viscoso e um laço de fita frágil.

Nesse caso, ocorre justamente o contrário. O pecado original da República revela como um historiador do calibre de José Murilo de Carvalho — um dos autores que revolucionaram a compreensão do nosso Império e da Primeira República — é um grande intérprete do país; um interlocutor que faz toda a diferença no contexto atual, tão avesso ao diálogo, e que se resigna, conforme provoca o autor, com a mera “troca de insultos”.

Mineiro nascido na Fazenda de Santa Cruz, em Andrelândia, José Murilo queria fazer agronomia, mas não tinha a formação necessária. Tentou economia, “mas uma equação de segundo grau” o derrubou. Foi então para a sociologia política e terminou o curso “com os pés nas costas”. Completou sua formação no exterior: fez-se mestre e doutor em ciência política nos Estados Unidos, quando passou a se dedicar ao estudo do Segundo Reinado brasileiro, numa época de escasso interesse pelo período. 

O contexto oitocentista mais parecia com um período “entre”, meramente transitório. José Murilo de Carvalho desvendou a estrutura interna dessa “máquina de governar” e assim provou, na contramão de várias outras interpretações, como essa foi uma conjuntura política incontornável e fundamental para entender a formação da nossa nacionalidade.

Construção do passado

É na República que o autor investiga os destinos e as formas políticas dos setores populares, bem como a sua exclusão. Com seu texto enxuto, certeiro, pessoal e sem jamais abrir mão da ironia fina, José Murilo trafega por diferentes períodos da vida brasileira com a naturalidade de quem conhece e tem uma boa história para contar.

José Murilo de Carvalho é mestre nas lições de método. Afirma ele, em vários pontos do livro, que “são os historiadores, no presente, que constroem o passado”. Fiel a essa máxima, não paga pedágio para o tempo que já se foi, e muito menos para o contexto em que nos é dado viver. “A memória é a história ajustada às necessidades da construção da identidade nacional”, afirma. Nem sempre os dois conceitos funcionam como sinônimos. Se a memória muitas vezes implica “o ocultamento de aspectos negativos e dos conflitos”, Carvalho expõe, a partir de vários ângulos e circunstâncias, como é preciso incluir no plano da história o ruído, as dissonâncias, sem medo de intervir criticamente no passado e no presente. 

Entre os temas da castigada agenda histórica e política a que o nosso autor se dedicou de forma precursora, chama a atenção a contínua cobrança para que o Brasil vença seu enraizado déficit republicano. Didático, se vale da etimologia — a raiz latina, res publica, recorda ele, significa “coisa pública”, bem comum, em oposição ao que é privado: res privata

Tínhamos direitos civis e políticos garantidos pela Constituição de 1824, mas nos faltavam direitos sociais

O historiador jamais perde a ocasião de se opor à corrupção, a qual, segundo ele, ganhou vários nomes no decorrer do tempo, mas guardou um significado comum: representa o ato de “transgredir” no sentido de desrespeitar, violar e infligir. É também em nome dos valores da República que reivindica mais igualdade: “Somos uma das sociedades mais desiguais e injustas do globo, na qual descendentes de escravos […] são ainda discriminados e ocupam os estratos mais baixos da hierarquia social”. 

Ao lembrar os valores surrupiados à República, denuncia a violência vigente: em casa e na rua, em cidades maiores ou menores, no campo e nos centros urbanos. Para esse incansável defensor da luta por uma cidadania plena — que só se faz a partir da conquista de direitos sociais, civis e políticos —, o Brasil inverteu a sequência canônica, uma vez que tínhamos direitos civis e políticos já garantidos pela Constituição de 1824, mas nos faltavam direitos sociais, que podem “ser definidos como a participação na riqueza coletiva: o direito à saúde, à educação, ao emprego, ao lazer”.

Nesses termos, conclui, “nossa República nunca foi republicana”. Não pode haver República sem valores republicanos, e por aqui fez sempre falta o interesse pelo coletivo e a virtude cívica. Sem esses ingredientes, na opinião do autor, não teremos jamais uma “Democracia republicana ou uma República democrática”. 

De maneira contundente, o historiador denuncia de tudo um pouco: recrimina “o juiz encastelado”, a “baixa qualidade de nossos políticos e de nossas instituições”, a formação de “uma República sem povo”, a nossa “política de votos”. O voto, afirma, “não pode ser o álibi do cidadão”, que lava as mãos depois das eleições, como se esquecesse que foi o eleitor.

Para ele, o Brasil é um país sem revolução, com todos os méritos e dramas que se atrelam a essa constatação. Méritos na medida em que muitas mudanças se deram sem os custos sociais e humanos que em geral acompanham essas convulsões sociais. Dramas, pois as grandes mudanças ocorridas no país não levaram à alteração das bases da sociedade, criando “problemas tão sérios quanto os que resolveram”. A esse fenômeno nosso autor dá o nome de “mudança aos trancos e barrancos”. A expressão ajuda a pensar no Brasil de 1822, mas também na nação de 2018, que vai “empurrando” como pode o seu projeto republicano incompleto. 

O pecado original da República não se restringe, porém, a temas teóricos e metodológicos. Carvalho critica, por exemplo, o termo “descobrimento do Brasil”, que elide o genocídio praticado no século 16 e tem o dom de omitir a existência de povos que não precisaram dos colonizadores para ocupar as terras em que já se encontravam havia tanto tempo. Mineiro de formação, na alma e na desconfiança, ele volta à Inconfidência Mineira (1789) para tratar do imaginário republicano no Brasil; dos mortos e dos vivos. 

O historiador defende a importância das biografias (não autorizadas), dá conselhos irônicos aos futuros doutores (por favor, não sigam nenhum deles) e mostra como, diferentemente do conde Afonso Celso, ele não “se ufana” do nosso país. Cético, revela como a fronteira entre a ficção e a não ficção é muito porosa, já que “bons historiadores são aqueles que sabem, quando necessário, recorrer à imaginação para melhor interpretar os fatos históricos”. Atento a imagens e símbolos, num momento em que eles eram usados pelos cientistas sociais apenas como “ilustrações”, o intérprete mostra como telas e gravuras muitas vezes contam outra história, fiada na “construção de marcos e monumentos sempre em busca de falsos esplendores de imortalidade”.

Pecados capitais

Em um dos muitos momentos fortes do livro, o autor resume os quatro pecados capitais praticados no Brasil.
O primeiro seria a escravidão que se generalizou pelo país, gerando a expatriação de cerca de 4 milhões de africanos que sustentaram a economia e a sociedade brasileira até 1888. Na visão do historiador, o equivalente atual seria a desigualdade social, “o câncer que corrói as entranhas do corpo social brasileiro, o maior obstáculo à formação de uma nação”.

O segundo pecado capital é o latifúndio, origem do imenso gap na distribuição de rendas e terras.

O patriarcalismo é o nosso terceiro pecado capital, negando “às mulheres direitos fundamentais, como os direitos civis, para não falar dos direitos políticos, que só foram introduzidos na década de 1930”. Aí estaria mais uma feição teimosa da nossa nacionalidade, que faz com que persevere não só a desigualdade de salário, mas também a violência de gênero.

Ainda falta o quarto pecado, o patrimonialismo: “A relação entre a sociedade e o Estado em que o bem público é apropriado privadamente”.

O historiador resume os quatro pecados capitais praticados no Brasil: a escravidão, o latifúndio, o patriarcalismo e o patrimonialismo

Na leitura, sobressai o estilo de José Murilo de Carvalho. Nosso autor faz valer o conselho de von Martius, que nos idos de 1845 exortou os historiadores a escrever “em linguagem simples, para que possam atingir um grande público, para além dos especialistas”. Nada mais difícil do que escrever simples, mas sem simplificar, e Carvalho discorre sobre temas cabeludos como se estivesse conversando com o leitor.

O pecado original da República é daqueles livros em que se fica com vontade de se deter a cada página, anotar uma expressão, um comentário, uma explicação. E eles são muitos. Alguns ensinam como ser um historiador e intelectual público sem dar bola para o preconceito que por aqui impera. Outros cobram valores republicanos e cidadania num país que tantas vezes tem atentado contra a democracia. Outros, ainda, mostram como cabe ao historiador explorar a multiplicidade das fontes, transbordar os limites da especialização excessiva e assim escrutinar a história com novas questões — tudo isso sem cair no fantasma do anacronismo.

São vários os personagens, assuntos e problemas que desfilam por esses preciosos 45 ensaios sobre o Brasil. A uni-los e orquestrá-los está a pena afiada de José Murilo de Carvalho, ele, sim, um grande republicano.

Quem escreveu esse texto

Lilia Moritz Schwarcz

É professora titular da USP e autora de O espetáculo das raças (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #9 mar.2018 em junho de 2018.