História,

1917, um debate sem data para terminar

No centenário da tomada de poder pelos bolcheviques, seus ecos ainda se ouvem no Brasil e multiplicam-se os lançamentos. O que podemos aprender sobre a Revolução Russa em menos de 300 páginas?

13nov2018 - 12h04 | Edição #6 out.2017

No prólogo do golpe de Estado de 1964, Carlos Lacerda desqualificava João Goulart como o Aleksander Kérenski brasileiro. O governador da Guanabara evocava o socialista moderado que encabeçara o governo provisório derrubado pela Revolução Russa de outubro de 1917. O presidente, conforme seu contendor mais aguçado, ameaçava reeditar no Brasil a inépcia do russo titubeante que fraquejou diante do assalto dos comunistas ao poder. Em conversas com militantes sindicais do Partido Comunista Brasileiro, o latifundiário Jango empregava idêntica metáfora: “Pertenço a uma classe diferente, e não serei o Kerenski de vocês”.

Três décadas antes, Carlos Lacerda era um buliçoso jornalista de 21 anos que abandonara a faculdade de direito. Em julho de 1935, ainda magro como a prosa enxuta de Graciliano Ramos, o então comunista Lacerda leu numa cerimônia um manifesto de Luiz Carlos Prestes. O Cavaleiro da Esperança clamava por “Todo o poder à Aliança Nacional Libertadora!”. O brado pastichava o apelo insurrecional dos revolucionários conduzidos por Vladímir Lênin, “Todo o poder aos sovietes!”.

A ANL do antigo capitão Prestes e do jovem Lacerda incitava o povo às armas, por “pão, terra e liberdade”. Copidescava palavras de ordem bolcheviques: “paz, pão e terra” e “pão, paz e liberdade”. Em sua campanha eleitoral de estreia (1982), o Partido dos Trabalhadores tremulou a bandeira de “terra, trabalho e liberdade”.

Nem sempre as alusões aos eventos da Revolução Russa são evidentes. O batismo, como Jornadas de Junho, das manifestações do Brasil em transe de 2013 se inspirou nas Jornadas de Julho da Petrogrado de 1917. As dessemelhanças de contexto e as raríssimas afinidades entre os protestos não inibiram a boutade histórica.

Desde sua aurora, o regime soviético e seus protagonistas — duradouros ou desgraçados — seduziram intelectuais brasileiros. “Ave, Rússia!”, reverenciou Lima Barreto, espinafrando “burguesinhos muito tolos e superficiais” que maldiziam as novidades vindas do frio. No paroxismo da sabujice, Jorge Amado canonizou em vida Ióssif Stálin como “mestre, guia e pai, o maior cientista do mundo de hoje, o maior estadista, o maior general, aquilo que de melhor a humanidade produziu”.

Paulo Leminski acarinhou com versos nostálgicos o casal Natália Sedova e Leon Trótski (“desta vez não vai ter neve como em petrogrado aquele dia”). Carlos Drummond de Andrade, em “Carta a Stalingrado”, poetou a epifania: “Os telegramas cantam um mundo novo que nós, na escuridão, ignorávamos”. Drummond, como tantos contemporâneos, romperia com o comunismo.

O anticomunismo brasileiro também bebeu no imaginário associado à Revolução Russa. Um longevo “polvo bolchevique” ilustrou durante décadas o “perigo vermelho”. Com o ocaso da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e seus tentáculos, os emblemas se renovaram. “Vai pra Cuba!”, vociferado como desaforo, substituiu “Vai pra Sibéria!”.

No centenário da Revolução, a desinteligência sobre o passado permanece incandescente como as controvérsias de 1989 sobre a Revolução Francesa

Certos círculos historiográficos supunham que, com a dissolução da URSS em 1991 e o consequente crepúsculo da Guerra Fria, os balanços dos 74 anos de existência do Estado comunista se tornassem mais tépidos. A previsão revelou-se ingênua. Um século depois da Revolução Russa, a desinteligência sobre o passado permanece incandescente como as controvérsias que, em 1989, conflagraram as retrospectivas da Revolução Francesa em seu bicentenário.

Nas duas efemérides, os acontecimentos de outrora foram — ou são — pincelados pelos estudiosos mais influentes com tintas sobretudo sombrias, e não luminosas. Esses retratos expõem tanto os séculos idos quanto o espírito do tempo presente.

Entre os lançamentos que exumam o episódio-chave do século 20, ao menos três condensam em cerca de 250 páginas suas narrativas ou ensaios (sem somar o espaço de complementos de edição, como bibliografia). A Revolução Russa, da australiana Sheila Fitzpatrick, vai de fevereiro de 1917 aos expurgos stalinistas de 1937 e 1938. É uma síntese introdutória, como Do czarismo ao comunismo, do brasileiro Marcel Novaes. Este livro percorre os três séculos de domínio da dinastia Romanov e termina nos anos 1920, com a promoção de Stálin à chefia do regime soviético. História da Guerra Civil Russa, do francês Jean-Jacques Marie, reconstitui a carnificina que sobreveio à ascensão dos bolcheviques e à reação contra eles.

Fitzpatrick e Marie são sovietólogos tarimbados, com caudalosa produção editorial. Ela ensinou história soviética na Universidade de Chicago e hoje leciona história da Rússia moderna na Universidade de Sydney. Ele cursou história, letras clássicas e russo no ensino superior, mas não mantém vínculos acadêmicos. Na nota biográfica, a Contexto omite que há mais de meio século Jean-Jacques Marie é militante trotskista. Tal condição não o descredencia como historiador, mas conhecê-la é um direito do leitor.

Novaes é apresentado pelo selo Três Estrelas como “professor e escritor”, autor de um livro a respeito da Revolução Americana de 1776. A editora não esclarece sua formação nem a área de conhecimento de sua atuação docente. Ele é professor universitário de física, estatuto que em nada desmerece sua incursão inaugural na história russa.

O livro de Fitzpatrick foi publicado pela primeira vez, em inglês, em 1982. A edição atualizada se enriquece com as descobertas proporcionadas pela abertura dos arquivos da URSS. O de Marie saiu em 2005 e foi republicado em 2015, em francês. A edição brasileira reproduz ao menos uma das francesas ao, é pena, prescindir de bibliografia e notas sobre fontes. Não traz, ao contrário dos outros dois volumes resenhados, índice onomástico.

Nas referências bibliográficas de Novaes, inexiste título de Lênin ou, um antagonista dos bolcheviques, o social-democrata Karl Kautsky. Há frases e opiniões deles no livro, mas com base em outras publicações. A única obra de Trótski listada, o primeiro dos três volumes de A história da Revolução Russa (Paz e Terra), debruça-se sobre fevereiro de 1917, e não outubro (Novaes afirma que Trótski escreveu o livro no México, mas foi no exílio em Prinkipo, na Turquia). Se mimetizado o procedimento, o épico britânico na Segunda Guerra Mundial seria contado sem consultar as memórias de Winston Churchill como fonte primária, citando o primeiro-ministro somente a partir de relatos de terceiros.

Não constam da bibliografia os dois livros inescapáveis sobre Stálin de autoria do historiador inglês Simon Sebag Montefiore. Todas as fontes de Novaes são livros. Fitzpatrick e Marie recorrem também a periódicos, panfletos, documentos e correspondências, lidos por eles em russo.

Uma das principais influências de Marcel Novaes é o historiador inglês Orlando Figes. O escritor e dramaturgo Maksim Górki está em onze páginas de Do czarismo ao comunismo. Nas cinco com indicação de fonte, a origem é A tragédia de um povo, o mais premiado trabalho de Figes. A edição da Todavia, na bibliografia selecionada por Sheila Fitzpatrick, dá a entender que A tragédia de um povo não foi editado no Brasil. Ignora a tradução da Record, de 1999.

Esperanças e tragédias, guerras e revoluções convulsionaram a Rússia no despertar do século 20. A revolução de 1905 desafiou a autocracia czarista. A de fevereiro de 1917 destronou o czar Nicolau 2º e liquidou a monarquia, instituindo o governo provisório, composto por liberais e socialistas moderados. A de outubro daquele ano depôs Kerenski, que deu lugar ao governo revolucionário do Partido Bolchevique, cujo nome logo mudaria para Partido Comunista.

A rigor, nem a Revolução de Fevereiro foi em fevereiro, nem a Revolução de Outubro foi em outubro. Vigorava no Império Russo o calendário juliano, abolido pelos bolcheviques. Com ele, a folhinha atrasava treze dias, em relação ao calendário gregoriano, adotado em boa parte do planeta. Uma revolução deu-se em março de 1917. A outra, em novembro, no dia 7.

Cidades que surgem na historiografia com nomes diferentes às vezes são a mesma. São Petersburgo virou Petrogrado, depois Leningrado e, com o esfacelamento da URSS, de novo São Petersburgo. A Tsarítsin da guerra civil se transformou na Stalingrado da Segunda Guerra e na atual Volgogrado.

Domínio de indicações geográficas é o de menos para não se perder nos labirintos e loopings da história russa. O mais célebre testemunho a quente da Revolução de Outubro veio à luz em 1919. O livro Os dez dias que abalaram o mundo, do jornalista John Reed, foi menosprezado por antibolcheviques como propaganda vulgar perpetrada por um norte-americano partidário da nova ordem soviética. Essa crítica reapareceu revigorada no século 21, em flancos de tons liberais e conservadores. A suspeição, justa ou injusta, demonstrou fôlego.

Outros outubros não vieram na vizinhança. O poder não ficou com os sovietes, mas com o PC, como partido único. Outras agremiações foram proscritas

À esquerda, o tratamento dispensado a John Reed escancarou os descaminhos soviéticos. O autor nunca disfarçou sua solidariedade aos bolcheviques. Não afetou distanciamento, nem padeceu de síndrome de filho de chocadeira. Os heróis do seu livro são Lênin e Trótski. Ao morrer de tifo, em 1920, Reed recebeu uma rara honraria soviética a estrangeiros: enterraram-no no mausoléu da praça Vermelha, em Moscou. Num prefácio a Os dez dias que abalaram o mundo, Lênin chancelou: “Recomendo-o sem reservas aos trabalhadores de todo o mundo”.

Lênin morreu em 1924, e o stalinismo tornou o passado imprevisível como o futuro. No filme Outubro (1927), Serguei Eisenstein foi obrigado a recriar Stálin como co-protagonista da tomada do poder em 1917. Na reportagem de Reed, o georgiano é coadjuvante ou figurante. Um novo prefácio da edição soviética de Os dez dias que abalaram o mundo desautorizou sem sutileza o que se leria a seguir. Mais tarde, proibiram o livro.

Em 1981, Warren Beatty ganhou o Oscar de melhor diretor por Reds, em que dramatiza a vida de John Reed. Vinte e seis anos após a certidão de óbito da URSS, dificilmente a acolhida generosa ao filme, ocorrida mesmo nos Estados Unidos da era da Guerra Fria, se repetiria agora. A face do ontem depende dos olhos de hoje.

A infância da Revolução Russa é o período comum aos livros de Fitzpatrick, Marie e Novaes. Os bolcheviques instauraram no país atrasado, com 80% de população camponesa, o primeiro Estado comunista. De certo modo, deu zebra: o marxismo vislumbrava revoluções proletárias em nações industrializadas, de capitalismo desenvolvido.

Os comissários do povo, denominação bolchevique para os ministros, expropriaram os capitalistas e nacionalizaram as fábricas. Asseguraram terra aos camponeses, direito ao divórcio e ao aborto. Separaram igreja e Estado. Numa sociedade sem tradição democrática, prometeram poder aos conselhos — sovietes, em russo — de delegados operários, soldados e camponeses. Quanto mais o socialismo prosperasse, anunciavam, menos necessários seriam o Estado e sua autoridade coercitiva. Reviveram estandartes de liberdade e igualdade, que não se excluiriam. Alardearam que a sobrevivência da Rússia soviética exigia o espocar de mais revoluções vermelhas na Europa.

Outros outubros não vieram na vizinhança. O poder não ficou com os sovietes, mas com o Partido Comunista, estabelecido como partido único. As demais agremiações, da direita à esquerda, foram proscritas. Coletivizaram o campo à força, à custa de dezenas de milhões de mortos de fome. O Estado totalitário stalinista foi brutal e implacável com a divergência. Torturou, matou, institucionalizou o terror. Forjou processos e exterminou a velha guarda bolchevique — Nikolai Bukhárin, fuzilado; Trótski, golpeado com uma picareta de alpinista. Implantou campos de trabalho forçado, os Gulags. Proibiu sindicatos independentes e imprensa livre. A legislação sobre divórcio e aborto regrediu. A estética opressiva do realismo socialista e a censura voraz sufocaram a arte — pleonasmo — libertária.

Não foram erros, eufemismo cínico, e sim crimes. Apagaram de antigas fotos e pinturas personagens incômodos para o stalinismo (um ótimo livro, sem edição brasileira, compila as falsificações de imagens: The Commissar Vanishes, do inglês David King). A história não é unilateral. Em sete décadas e meia, a URSS passou de agrária a majoritariamente urbana, a segunda potência mundial. O pioneiro dos passeios no espaço foi o cosmonauta russo Iuri Gagárin. O malogro da Alemanha de Hitler custou a vida de estimados 27 milhões de soviéticos, decisivos para o fracasso do nazismo (800 mil norte-americanos e britânicos pereceram).

Os três livros abordam questões como continuidade ou ruptura entre leninismo e stalinismo, e se a “ditadura do proletariado” moldada por Lênin já conformava a essência do regime de Stálin — Novaes sustenta que sim; Marie, que não; Fitzpatrick oscila. Para Novaes, “Lênin tomou o lugar do czar e seu partido tomou o lugar da nobreza”. Jean-Jacques Marie endossa Trótski e a denúncia da “revolução traída”, com uma casta burocrática no poder. Fitzpatrick e Novaes concordam que os bolcheviques executaram um golpe de Estado. Houve uma revolução clássica, com respaldo de massas, contrapõe Marie.

A Primeira Guerra Mundial, em que o czar uniu-se a Grã-Bretanha e França contra Alemanha e Áustria-Hungria, foi determinante para as circunstâncias excepcionais que desembocaram na Revolução Russa. O povo queria paz. Os bolcheviques se opunham ao conflito, pintado como imperialista, e retiraram a Rússia.

Na guerra civil deflagrada com a queda de Kerenski, o Exército Vermelho guiado por Tróstki combateu uma vasta coalizão de inimigos internos, aliados às grandes potências estrangeiras. As páginas de Jean-Jacques Marie jorram sangue e documentam a infâmia ao contar o ressurgimento do canibalismo, derivado da inanição disseminada, e massacres infindos, como os pogroms de judeus.

Está por vir o epílogo da guerra travada entre os dois sistemas — propriedade privada e propriedade coletiva — desde outubro de 1917

As façanhas da Segunda Guerra Mundial, tratada como Grande Guerra Patriótica, são hoje mais populares na Rússia do que a Revolução de Outubro. Ainda assim, uma pesquisa do Centro Levada mostrou em abril que 48% dos entrevistados expressam visão positiva da revolução bolchevique, contra 31% de respostas negativas. A memória do comunismo revolucionário perturba o presidente Vladímir Pútin, a cara da restauração capitalista no país. Ex-agente do KGB, a derradeira polícia política da URSS, Pútin sugeriu mudar o nome do “evento de 1917” para “reviravolta política”.

Os autores dos livros divergem na interpretação da derrota da União Soviética. “O legado desse experimento político de grande escala [o comunismo] foi, em geral, de destruição e morte”, sentencia Marcel Novaes. Para Jean-Jacques Marie, está por vir o epílogo da “guerra travada entre os dois sistemas [propriedade privada e propriedade coletiva] desde outubro de 1917”. Sheila Fitzpatrick vaticina: “O sentido da Revolução Russa, assim como o da Revolução Francesa, será debatido eternamente”.  

Quem escreveu esse texto

Mário Magalhães

Jornalista, escreveu Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo (Companhia das Letras).

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.