Filosofia,

Gênero, drogas e tecnologia

Filósofo e escritor trans Paul B. Preciado relata suas experiências com testosterona e defende a liberdade individual nas questões de gênero

20nov2018 - 16h53 | Edição #12 jun.2018

Há algo de perturbador nesse livro, algo que me faz lembrar a mesa de abertura do Seminário Internacional Desfazendo Gênero, em Salvador (2015), quando Indianare Alves Siqueira, uma das lideranças históricas do movimento trans (“transvestigênere”, na nomenclatura que defende), voltou-se para a filósofa americana Judith Butler, que acompanhava a fala em tradução simultânea, e disse: “o que você faz na teoria, a gente faz na prática”. Butler atônita, embaraço visível nos rostos da organização e o auditório irrompendo em aplausos eufóricos, o que diz muito sobre como a cena foi vivida por cada lado.

Testo junkie, de Paul B. Preciado, parte desse mesmo espírito iconoclasta, com direito a malcriação também, não para cima de Butler, uma das bases teóricas dessa obra assombrosa, e sim de gente como a figura mais importante do feminismo do século 20: “Que se foda Beauvoir” (“Fuck Beauvoir”, no original espanhol), título do subcapítulo em que o autor narra suas próprias reações pretensamente femininas ante a rejeição da escritora francesa Virginie Despentes, com quem Preciado se relacionava à época e em torno da qual orbita o livro, e uma cena tórrida de sexo entre os dois e Jimi, seu dildo (consolo) de estimação. A malcriação, nesse caso, tem a ver com a consciência, inescapável para qualquer feminista pós-Beauvoir, da efetividade do treinamento recebido (pelas pessoas que nascem com vagina) para existir, sentir e se comportar como mulher.

Filosofia, economia e história em meio a dildos, ao coaching viril que Preciado se autoimpõe para tornar-se “um macho de elite”, aos anseios por uma faloplastia high-tech que lhe proporcione um pênis funcional de 27 centímetros (o tamanho de seu antebraço, de onde se retirariam pele e nervo para a realização da cirurgia) — sem que isso signifique o desejo de retirar os seios –, e em meio, sobretudo, à “intoxicação voluntária à base de testosterona”. O registro dessa intoxicação, abrindo o livro no lugar do comentário de Hegel, Heidegger, Simone de Beauvoir ou Butler, é tomado como ponto de partida da reflexão e isso faz possível a gênese do que o autor concebe como uma “filosofia da decapitação”, metáfora com a qual quer contestar a ideia corrente de filósofo como a cabeça pensante de um homem “cis” que, acreditando deixar seu corpo de lado, erigiu toda uma economia a partir do próprio genital.

“Cis”, o contrário de trans, tudo o que não é trans, e quem se vale do termo é Preciado. Não constava do original de 2008, quando usava os termos “bio-hombre” e “bio-mujer”, nomeações que não deixam de soar sarcásticas num texto que põe em questão qualquer expectativa de fundar os conceitos de homem e mulher numa suposta biologia pré-discursiva. A versão em inglês, de 2013, já adota “cis” como padrão e, ao que tudo indica, é ela o original da tradução brasileira. Mas se o autor adota a terminologia transfeminista, faz isto de forma crítica, a começar pela maneira como se coloca e como pensa a si próprio.

Pirataria de gênero

Nascido na Espanha em 1970, o filósofo e escritor transgênero passou a assinar Paul somente em 2015, sete anos depois da publicação de Testo junkie. Inúmeras marcas desse processo se deixam entrever nesse texto que fica a meio caminho entre a “autoficção” e a “autobiografia” (esta a palavra que abre a presente tradução, calcada no memoir da edição inglesa, ao passo que autoficción foi o termo usado em espanhol). As iniciais com que se autorreferencia se mantêm B.P. (Beatriz Preciado, seu nome de nascimento e com o qual muitas de suas obras seguem sendo publicadas). Ele ora se trata como mulher e lésbica, ora como trans, para de tempos em tempos declarar a recusa tanto do gênero feminino que lhe foi atribuído ao nascer quanto do “masculino que a medicina transexual me promete e que o Estado acabará me outorgando se eu me comportar de forma correta”, afirmando ainda que sua experimentação com testosterona não tem como propósito transformá-lo em homem ou transexualizar seu corpo, mas sim “frustrar o que a sociedade quis fazer de mim”: bioterrorismo de gênero, hackers e piratas de gênero.

A rinoplastia é considerada cirurgia estética, enquanto a construção da vagina exige a tutela do Estado

Há, portanto, uma finalidade política, e daí a necessidade de fazê-lo para além da fiscalização do Estado e da Medicina, como maneira de reaver o controle sobre o próprio corpo e também de questionar a preponderância dessas duas instituições em determinar quais entendimentos de corpo e experimentações com gênero seriam legítimos, quais não. O autor exemplifica esse controle com a rinoplastia, que é considerada cirurgia estética (o nariz, propriedade individual e objeto do mercado), enquanto a construção cirúrgica de uma vagina ou pênis exige a tutela do Estado, que considera os genitais sua propriedade.

Tecnogêneros

Preciado denomina nossa era “Farmacopornográfica”, “termo [que] se refere aos processos de governo biomolecular (fármaco-) e semiótico-técnico (-pornô) da subjetividade sexual”. Esses processos tiveram na pílula anticoncepcional, com seu controle da capacidade reprodutiva feminina, no Viagra, com o qual a masculinidade se torna “um domínio de capitalização e engenharia biopolítica”, e na Playboy, onde a pornografia transforma “a masturbação em fonte de capital”, alguns dos seus resultados mais paradigmáticos.

A descoberta dos hormônios sintéticos — e esse violentíssimo caminho é rememorado em detalhes no livro — impõe novos processos de produção e regulação das categorias homem e mulher, permitindo-nos agora pensar a diferença sexual em termos de uma construção técnica — e nisso é preciso não nos esquecermos de Judith Butler, para quem construir gênero implica sempre no risco de desmantelá-lo. Reflexão das mais urgentes para pessoas trans e não trans (segundo o autor, “esses dois status de gênero biopolítico são tecnicamente produzidos”, o que significa dizer “que há apenas tecnogêneros”), uma vez que o texto pode ser pensado tanto como crítica à condição de reféns do regime “farmacopornográfico” quanto como convite a tomar as rédeas dessas técnicas de produção da subjetividade.

Quem escreveu esse texto

Amara Moira

Crítica literária, escreveu E se eu fosse puta (Hoo).

Matéria publicada na edição impressa #12 jun.2018 em junho de 2018.