Ensaio,

Gente firme

Em livro de ensaios, Nuno Ramos recorre a Graciliano Ramos, Oscar Niemeyer e Caetano Veloso para tentar explicar o Brasil atual

01maio2019 - 01h00 | Edição #22 mai.2019

Por artes do destino, a primeira Bienal de Nuno Ramos também foi a primeira de João Figueiredo como presidente da República. Falamos da 15ª edição da exposição, organizada entre outubro e dezembro de 1979. Figueiredo compareceu no dia 6 do último mês, uma quinta-feira. Chegou às 15h35, conforme noticiou no dia seguinte O Estado de S. Paulo. E precedido de um esquema de segurança que incluía soldados da Polícia do Exército e do  Choque, policiais à paisana e mais de vinte viaturas da Rota.

Ao chegar à Bienal, o derradeiro mandatário do ciclo militar foi saudado por centenas de jovens. Trajando jeans e camisas comuns, procuravam passar por estudantes. “No entanto, o corte de cabelo militar traía o disfarce”, registrou o Estado. Os jovens formaram um corredor por onde passou Figueiredo, sob aplausos. Pelas contas do jornal, eram cerca de 2 mil, destacados para impedir qualquer manifestação estudantil. Em caso de protestos, caberia a eles a primeira repressão — as demais forças entrariam em ação só se os estudantes estivessem em maior número.

O aparato se devia à visita de Figueiredo a Florianópolis dias antes, ainda encalacrada em sua garganta. Terminou com um passeio no centro da cidade, onde o general se deparou com um protesto organizado pelo Diretório Central dos Estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina: 4 mil pessoas que o recepcionaram com gritos, paus, pedras, xingamentos e vaias. Figueiredo partiu para cima deles, para desespero dos seguranças, que precisaram contê-lo. “Eles ofenderam os meus brios e eu deixei momentaneamente de ser presidente. Eu até admito conversar com eles. Agora, o que eu não admito é que minha mãe esteja em pauta”, declarou aos jornais. O episódio ganhou o apelido de novembrada.

Alheio a tudo isso, Nuno Ramos, então um cabeludo de dezenove anos, tirou bem aquele 6 de dezembro para visitar sua primeira Bienal. Ele e um amigo foram atraídos pelas aquarelas do belga Jean-Michel Folon, premiado na edição anterior e escalado naquele ano. Mal pisaram no entorno, foram atirados num camburão e levados para uma sala do Departamento Estadual de Ordem Política e Social, o DEOPS. “Tenho a memória, provavelmente fantasiosa, de ter visto o Lula ali, porque havia gente da UNE e uns barbudos presos”, lembra Nuno, liberado doze horas depois. “Só nós dois não fomos protestar.”

Mal pisou na Bienal, Nuno foi atirado num camburão pela escolta do presidente João Figueiredo

O dia ainda teve direito a briga entre policiais na frente da Bienal. Começou com a apreensão dos filmes de três fotógrafos, entre eles Pedro Martinelli, de O Globo, por três policiais que ocupavam uma Veraneio azul. Como eles se identificaram como membros do deops, a notícia da apreensão foi levada ao diretor do órgão, Romeu Tuma, que destacou um delegado para reaver os filmes. Este ouviu do mandachuva do trio: “Eu também sou da polícia e não vou devolver coisa nenhuma. Tenho ordem do Segundo Exército”. Ao que o delegado respondeu, se aproximando do agente: “Então terei de revistá-lo”. O policial revidou a tapas, socos e pontapés. E logo se formou um aglomerado de policiais que se empurravam e trocavam porrada, além dos que correram para tentar separar a briga.

Passados quarenta anos, Nuno classifica o episódio como tolo, sem reflexo algum em sua trajetória. Mas não deixa de ser irônico que aquele cabeludo alienado tenha participado já de cinco Bienais e se convertido em um dos artistas brasileiros mais engajados politicamente.

Gente frouxa

Em outubro de 2018, a cinco dias do segundo turno das eleições, ele publicou um artigo na Folha de S.Paulo que começava assim: “Gente frouxa. Fazendo a conta das próprias culpas. Vocês vão deixar isso seguir, a câmera lenta do suplício, o passo a passo da catástrofe, até a coroação final desse palhaço?”. “Sua alma não está sendo vendida ao diabo, Fernando Henrique?”, perguntava. “E Ciro, rodando a Europa? Estará magoado? Quem sabe um terapeuta?” A Haddad, seu voto nos dois turnos, incitava: “Faça o que tiver de fazer, inclusive romper com a Gleisi Hoffmann e com esse narcisismo autovitimizante do seu partido”.

Outro alvo foi um dos primos do artista, Samuel Pessôa, doutor em economia pela usp e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas. “Precisamos de declarações bem claras de condenação à Venezuela antes de assinar manifestos democráticos, Samuel Pessôa, meu primo querido? —mas você ainda não entendeu que a Venezuela é aqui, agora?”, indagava Nuno. 

Intitulado “Gente Frouxa”, o artigo descrevia seus alvos lá pelas tantas da seguinte forma: “Narcisos pançudos coçando a própria imagem, dizendo veja bem, veja bem’”. E terminava com um apelo para tentar frear a candidatura de Bolsonaro: “Defendam os desprotegidos. Pois não é exagero — diante do que vem aí, desprotegidos somos todos, e mais ainda quem é pobre e preto e veado e lésbica e de sexo trocado. Juntem-se. Defendam em bloco, tirem a camisa, chamem para a rua, arrisquem. Criem. Gente frouxa”. 

Procurado pela revista, Pessôa se disse chateado com o artigo. “Ele agrediu profundamente pessoas que discordam dele. Nem eu nem as outras pessoas são frouxas, isto é, covardes, e também não são pançudas, isto é, ociosas no conforto de seus lares, bebendo vinho e fumando charuto enquanto o país se desmorona”, afirmou, para esclarecer em seguida que não guarda rancor do primo. “Nuno demonstrou liberalidade no julgamento de terceiros e profunda intolerância com a diferença.”

Diz Ramos sobre o primo, a quem chama de Samuca: “Ele é de centro direita, de uma linhagem do PSDB, e eu talvez de centro esquerda. Não temos o hábito de sentar para debater, até porque ele é palmeirense e eu sou santista, mas sempre o admirei na divergência”. Não, não existe um grupo familiar de WhatsApp frequentado pelos dois. O artista recorre aos White Walkers, os mortos-vivos que ameaçam varrer a humanidade do mapa no seriado Game of Thrones e motivam até a união de inimigos figadais para justificar por que entre eles não pode haver desunião. “Com a chegada do bolsonarismo, as nossas diferenças perdem toda a importância”, acredita.  

Vida

“Com essa boçalidade toda aí fora eu me sinto altamente estimulado a agir”, disse ele numa recente manhã luminosa em sua casa, um sobrado sem paredes entre a sala, a copa e a cozinha na Vila Romana, em São Paulo. “Só que é preciso responder com vida, e não com depressão.” Suas pinturas mais recentes refletem essa visão. Estão reunidas na mostra Sol a Pino, em cartaz na galeria Fortes D’Aloia & Gabriel, em São Paulo, até o dia 18.

São painéis, como de praxe, carregados de uma mistura de tinta a óleo, parafina, vaselina e pó, além de retalhos e pedaços de pneus, que dá origem a formas tridimensionais projetadas à frente em alguns trechos por vários e vários centímetros. A escolha por cores mais vibrantes que as usuais é evidente. “São quadros desesperadamente alegres, uma tentativa de reação mais solar aos tempos atuais”, interpreta o artista paulistano, de 59 anos. Cada uma dessas obras, que pesam uns 250 quilos, valea us$ 130 mil (seus desenhos sobre papel saem por us$ 32 mil).

Nuno faz pinturas desse tipo, sempre com as telas na horizontal, desde os anos 1980. Ele recorre a uma escada para apreciar o todo só quando considera a obra pronta, para não influir demais na composição. “Sinto que estou alimentando um bicho que não sei como vai ser quando ele for mais velho”, compara. Diz o amigo e crítico de arte Lorenzo Mammì: “Ele é um pintor que leva a tridimensionalidade ao limite. E essa vontade de romper os limites, que o leva também a escrever, filmar, criar performances, é uma de suas características mais visíveis. Sem dúvida é um dos artistas brasileiros mais inquietos”.

“Gente frouxa” foi republicado em Verifique se o mesmo, o décimo livro de Nuno. Lançado em abril, reúne 21 artigos e ensaios, alguns deles inéditos, que tratam de temas tão diversos como Oscar Niemeyer, Glauber Rocha e Nelson Cavaquinho. Mas se há algo comum a todos os textos é o Brasil atual. O título é inspirado na frase, algo dúbia, que, por força de lei, é lida em todos os prédios com elevadores no estado de São Paulo: “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar”. A ambiguidade: o sujeito da frase é o elevador ou o “mesmo”?

‘Essa boçalidade toda me estimula a agir. Só que é preciso responder com vida e não com depressão’

Escreve Nuno na introdução: “Pessoalmente, tenho mesmo muito medo dele [o mesmo]. Não sei onde começa nem onde termina, e detesto, particularmente, sua potência de disfarce, infiltrando-se em tudo como um penetra de festa profissional, sem nunca dizer o nome”. Mais adiante, esclarece o propósito da obra: “Aplicado ao país, o tema atravessou minha vida pessoal, e a de minha geração, como um ruído de fundo difícil de escutar, até que, bumba, prestamos atenção e ele parece sempre ter estado ali, ensurdecedor, a ponto de não ser possível, agora, escutar mais nada”. 

Embate com o mundo

Na primeira parte de Verifique se o mesmo, o artista apresenta uma tese sobre a cultura brasileira na qual identifica “certa dificuldade de expansão, de exteriorização, de embate com o mundo”. Vale para artistas como Machado de Assis, Graciliano Ramos, Tunga, João Gilberto e Caetano Veloso. “Para Nuno Ramos, esse voltar-se para dentro seria resultado da absoluta falta de ressonância do objeto cultural na vida em que se insere”, sustenta, na orelha da obra, a crítica de arte Veronica Stigger. “Por isso, talvez, a necessidade de situar o livro dentro do quadro político e social brasileiro dos últimos anos.”

Fiasco no palco

Nuno não é um artista que virou escritor, foi o contrário. Seu fascínio pela literatura vem da infância. Adorava Robinson Crusoé, que diz ter lido mais de dez vezes. Driblava a escola para passar o dia enfurnado nos livros com a ajuda de um termômetro aquecido na lâmpada, aceito pela mãe, a historiadora Dulce Ramos, como prova da febre mentirosa. Aos doze anos, começou a escrever poesia, para o orgulho do pai, o português Vitor Ramos, professor de literatura francesa da USP.

Aos catorze anos, após a morte do pai, em decorrência de um aneurisma cerebral aos 54, Nuno se afastou da escrita. “Ao que tudo indica tive uma crise edipiana”, acredita ele, que transformou em quarto a biblioteca do pai. Além de livros de ensaios, publicou ficção e poesia. Ó e Junco foram laureados pelo Prêmio Portugal Telecom, o último na categoria de melhor livro de poesia. 

“Não me esqueço da precocidade dele na infância, lendo e discutindo Thomas Mann aos treze anos”, lembra o primo Samuel Pessôa, cerca de dois anos mais jovem. “Soava um pouco pedante, mas a verdade é que era algo natural, não construído”.

Ex-aluno do colégio Equipe, onde ficou próximo da turma dos Titãs, por pouco não enveredou pela música, apesar da timidez e da desafinação evidente. Para demovê-lo bastou uma desastrosa experiência no palco com Arnaldo Antunes (o ex-Titã é irmão de Sandra, com quem o artista é casado há mais de trinta anos e teve três filhos). Anos mais tarde, Nuno voltaria a se associar à música, mas como letrista dos cantores Romulo Fróes, seu ex-assistente de ateliê, e Eduardo Climachauska, o Clima, com quem desenvolveu, entre outros trabalhos, a monumental instalação “Globo da morte de tudo”, montada pela primeira vez em 2012.

Quase todas as letras de La commedia é finita, o segundo álbum de Clima, lançado em março, levam a assinatura de Nuno. “As que ele envia eu aceito sem questionar, como se fossem minhas”, diz o parceiro. “Trabalhar com ele não é só garantia de um resultado extraordinário, mas de um processo extremamente rico. Poucas coisas são tão estimulantes como  trocar ideia com ele.” Na canção derradeira de Monumento ao soldado desconhecido, gravada no primeiro disco de Clima, Nuno foi enfim autorizado a mostrar seus dotes musicais. Bate dois pratos de percussão.

Graduado em filosofia na usp em 1982, ele passou a pintar em seguida. A convivência com quatro outros jovens pintores — Carlito Carvalhosa, Fábio Miguez, Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade — é considerada a sua formação nessa área. Nuno foi convidado para dividir o mesmo ateliê partilhado pelo quarteto, situado numa casa de número 7 no bairro de Cerqueira César — daí o nome com o qual o grupo ficou conhecido, Casa 7.

Figurativas, as primeiras telas permitiam vislumbrar umas meias e uns casacos, embora já ostentassem grossas camadas de tinta. “O que mais me impressionou naquela época foram sua falta de técnica e de intimidade com a pintura, e a determinação”, lembra Rodrigo Andrade. “Antes da chegada dele éramos um grupo mais colegial. Trouxe uma inquietação muito forte, que elevou o grau da aposta.”

Na galeria Raquel Arnaud, montou pela primeira vez a instalação 111, em 1992, sob o impacto do massacre dos presos da Casa de Detenção do Carandiru — consiste em pedaços de jornal e folhas da Bíblia colados com asfalto e breu sobre paralelepípedos com os nomes dos mortos impressos em chumbo. Sete anos antes, com os colegas da Casa 7, havia debutado na Bienal. 

“Posso dizer, de boca cheia, que só não sou um artista melhor por culpa minha. Jamais poderei reclamar que não tive condições objetivas para fazer o que quis”, reconhece. “Um projeto ou outro não deu para viabilizar, claro, mas de cada dez, oito saíram do papel.”

‘Só não sou um artista melhor por culpa minha. Sempre tive as condições para fazer o que quis’

Na infância, o engajamento político foi estimulado pelos avós maternos, comunistas. Na casa deles não se podia deixar comida no prato, em razão das crianças que passam fome no mundo; o jardim era repleto de árvores brasileiras, como pau-brasil, pau-ferro, pitangueira; e o tradicional “Parabéns a você”, tradução do “Happy Birthday to You”, era obrigatoriamente seguido de outra melodia, autenticamente brasileira. Abastecer o carro? Só nos postos da Petrobras.

Samuel Pessoa, o avô, era filiado ao Partido Comunista do Brasil, o PCB, e se candidatou a deputado federal, sem se eleger. A avó, Jovina, estimulava os netos a decorarem o poema “Navio negreiro”, de Castro Alves, em troca de algum dinheiro. O artista ainda recorda de alguns trechos da obra, mas ainda com mais nitidez daquilo que a avó lhe dizia ao lhe entregar a quantia prometida: “Isto é merda, Nuninho, isto é merda”.  

Quem escreveu esse texto

Daniel Salles

É jornalista.

Matéria publicada na edição impressa #22 mai.2019 em abril de 2019.