Arte, Infantojuvenil,

Nada mais me assusta

Com pinturas de Jean-Michel Basquiat, edição infantil de poema de Maya Angelou revela a arte como forma de sobrevivência

01set2018 - 04h51 | Edição #15 set.2018

Dedicado “a todas as crianças que fingem não ter medo do escuro”, A vida não me assusta é um poema escrito por Maya Angelou em 1978. Ode à coragem narrada em primeira pessoa, a obra tem como refrão o verso “nada na vida me assusta”. Medos infantis percorrem as estrofes — das fantasias noturnas às fobias reais. Sombras, fantasmas, bruxas e dragões aparecem ao lado de cães que rosnam, brigas e pancadas na madrugada, estranhos no escuro. No ponto alto do texto, um pesadelo real modifica o formato das estrofes e do refrão, dando lugar a uma nova voz: “Na escola nova,/ um pesadelo/ meninos puxam meu cabelo/(meninas imbatíveis/de cabelos crespos/incríveis)/ ELES NÃO ME ASSUSTAM NADA”. É em letras garrafais que o refrão aparece ao longo de todo o livro, como um grito para espantar o que, aqui, é muito mais do que bullying escolar.

Afinal, Maya Angelou tem muito a nos dizer sobre medo e coragem. Nascida em 1928 no sul dos Estados Unidos, foi estuprada aos sete anos e ficou cinco sem falar palavra alguma. Passou a viver com a avó paterna no Arkansas, onde cresceu ao lado do irmão, converteu-se à leitura e conheceu autores como Shakespeare, Mark Twain e Langston Hughes. Ao olhar para seu passado, Angelou uma vez afirmou: “Parei de falar, mas continuei a escutar. Quando decidi voltar a me expressar, eu tinha muito a dizer”. Seus depoimentos ajudam a entender melhor a poética da autora que se tornou uma das primeiras escritoras negras a ter um best-seller no país — o mais conhecido deles, Eu sei por que o pássaro canta na gaiola, publicado no Brasil em 1996 pela José Olympio, descreve sua infância marcada por violência e racismo. 

Após trabalhar como garçonete, cantora e dançarina, Angelou ingressou nos movimentos de direitos civis dos anos 60, ficou amiga de Malcolm X e Martin Luther King e assumiu uma cadeira na Universidade da Carolina do Norte, onde lecionou por mais de trinta anos. Reconhecida com prêmios acadêmicos e literários, foi homenageada pelos presidentes Bill Clinton e Barack Obama. O documentário Maya Angelou E ainda resisto (2016), dirigido por Bob Hercules e Rita Coburn Whack, está disponível na Netflix e apresenta em detalhes a trajetória da poeta, morta em 2014. Embora não seja um pré-requisito, conhecer a vida e a obra da escritora possibilita uma leitura distinta de A vida não me assusta

A versão infantil do poema foi publicada originalmente em 1993 e relançada em edição comemorativa em 2017. O livro chegou neste ano ao Brasil, pelo selo Caveirinha, da DarkSide Books. A organização é da escritora, editora e fotógrafa Sara Jane Boyers, autora de diversos livros foto-ilustrados já publicados no país. 

Os traços de Basquiat combinam com o imaginário infantil acessado pelos versos da poeta

É de Boyers a ideia de unir Maya Angelou e Jean-Michel Basquiat, dois grandes artistas negros americanos, autores de obras reveladoras do rastro violento deixado pelo racismo. Telas importantes de Basquiat compõem a obra, ocupando páginas inteiras ao lado dos versos de A vida não me assusta, que aparecem em fundo preto. No apêndice, o poema original, textos biográficos dos artistas e um posfácio assinado pela autora.

Nova-iorquino nascido em 1960, filho de pai haitiano e mãe porto-riquenha, Basquiat não era da geração de Angelou. Desenhava desde pequeno, revelando cedo um particular interesse por anatomia. De comportamento indômito, deixou a casa dos pais aos quinze anos, chegou a dormir nas ruas de sua cidade e foi um dos pioneiros da street art e do grafite em Nova York. Tornou-se um dos mais importantes artistas de sua época e morreu aos 27 anos. 

A combinação das poéticas de Angelou e Basquiat preserva a contundência de suas obras individuais, ambas marcadas por forte denúncia social. Os traços, o caos e a intensidade dele no uso das cores vão ao encontro do imaginário infantil que acessamos pelos versos da poeta.

Neste encontro de percursos biográficos reveladores do poder transgressor da experiência artística, os versos finais merecem ser lidos com atenção especial: “Carrego sempre comigo/ um amuleto escondido/ exploro o fundo do mar/ sem precisar respirar/ NADA NA VIDA ME ASSUSTA/ NADA NADA”. 

A ancestralidade original dos amuletos une metaforicamente estes dois artistas negros, que encontraram na arte e no ativismo formas de sobreviver em meios sociais asfixiantes e perversos. 

Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É crítica literária, coordena a pós-graduação Literatura para crianças e jovens no Instituto Vera Cruz (SP).

Matéria publicada na edição impressa #15 set.2018 em setembro de 2018.