Literatura estrangeira,

Psicanálise, fantasia e sexo estranho em Murakami

Romance do escritor japonês foi tema do nosso clube de leitura em parceria com a Japan House

27set2019 - 17h50

Aconteceu na última quinta-feira (26) o quarto encontro do clube de leitura da Quatro Cinco Um em parceria com a Japan House São Paulo. O assassinato do comendador, de Haruki Murakami (Companhia das Letras), foi comentado por Leyla Perrone-Moysés, escritora, professora e crítica literária, coordenadora do Núcleo de Pesquisa Brasil-França e vencedora do Prêmio Jabuti de Estudos Literários na categoria Ensaio em 1993. 

O bate-papo teve mediação de Paulo Werneck, editor da Quatro Cinco Um. Junto com Natasha Barzaghi Geenen, diretora cultural da Japan House São Paulo, ele é responsável pela curadoria do projeto, que foca a literatura contemporânea japonesa. Estão previstos mais três encontros, sempre nas últimas quinta-feira do mês, com críticos e escritores de ficção convidados.

Lançado em 2018 no Brasil, o livro de Murakami versa sobre amor, solidão, guerra e arte, e é pontuado por referências a ícones da cultura ocidental, elementos místicos e realidades paralelas. É o primeiro romance longo do autor desde 1Q84, que o projetou mundialmente. O volume 2 de O assassinato do comendador tem previsão de lançamento pela Companhia das Letras no início de 2020.

Na trama de O assassinato do comendador, um homem que se separa da mulher passa a viver em seu carro, viajando pelo Japão. Pintor de retratos reconhecido no meio, acaba conseguindo uma casa nas montanhas que pertenceu ao célebre artista Tomohiko Amada. Lá, dedica-se à pintura. 

Ao ouvir ruídos estranhos, o narrador descobre um quadro inédito intitulado "O assassinato do comendador". Ao tirá-lo de seu esconderijo, entra em um mundo paralelo em que se misturam a ópera "Don Giovanni", de Mozart, a encomenda de um quadro, uma adolescente tímida e, é claro, um comendador.

"A partir dos anos 1970, eu saí do nicho da literatura francesa e fui para os da portuguesa e da brasileira e, então, da internacional. Tornei-me, como dizem os médicos, uma generalista. Sou apaixonada pela cultura japonesa", disse Leyla, que visitou Tóquio e Quioto, no Japão, nos anos 1990, e se encantou pelo país. 

Ela contou ter sido influenciada a apreciar a literatura japonesa por Paulo Leminski e pelos irmãos Haroldo e Augusto de Campos, além da leitura de Octavio Paz. "Tenho lido muito literatura japonesa em traduções para o português e o francês — inclusive já li o volume 2 deste livro em francês, mas não vou dar spoilers [risos]".

A crítica literária então questionou a que gênero pertence o romance de Murakami: "Ele é realista? Ele tem uma localização real, que é o Japão, e descrições muito precisas de paisagens, roupas e refeições. Mas é difícil dizer que é um romance realista. É um romance sobrenatural? Também não. Eu diria que ele corresponde exatamente à definição de literatura fantástica pelo teórico Tzvetan Todorov, que diz que a literatura é fantástica quando há hesitação entre o extraordinário e o que pode ter uma explicação".

Leyla chamou a atenção para as constantes dúvidas do narrador quanto ao que está acontecendo, citando o seguinte trecho do livro: “Tudo parecia ser apenas um breve sonho, mas eu sabia muito bem que não estava sonhando. Se aquilo fosse um sonho, então o próprio mundo em que eu vivia deveria ser também um sonho”.

Ela expôs duas técnicas usadas por Murakami em seus livros: a prolepse, quando o autor antecipa algo que vai acontecer, e a analepse, que é o flashback típico da linguagem do cinema. "Ele maneja muito bem isso como suspense, e usa também técnicas de folhetim, como quando habilmente faz resumos ao leitor", disse, citando também o fato de o narrador fazer perguntas constantemente, o que coloca o leitor no jogo, pois dá voz a indagações que ele faria.

Também foi levantada a questão sobre até que ponto Murakami é um autor japonês, pois tem sido criticado em seu país por não ser "suficientemente japonês". Leyla falou sobre as referências ocidentais do escritor na música, na literatura e no cinema. "Ele tem muitas referências cultas, mas muitas pop, também. Ao mesmo tempo, tem referências fortes da cultura japonesa, como o monge enterrado, uma tradição muito antiga, e o estilo nihonga. As paisagens que ele descreve, que são maravilhosas, parecem muito as paisagens desse estilo japonês, com montanhas, névoas e pássaros."

A crítica literária falou sobre a inspiração de O assassinato do comendador em O Grande Gatsby, romance do norte-americano F. Scott Fitzgerald, algo explicitado pelo próprio Murakami em diversas entrevistas. “O que ele não diz, mas se nota, é a influência de O apanhador no campo de centeio, clássico de J. D. Salinger. A irmãzinha que morreu no livro de Murakami se parece muito com o irmãozinho que morreu no livro de Salinger, por exemplo”, completou.

Para Leyla, O assassinato do comendador permite uma leitura psicanalítica, uma vez que tem a identidade como questão principal: “O narrador é um retratista que faz pinturas de empresários japoneses num estilo bem careta e comercial. A certa altura, ele faz o retrato de um homem sem face, que tem uma névoa no rosto. Mas, na verdade, o próprio narrador é um homem sem face. Ele não tem nome, é uma pessoa muito comum, só sabemos que ele é talentoso". Ela também pontuou a presença de um superego na figura do comendador. 

Censurado na China, o romance tem cenas de sexo explícitas, mas, segundo Leyla, de caráter estritamente objetivo: "Elas não são, digamos, excitantes. São descritas com a mesma simplicidade com que ele descreve uma roupa ou uma refeição". Por fim, a crítica literária falou sobre a dificuldade de classificar Murakami como romancista popular ou de alta literatura. "Ele é muito complexo para ser mero entretenimento, mas, ao mesmo tempo, é um contador de histórias em estilo claro, o que faz com que seja bestseller."

Para fechar a noite, um dos leitores presentes apresentou um jogo de bingo inspirado em Murakami, lendo para uma plateia entretida alguns dos itens da cartela: "fetiche por orelha, telefonema inesperado, cactus, discos de jazz antigo, corrida, poderes sobrenaturais, estação de trem, adolescente precoce, mundo paralelo, sexo estranho".

O próximo encontro do clube de leitura da Quatro Cinco Um em parceria com a Japan House acontece em 31 de outubro e abordará o livro Querida kombini, de Sayaka Murata (Estação Liberdade). Fique ligado nas nossas redes sociais para mais informações!