Listão da Semana,

Uma africana no Louvre e mais 11 lançamentos

A experiência africana nos campos artístico e estético das belas-artes ocidentais é contada em ‘Uma africana no Louvre’, de Anne Lafont

17nov2022 - 13h35 | Edição #63

Uma jovem africana das colônias habita o Museu do Louvre há mais de dois séculos. Na pintura, datada de 1800, ela ostenta uma postura ereta e altiva em um momento em que isso era algo revolucionário para as mulheres negras de Paris. A história do quadro, da artista e da modelo — e a experiência africana nos campos artístico e estético das belas-artes ocidentais — é contada em Uma africana no Louvre, de Anne Lafont, que chega nesta semana às livrarias brasileiras. 

Completam a seleção da semana uma antologia de crônicas de Cidinha da Silva, um ensaio de Walter Rodney sobre como a Europa subdesenvolveu a África, palestras de Angela Davis, um retrato de Silvina Ocampo por Mariana Enriquez, o novo romance de Michel Houellebecq, e a poesia de Beckett e de Gertrude Stein.

Viva o livro brasileiro!

 

Uma africana no Louvre. Anne Lafont.
Trad. Ligia Fonseca Ferreira • Bazar do Tempo • 88 pp • R$ 49

A historiadora da arte Anne Lafont faz um estudo do imaginário social a partir de um quadro do Museu do Louvre, pintado em 1800, que representa uma jovem negra. Por duzentos anos a tela se chamou Portrait d’une Négresse (termo que em francês tinha um sentido pejorativo) até que, em 2000, passou a se chamar de Portrait de d´une Femme Noire (Retrato de uma mulher negra) e, em 2019, após a identificação da identidade da retratada, Portrait de Madeleine (Retrato de Madeleine). Lafont é pesquisadora e diretora de estudos da École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, na França.
 
Trecho do livro:
“É interessante sublinhar que foi uma pintura franco-brasileira que levou Segato a estudar o fenômeno psíquico presente na ama de leite negra no imaginário brasileiro. A descoberta de um quadro exposto sem etiqueta no Museu Imperial de Petrópolis trouxe à tona uma obviedade: as amas de leite negras, presentes em praticamente todas as camadas da sociedade brasileira desde os primeiros tempos da colonização, eram um fato ignorado na história nacional”. 

Leia também: As obras de Dalton Paula restituem a dignidade e a subjetividade de figuras silenciadas pela arte e pela história.

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A menina linda e outras crônicas. Cidinha da Silva.
Editora Oficina Raquel • 140 pp • R$ 49

A coletânea de crônicas da escritora mineira Cidinha da Silva coloca em primeiro plano personagens — reais e fictícios — que abordam questões étnicas, sociais e de gênero. Em “A menina linda”, que abre o livro e dá título ao volume, uma professora precisa se educar diante das surpresas indigestas que o racismo pode trazer. E fica a pergunta: “Por que a felicidade da mulher negra precisa ser guerreira, sempre?”. A autora é uma das convidadas da Flip 2022, que acontece neste mês.

Leia também: Cidinha da Silva fala das matérias-primas que compõem sua escrita.

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Como a Europa subdesenvolveu a África. Walter Rodney.
Trad. Heci Regina Candiani • Apres. Angela Davis • Boitempo • 352 pp •  R$ 99

Publicado em 1972 na Inglaterra e na Tanzânia pelo eminente historiador guianense (assassinado por razões políticas em 1980), o livro expõe o impacto da escravidão e do colonialismo na África, argumentando que o subdesenvolvimento não é um fato natural, mas uma consequência da exploração do continente — inicialmente pela drenagem de sua população, enviada como mão de obra escravizada as Américas e, depois de 1880, como fornecedora de matérias-primas a preços módicos e como compradora de produtos manufaturados de segunda linha. 

Leia também: Ao fugir dos estereótipos, livros mostram as ricas civilizações do continente africano.

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O sentido de liberdade e outros diálogos difíceis. Angela Davis.
Trad. Heci Regina Candiani • Apres. Robin D. G. Kelley • Boitempo • 164 pp • R$ 53

O livro reúne doze palestras da filósofa e ativista norte-americana Angela Davis, professora emérita da Universidade da Califórnia, sobre a relação entre racismo, neoliberalismo, opressões de gênero e de classe e expansão do complexo industrial-prisional nos Estados Unidos. Davis analisa fatos históricos como a Guerra no Iraque, o 11 de Setembro, a eleição de Barack Obama e o movimento pelos direitos civis.

Leia também: A vida de Angela Davis ganha uma adaptação em formato de quadrinho.

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A irmã menor: um retrato de Silvina Ocampo. Mariana Enriquez.
Trad. Mariana Sanchez • Relicário • 224 pp • R$ 58,90

A jornalista e escritora argentina Mariana Enriquez (autora de As coisas que perdemos no fogo, 2017) traça um retrato de Silvina Ocampo, uma das mais celebradas contistas do país. Filha de uma família aristocrática, casou-se com Adolfo Bioy Casares, era grande amiga de Jorge Luis Borges — que jantava todas as noites em sua casa — e tinha uma relação conflituosa com sua irmã mais velha, Victoria Ocampo, fundadora da revista literária Sur

Leia também: Livro de contos traz pela primeira vez ao Brasil o mundo cruel e a sexualidade perversa de Silvina Ocampo.

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Aniquilar. Michel Houellebecq.
Trad. Ari Roitman • Companhia das Letras • 480 pp • R$ 99,90

Ganhador do prêmio Goncourt de 2010 com O mapa e o território, o escritor francês Michel Houellebecq faz um thriller sobre um alto funcionário do Ministério da Economia da França que enfrenta uma crise no casamento e a enfermidade de seu pai enquanto precisa lidar com as ameaças de um grupo terrorista contra seu superior direto. 

Leia também: Os livros de Houellebecq esbarram na figura desajustada e por vezes repugnante do autor.

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Poesia completa. Samuel Beckett.
Trad. Marcos Siscar e Gabriela Vescovi • Relicário • 288 pp • R$ 82,90

A edição bilíngue reúne todos os versos publicados pelo grande dramaturgo irlandês Samuel Beckett, autor de Esperando Godot (1948) e Fim de jogo (1957). Sua escrita recusa a postura poética autocomplacente e a exploração da elegância convencional e mostra um humor ácido e grande sensibilidade aos dramas existenciais em suas diversas formas de manifestação.

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Botões tenros. Gertrude Stein.
Trad. e posf. Arthur Lungov • Jabuticaba • 148 pp • R$ 38

Escritos entre 1912 e 1913 e traduzidos agora para o português pela primeira vez, os poemas da norte-americana Gertrude Stein trazem versos no limiar do inteligível, que parecem não guardar conexão semântica com os objetos designados nos títulos (“garrafas”, “pratos”, “chapéus” etc.) e apresentam uma intenção estética aparentada com o cubismo de Picasse e Braque.

Leia tambémObra infantil de Gertrude Stein explora o ritmo das palavras e sua capacidade de ganhar novos sentidos.

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Vapt-vupt
+ novidades quentinhas

Eros, o doce-amargo: um ensaio. Anne Carson.
Trad. Julia Raiz • Bazar do Tempo • 254 pp • R$ 78

A poeta canadense examina o conceito de eros na literatura grega clássica e na filosofia antiga.

Febre de cavalos. Leonardo Padura.
Trad. Monica Stahel • Boitempo • 128 pp • R$ 47

Escrito em 1982, o primeiro romance de Padura está centrado em um adolescente que conhece uma vizinha sedutora mais velha.

Os órfãos. Bessora.
Trad. Adriana Lisboa • Relicário • 244 pp • R$ 62,90

A autora belga conta a história de dois órfãos alemães que, após a Segunda Guerra Mundial, são adotados por uma família racista da África do Sul.

Uma temporada no Congo. Aimé Césaire.
Trad. João Vicente e outros • Pref. Éric Vuillard • Temporal • 232 pp • R$ 64

A peça teatral aborda a independência do Congo e o assassinato do líder anticolonial Patrice Lumumba.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #63 em outubro de 2022.