Listão da Semana,

Um manifesto sobre os cães e mais 10 lançamentos

A especial interação entre cães e humanos ganha uma nova camada de interpretação com a obra de Donna Haraway

27jul2021 - 15h09 | Edição #47

A especial interação entre cães e humanos ganha uma nova camada de interpretação com a chegada do O manifesto das espécies companheiras às livrarias brasileiras. Para a norte-americana Donna Haraway, essa relação não é simples, óbvia ou linear, e pode ser marcada por desperdícios, crueldade, indiferença, ignorância e perdas — mas também, é claro, por alegrias, invenções, trabalho, inteligência e diversão. Vale ler a ótima resenha de Daniel Galera sobre esse e outros dois livros que tratam da nossa coabitação com animais e suas subjetividades.

Completam a seleção da semana o novo livro de Djamila Ribeiro, a história dos intelectuais franceses, uma viagem literária pelo Brasil, o romance do guitarrista do The Who, um guia de Buenos Aires além do óbvio, uma análise dos fascismos do século 21, a evolução do cérebro segundo Miguel Nicolelis, uma homenagem aos negros que marcaram a história do Brasil, um ensaio sobre vigilância e resistência na dadosfera e uma nova edição do clássico de Pierre Verger.

Viva o livro brasileiro!

O manifesto das espécies companheiras: cachorros, pessoas e alteridade significativa. Donna Haraway.
Tradução de Pê Moreira • Posf. Fernando Silva e Silva • Bazar do Tempo • 186 pp • R$ 65

A filósofa, bióloga e feminista norte-americana analisa a cultura criada pela estreita relação entre o homem e outras espécies, tomando por base o relacionamento entre pessoas e cachorros, ligados pelo que ela chama de alteridade significativa. Autora do Manifesto ciborgue (1985), Haraway defende a atenção à vida multiespécie como o caminho possível para um futuro de sociedades mais justas. Na Quatro Cinco Um de agosto, o escritor Daniel Galera resenha o livro: “Haraway rejeita visões romantizadas dos cães, ‘filhos peludos’ merecedores de amor incondicional. Comentando os métodos de duas adestradoras famosas, Susan Garrett e Vicki Hearne, defende que respeito e confiança mútuos são mais importantes do que o mero alívio de sofrimento e projeções antropomórficas”. Leia o texto na íntegra.

Leia também: Escrito há dois milênios, o tratado de Aristóteles sobre os animais influenciou a anatomia de Cuvier e foi elogiado por Charles Darwin.

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A era da ansiedade. Pete Townshend.
Trad. Maira Parula • Rocco • 304 pp. • R$ 69,90

Em sua estreia na literatura, o icônico guitarrista e principal compositor do The Who escreve um romance narrado por um “marchand de Arte Outsider” e ex-usuário de drogas que conta a trajetória de seu afilhado, um jovem roqueiro que começa a criar “paisagens sonoras” com base em suas visões, recheadas de imagens pungentes, sombrias e alucinantes. Em resenha que prepara para a Quatro Cinco Um, Tony Bellotto, guitarrista e compositor dos Titãs, escreve: “É notável que o guitarrista tenha conseguido narrar em letras silenciosas as mais ruidosas e alucinadas experiências sonoras e feito com que essa patologia proporcione uma metáfora lúcida para pensar e refletir a arte em nossa época”

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Viagem ao país do futuro. Isabel Lucas.
Cepe • 328 pp • R$ 55

A jornalista portuguesa reúne nesta obra uma série de reportagens baseadas em viagens que fez pelo Brasil tentando entender o país por meio de sua literatura e de seus escritores — como Euclides da Cunha, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Clarice Lispector, Jorge Amado, Lygia Fagundes Telles, Milton Hatoum —, nas quais se defrontou com a grande diversidade linguística do país. Em entrevista à Quatro Cinco Um, ela conta: “Queria saber mais sobre essa multiplicidade de Brasis dentro do Brasil. Seria muita pretensão ter descoberto o que era o Brasil — nunca a tive. Mas foi fascinante o confronto com a diversidade da língua, algo para continuar a explorar”. Leia a entrevista na íntegra.

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Cartas para minha avó. Djamila Ribeiro.
Companhia das Letras • 200 pp. • R$ 34,90

A autora de O que é lugar de fala (2017) e Quem tem medo do feminismo negro? (2018) escreve cartas para sua avó, que morreu quando ela tinha treze anos, nas quais rememora sua infância e adolescência (o sonho de ser uma paquita, o primeiro beijo), episódios traumáticos (abuso sexual, racismo) e tragédias pessoais (perda da mãe aos vinte anos e do pai aos 21). Ela relata seu longo processo de amadurecimento e narra os obstáculos para seguir carreira acadêmica e as dificuldades para criar filhos em uma sociedade racista.
 


Djamila Ribeiro (Marlos Bakker/Divulgação)
 

Leia também: Djamila Ribeiro resenha livro infantojuvenil sobre os deuses do candomblé.

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Instruções para montar mapas, cidades e quebra-cabeças. Flávia Péret.
Posf. Paloma Vidal • Guayabo • 208 pp • R$ 25

A escritora mineira compõe uma espécie de diário de viagem sobre Buenos Aires, reunindo de maneira não linear diversas lembranças sobre a cidade e seus habitantes — o restaurante onde ela trabalhou como garçonete, as pichações nas ruas, a memória da ditadura nos espaços urbanos, a paisagem vista do ônibus. O livro reúne imagens de Julio Cortázar, Ricardo Piglia, Jorge Luis Borges e Rodolfo Walsh. Bianca Tavolari resenha o livro na Quatro Cinco Um: “É um manual de instruções para enxergar além da paisagem considerada importante de ser vista, para olhar para as experiências de quem não cabe nos lugares que a maioria das pessoas visita e para a dimensão histórica do terrorismo de Estado que se faz ver no espaço urbano da capital argentina”. Leia o texto na íntegra.

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As novas faces do fascismo: populismo e a extrema direita. Enzo Traverso.
Trad. Mônica Fernandes, Rafael Mello e Raphael Lana Seabra • Âyiné • 280 pp. • R$ 79,90

Autor de A melancolia de esquerda: marxismo, história e memória, o historiador italiano aponta as diferenças entre o fascismo histórico da primeira metade do século 20 e os fascismos do século 21. Aqui ele distingue os neofascismos — que surgiram na Europa Central e que pregam abertamente uma continuidade ideológica com o fascismo histórico — do que chama de pós-fascismo, um fenômeno global que apresenta diversas formas, mas se processa em meio à hegemonia neoliberal. 
 


O historiador italiano Enzo Traverso (Divulgação)
 

Trecho do livro: “O pós-fascismo não carrega os valores «fortes» de seus ancestrais da década de 1930, porém pretende preencher o vácuo deixado pela política reduzida ao impolítico. Suas receitas são politicamente reacionárias e socialmente regressivas: abrangem a restauração da soberania nacional, a adoção de formas de protecionismo econômico, assim como a defesa de ‘identidades nacionais’ ameaçadas”.

Leia também: Enzo Traverso escreve sobre a tristeza vaga e profunda que sempre assolou a cultura de esquerda.

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A saga dos intelectuais franceses: 1944-1989. François Dosse.
Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira • Estação Liberdade • 704 pp. • R$ 129

Em seu primeiro volume, abarcando de 1944 a 1968, o livro reconstitui a história da intelectualidade francesa no pós-Guerra: a libertação do país e a ascensão de Sartre (e as rupturas do filósofo com os antigos companheiros Raymond Aron, Albert Camus, Claude Lefort e Maurice Merleau-Ponty), o sucesso de Simone de Beauvoir, a guerra ideológica da inteligentzia comunista, a fratura provocada pela Guerra da Argélia, o movimento estruturalista (Claude Lévi-Strauss, Michel Foucault), as vanguardas políticas e artísticas nos anos 60, a Guerra do Vietnã e a revolta da juventude.

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O verdadeiro criador de tudo: como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. Miguel Nicolelis.
Crítica/Planeta • 400 pp. • R$ 89,90/39,99

Reunindo conceitos de diversos campos (neurociência, matemática, teoria da evolução, ciência da computação, física e história), o neurocientista brasileiro explica o funcionamento das funções cerebrais e mostra como esse órgão evoluiu até se tornar um verdadeiro computador orgânico, dotado de uma grande capacidade de abstração e de uma notável maleabilidade para aprender, e que consegue fazer com que vários indivíduos sincronizem suas mentes em torno de um mesmo fim. Segundo Nicolelis, a capacidade do cérebro de conferir significado a todas as coisas que nos cercam e de compreender como elas funcionam permite que a humanidade se adapte a um ambiente natural em constante mutação. 

Leia também: Com didatismo e humor, neurocientista argentino explica o estado da arte do nosso conhecimento sobre o cérebro.

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Fluxo e refluxo: do tráfico de escravos entre o golfo do Benim e a Bahia de Todos-os-Santos, do século 17 ao 19. Pierre Verger. 
Trad. Tasso Gadzanis • Pref. Ciro Flamarion Cardoso • Posf. João José Reis • Companhia das Letras • 976 pp. • R$ 129,90

Resultado de vinte anos de pesquisa, a tese de doutorado defendida em 1966 pelo antropólogo, etnólogo e fotógrafo francês reconstitui a rota de compra e venda de pessoas cativas entre a Bahia e o golfo do Benim até a proibição do tráfico, em 1850. Apoiado em uma impressionante documentação, Verger conta a história do tráfico entre a Bahia e África (Angola, Costa da Mina, golfo do Benim) e explica a importância do tabaco baiano nesse comércio, as relações diplomáticas que se estabeleceram entre a Bahia e os reinos de Daomé, Onim e Ardra, as rebeliões de escravos na Bahia e a formação de uma sociedade brasileira no golfo do Benim. A nova edição do livro, publicado originalmente no Brasil em 1987, traz um posfácio inédito do historiador João José Reis.

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À procura deles: Quem são os negros e mestiços que ultrapassaram a barreira do preconceito e marcaram a história do Brasil. Mary del Priore.
Benvirá • 320 pp. • R$ 49,90

O livro conta a história de negros brasileiros que romperam as barreiras do preconceito e conseguiram ascender socialmente da era colonial até o início do século 20, como Nilo Peçanha (o primeiro presidente negro do Brasil), Francisco Gê Acaiaba de Montezuma (ministro da Justiça e dos Negócios Estrangeiros e presidente do Banco do Brasil no Segundo Reinado), Francisco de Salles Torres Homem (ministro da Fazenda no Segundo Reinado), Henrique Dias (militar herói da Batalha de Guararapes), Francisco Paulo de Almeida (barão e empresário durante o Segundo Reinado), Luiz Gama (jornalista e advogado autodidata), Eduardo Ribeiro (primeiro governador negro do Amazonas) e Juliano Moreira (fundador da disciplina psiquiátrica no Brasil).

Trecho do livro: “Se a proposta deste livro há de parecer incorreta para alguns por eu não ser uma autora preta, a ideia que o fez desabrochar me pareceu boa: responder à pergunta que me fazem. Dar protagonismo aos que conseguiram ‘chegar lá’, driblando as dificuldades e o preconceito. Apresentá-los ao público. Mostrar uma faceta pouco explorada, a de negros como agentes sociais. Lutar contra o apagamento de lideranças pretas e pardas, que existiram e não são lembradas”.

Leia também: Enciclopédia negra faz um trabalho de reparação histórica ao identificar figuras desconhecidas pela maioria dos brasileiros.

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Políticas da imagem: vigilância e resistência na dadosfera. Giselle Beiguelman.
Ubu • 224 pp. • R$ 59,90

A professora da FAU-USP mostra que as imagens tornaram-se as principais interfaces de mediação na vida cotidiana: elas colonizaram a comunicação, as relações afetivas e os corpos, via sistemas de escaneamento e aplicativos diversos. O livro reúne seis ensaios que analisam as transformações do olhar, as estéticas da vigilância, a memória no mundo digital, o racismo algorítmico e as novas formas de exclusão e a pandemia de imagens do coronavírus no Brasil e no mundo.

Leia também: O fotógrafo Victor Moriyama retrata o cotidiano da cidade de São Paulo durante o isolamento ocasionado pelo coronavírus.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #47 em maio de 2021.