Listão da Semana,

Um livro sobre a história dos livros e mais 7 lançamentos

Quando e onde surgiram os livros? Por que alguns se tornaram clássicos? O que se perdeu no caminho e o que se salvou?

31maio2022 - 15h08 | Edição #57

Quando e onde surgiram os livros? Por que alguns se tornaram clássicos? O que se perdeu no caminho e o que se salvou? Quais foram queimados com ódio e quais foram copiados da forma mais apaixonada? Os mesmos? Eis algumas das perguntas que a filósofa Irene Vallejo procura responder em O infinito em um junco, que chega nesta semana às livrarias brasileiras. Ao longo de mais de quatrocentas páginas, ela perpassa a história de trinta séculos do objeto — e também a nossa, os leitores ávidos de todo o mundo.

Completam a seleção da semana um estudo sobre a arte milenar do mangá, os novos romances do israelense David Grossman e da franco-argelina Fatima Daas, a história das festas religiosas por Luiz Antonio Simas, uma reflexão sobre a ecologia decolonial pensada a partir do mundo caribenho, um ensaio sobre os motivos e efeitos do uso de drogas e um livro infantojuvenil criado pelos artistas norte-americanos John Cage e Lois Long.

Viva o livro brasileiro!

O infinito em um junco: a invenção dos livros no mundo antigo. Irene Vallejo. 
Trad. Ari Roitman e Paulina Wacht • Intrínseca • 496 pp • R$ 89,90/62,90 

“Quando surgiram os livros? Qual é a história secreta dos esforços para multiplicá-los ou aniquilá-los? O que se perdeu no caminho e o que se salvou? Por que alguns se tornaram clássicos? Quantas baixas causaram os dentes do tempo, as unhas do fogo, o veneno da água? Que livros foram queimados com ódio e quais foram copiados da forma mais apaixonada? Os mesmos?” Eis algumas das perguntas que Irene Vallejo tenta responder na sua busca sobre a origem dos livros. Com pequenas anedotas e curiosidades históricas, a filósofa e estudiosa de filologia clássica refaz a trajetória do objeto desde os rolos de papiros e pergaminhos até os formatos atuais. O ensaio, que ganhou o Prémio Nacional de Literatura espanhol em 2020 e o Prémio Aragón em 2021, tornou-se um fenômeno editorial, traduzido para mais de trinta idiomas.

Leia também: Sociólogo analisa o impacto da revolução digital na indústria do livro e lança um alerta para o poder acumulado pela Amazon.

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Mil anos de mangá. Brigitte Koyama-Richard. 
Trad. Nícia Adan Bonatti • Estação Liberdade • 272 pp • R$ 149

Antes de se tornar praticamente sinônimo de histórias em quadrinhos japonesas, a palavra mangá (literalmente, desenho executado de maneira rápida e suave) designava os conjuntos de desenhos que serviam de modelo para alunos de um artista-mestre. Katsushika Hokusai (1760 – 1849), o autor de uma das mais famosas gravuras japonesas, “A grande onda de Kanagawa”, popularizou a palavra no século 19 e, após isso, o significado do termo foi se transformando até se tornar o que entendemos hoje. Toda essa história foi compilada por Brigitte Koyama-Richard. Nascida em Paris e doutora em literatura comparada pela Sorbonne, Koyama-Richard formou-se em literatura japonesa em Tóquio, cidade na qual atualmente trabalha como professora de literatura comparada e história da arte na Universidade Musashi. Seu livro, lançado na França em 2017, tem mais de quatrocentas imagens, a maioria inédita fora do Japão. A edição brasileira foi ampliada, incluindo mangás mais recentes, como Demon Slayer. 

Na edição de junho da Quatro Cinco Um, Clara Rellstab escreve sobre o livro: “É um esforço impressionante de legitimação do mangá como forma artística, resgatando-o de estereótipos ocidentais que o categorizam como objeto de atenção exclusiva dos públicos infantil ou incel, com imagens carregadas de sexo e violência”.

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A vida brinca muito comigo. David Grossman. 
Trad.Paulo Geiger • Companhia das Letras • 296 pp • R$ 99,90/39,90

Certo dia, o escritor israelense David Grossman recebeu uma ligação de uma mulher desconhecida, que contou sua história ao escritor e pediu que a transformasse em romance. Depois de duas décadas, a história é publicada — não a história factual da mulher, morta aos 96 anos, pouco antes da publicação, mas aquela reinventada e reescrita pelo autor israelense. Formado em filosofia e teatro, Grossman serviu no exército israelense, trabalhou como jornalista até ser demitido por atritos com o governo de seu país e é um grande ativista pela paz entre Israel e Palestina, além de ser um dos mais importantes escritores contemporâneos, premiado com o Book Prize International de 2017 por Um cavalo entra num bar. 

Na edição de abril da Quatro Cinco Um, Thais Lancman escreveu sobre A vida brinca muito comigo: “′Não esquecer cada detalhe, porque é assim que se constroem mitologiasʼ, diz Rafi, personagem de A vida brinca muito comigo, do israelense David Grossman. Mitologia, aqui, passa pela consagração de trajetórias individuais em mitos, por meio do ato de lembrar e evocar heranças, semelhanças, que se confundem com seu registro: o romance é também a descrição de uma filmagem e daquilo que a câmera capta, como se a tecnologia pudesse salvar do esquecimento, resguardando o mitológico. Como o romance mostra, isso não é necessariamente verdadeiro, tampouco essencial." Leia aqui a resenha na íntegra

Leia também: Em entrevista a Diogo Bercito, David Grossman fala do conflito em seu Israel natal: “Não me dou o luxo de me desesperar”.

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Santos de casa: fé, crenças e festas de cada dia. Luiz Antonio Simas.
Bazar do Tempo • 216 pp • R$ 65

Poeta, compositor, professor e mestre em história, Luiz Antonio Simas escreve sobre temas que conhece bem: a macumba, o futebol, o samba, o carnaval (sobre o qual falou no 59º episódio do 451 MHz), as brasilidades. Premiado com o Jabuti de não ficção por Dicionário da história social do samba, escrito com Nei Lopes, ele lançou no ano passado Maracanã: quando a cidade era terreiro (Mórula) e Umbandas: uma história do Brasil (Civilização Brasileira). Agora, em seu novo livro, ele percorre as festas, quermesses, procissões e outras expressões das espiritualidades brasileiras, como simpatias, presépios, novenas e encruzilhadas, para falar dos santos humanizados e incorporados à vida cotidiana. 
 
Leia também: Silvana Jeha resenha Umbandas: uma história do Brasil; e dois novos livros falam dos terreiros, rituais e festas de matriz africana do Rio de Janeiro.

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A última filha. Fatima Daas.  
Trad. Cecília Schuback • Bazar do Tempo • 196 pp • R$ 58

Caçula da família, a mais jovem de três irmãs, Fatima Daas tem um nome sagrado: Fatima, a filha do profeta Maomé. Ela não deveria sujar esse nome, mas sente que o faz quando passa a sentir atração por garotas. O nome é também o pseudônimo da autora franco-argelina que, dilacerada entre a sua fé muçulmana e o seu desejo por mulheres, faz com essa autoficção sua estreia na literatura, inspirada em autoras como Annie Ernaux e Marguerite Duras.

Trecho do livro: “Eu me chamo Fatima Daas. Sou a mazoziya, a caçula, a última filha. Aquela para a qual não estamos preparados. Francesa de origem argelina. Muçulmana praticante. Uma suburbana que observa os comportamentos parisienses. Sou uma mentirosa, uma pecadora. Adolescente, sou uma aluna instável. Adulta, sou hiperinadaptada. Escrevo histórias para evitar viver a minha. Fiz quatro anos de terapia. É a minha relação mais longa. O amor era tabu em casa, os sinais de ternura, a sexualidade também. Me vejo como poliamorosa. Quando Nina apareceu na minha vida, eu não sabia mais o que eu precisava nem o que me faltava. Eu me chamo Fatima Daas. Não sei se carrego bem o meu nome.”

Leia também: Autoras do Líbano e de Omã mostram a força da literatura árabe contemporânea.

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Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. Malcom Ferdinand. 
Trad. Letícia Mei • Pref. Angela Davis • Posf. Guilherme Moura Fagundes • Ubu • 320 pp • R$ 89,90

Nascido e criado na Martinica, Malcom Ferdinand formou-se em engenharia civil e ambiental na University College London. Após trabalhar em uma missão humanitária em Darfur, no Sudão, resolveu estudar ciências sociais. Em seu doutorado, feito na Université Paris Diderot, começou a desenvolver sua tese de que não é possível entender a crise ambiental atual sem conhecer a história colonial do mundo. Essa é a base teórica da ecologia decolonial proposta no livro, premiado pela Fundação de Ecologia Política em 2019.

Trecho do livro: “Para os europeus do século 16, a palavra ʽCaribeʼ, nome dos primeiros habitantes do arquipélago, designava selvagens e canibais. A exemplo do personagem Caliban da peça A tempestade, de Shakespeare, ʽCaribeʼ significaria uma entidade desprovida de razão cuja fiscalização por parte das colonizações europeias e de suas ciências faria emergir lucros econômicos e saberes objetivos. Essa perspectiva colonial persiste ainda hoje na representação turística do Caribe como um intervalo de areia inabitado fora do mundo. Pensar a ecologia a partir do mundo caribenho é a derrubada dessa perspectiva.”

Leia também: Os escritos de Suzanne Césaire permitiram que uma identidade negro-caribenha e anticolonial surgisse na literatura.

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 25% de desconto no site da editora Ubu. Conheça o nosso clube de benefícios

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O porquê das drogas. Øystein Skjælaaen. 
Trad. Leonardo Pinto Silva • Rua do Sabão • 213 pp • R$ 60/24,90

Pesquisador especializado em abuso de substâncias no Instituto Norueguês de Pesquisa sobre Álcool e Drogas e no Instituto Norueguês de Saúde Pública, Skjælaaen tem coordenado estudos sobre a percepção da população em relação ao consumo de álcool, algumas com títulos surpreendentes para o meio acadêmico — “Como ser um bom alcoólatra” é um deles. O autor também toca baixo na banda de folk-rock Real Ones, formada em 1994 e duas vezes vencedora do Grammy norueguês.  Em seu primeiro livro publicado, ele utiliza pesquisas, entrevistas e sua experiência pessoal para refletir sobre os motivos e efeitos do consumo de substâncias psicoativas legais e ilegais. 

Leia também: Livro destaca o embasamento científico, a legitimidade cultural e a aceitação social da maconha para além do que diz o governo

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O livro da lama: como fazer tortas e bolos. John Cage e Lois Long. 
Trad. Alexandre Barbosa de Souza • Ameli • 42 pp • R$ 42

Pioneiro no uso de instrumentos não convencionais, o compositor John Cage também sai da caixinha nesse livro infantil, sugerindo "receitas" fora do padrão e bastante imaginativas de bolinhos de lama. As ilustrações foram criadas pela artista norte-americana Lois Long, com quem Cage também criou The mushroom book (O livro dos cogumelos). As duas obras fazem parte de acervos de museus como o MoMa de Nova York. 

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #57 em fevereiro de 2022.