Listão da Semana,

Semana centenária

Diversos lançamentos celebram o evento que foi marco do modernismo brasileiro e mudou os rumos da cultura nacional

07fev2022 | Edição #54

“Acho perfeitamente dispensável comemorar o trigésimo aniversário da Semana. Que esperassem o centenário. Se no ano 2022 ainda se lembrarem disso, então sim”, disse Manuel Bandeira em entrevista ao Diário Carioca em 1952. Pois o momento chegou — e, com ele, diversos lançamentos para celebrar o evento que foi marco do modernismo brasileiro e mudou os rumos da cultura nacional. Entre eles está Modernismos 1922-2022, que chega nesta semana às livrarias reunindo ensaios sobre as origens e os desdobramentos da Semana e fazendo interessantes paralelos com o Brasil atual.

Completam a seleção da semana o primeiro livro de Hélène Cixous publicado no Brasil, um romance da espanhola Elena Medel, a obra que originou a nova série de Shonda Rhimes na Netflix, memórias da ditadura por Ana Maria Ramos Estevão, uma HQ da autora de Extraordinário e poemas de Guilherme Gontijo Flores.

Viva o livro brasileiro!

Modernismos 1922-2022. Gênese Andrade (org.).
Companhia das Letras • 896 pp • R$ 159,90

A coletânea reúne 29 ensaios sobre as origens e os desdobramentos da Semana de 1922, que completa cem anos, trazendo novas interpretações sobre o modernismo paulista e a repercussão do movimento. Assinam os textos pensadores como José Miguel Wisnik, Lilia Schwarcz, Walnice Nogueira Galvão, Fabio Cypriano, Regina Teixeira de Barros e Carolina Casarin, além de Paulo Roberto Pires, colunista da Quatro Cinco Um, e Daniel Trench, criador do projeto gráfico da revista. Os autores abordam os impactos da Semana nas diversas artes (literatura, música, artes plásticas, urbanismo, design), as relações dos modernistas com a política, a apropriação da temática indígena no ideário do movimento e a representação do negro nas obras do período, entre outros temas.


Pavilhão Brasileiro na Feira Mundial de Nova York, 1939   Acervo Fundação Biblioteca Nacional/Divulgação

Trecho do livro: “É possível crer que há um liame comum na vida urbana paulistana que permanece, com modificações, no período entre 1922 e 2022. Trata-se da multidão atravessada: pelos processos políticos que envolvem direta ou indiretamente a sociedade como um todo; pela produção e consumo em massa de mercadorias materiais e imateriais;  pela disseminação de informações e aparelhos tecnológicos e pela ocorrência de epidemias que afetam massivamente a população urbana”.

Leia também: Por que os modernistas que se reuniram na Semana de 1922 ignoraram a fotografia e o cinema?

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O riso da Medusa. Hélène Cixous.
Trad. Natália Guerellus e Raísa França Bastos • Pref. Frédéric Regard • Posf. Flavia Trocoli • Bazar do Tempo • 112 pp • R$ 58

O célebre ensaio de Hélène Cixous que versa sobre a hegemonia da escrita masculina na história ocidental é também seu primeiro livro publicado no Brasil. Nele, a filósofa franco-argelina observa que a quantidade de mulheres escritoras sempre foi irrisória e a voz feminina permaneceu tão ausente dos textos literários e teóricos que até mesmo os escritos dessas poucas mulheres são dominados, com raras exceções, pela presença de valores masculinos e pela reprodução de estereótipos sobre a feminilidade: “É hora de a mulher imprimir sua marca na língua escrita e oral”. Cixous foi pioneira nos estudos de gênero na Europa e criou a Universidade Paris 8 — Vincennes com Jacques Derrida e a revista Poétique com Tzvetan Todorov.

Leia também: Françoise Vergès e Heloisa Buarque de Hollanda apontam caminhos para o feminismo, ampliando suas teorias e práticas políticas.

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As maravilhas. Elena Medel.
Trad. Rubia Goldoni • Todavia • 192 pp • R$ 64,90/44,90 

Natural de Córdoba e residente em Madri, a escritora e editora espanhola Elena Medel conta neste romance a história de duas mulheres: María, que no final dos anos 60 troca Córdoba por Madri por razões financeiras, e sua neta Alicia, que faz o mesmo caminho trinta anos depois. As trajetórias das duas mulheres iluminam a história da Espanha do final da ditadura franquista até o presente, abordando as crises econômicas, a chegada dos imigrantes e a luta pelos direitos das mulheres.

Leia também: Trecho do primeiro livro da espanhola María Zambrano — primeira mulher a ganhar o prêmio Cervantes — publicado no Brasil.

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Inventando Anna. Rachel DeLoache Williams.
Trad. Camila Javanauskas • Rua do Sabão • 180 pp • R$ 49

O livro — que inspirou a minissérie homônima que estreia nesta semana na Netflix, assinada por Shonda Rhimes (Grey's AnatomyScandalHow To Get Away With Murder) — conta a história de Anna Delvey, vigarista que aplicou uma série de golpes na elite de Nova York fazendo-se passar pela herdeira de uma fortuna. Narrado por sua melhor amiga à época, que também foi vítima da encenação, o livro mostra como Anna deixou um rastro de mentiras e calotes por todas as festas, hotéis e restaurantes pelos quais passou. A Promotoria foi acionada e Anna foi detida em 2017. Condenada em 2019 a mais de quatro anos de prisão por roubo e furto, ela foi libertada em 11 de fevereiro de 2021.

Trecho do livro: “O engraçado é, eu não me arrependo. Eu estaria mentindo se falasse isso para você ou para qualquer um, mentindo até para mim mesma. Eu não me arrependo de nada. O meu motivo nunca foi dinheiro. Eu queria o poder. Eu não sou uma boa pessoa”.

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Torre das Guerreiras e outras memórias. Ana Maria Ramos Estevão.
 Pref. Dilma Rousseff • Editora 106 • 192 pp  • R$ 52,90

Com prefácio de Dilma Roussef, o livro traz as memórias da então militante estudantil (e evangélica) Maria Ramos Estevão, ligada à Ação Libertadora Nacional (ALN) e que foi presa em 11 de julho de 1970 e passou nove meses na cela 1 da chamada “Torre das Donzelas”, no Presídio Tiradentes, onde foi interrogada e torturada. Libertada em março de 1971, ela voltaria a ser presa em mais duas ocasiões, em 1972 e 1973. A obra destaca o papel desempenhado na repressão por “estudantes muito jovens, todos loiros” e a atuação dos membros do CCC (Comando de Caça aos Comunistas), que “torturavam por prazer e por ideologia, riam cinicamente enquanto as pessoas sofriam e gritavam. Esse não era o trabalho deles: eram fascistas voluntários, sendo treinados para a crueldade”.
 
Trecho do livro: “De novo, não consigo precisar quanto tempo permaneci no pau de arara; só consigo me lembrar de que, num determinado momento, entrou alguém fardado, que depois eu soube tratar-se do amaldiçoado Ustra, na época major Brilhante Ustra, comandante da Oban e depois do DOI-Codi. De todos os que me torturaram e deram ordem para que essas barbaridades acontecessem, Ustra foi o único declarado torturador por uma juíza de São Paulo”.

Ouça também: O episódio do podcast 451 MHz dedicado às vítimas da ditadura brasileira.

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Pássaro branco. R.J. Palacio.
Trad. Rachel Agavino • Intrínseca • 224 pp • R$ 69,90/46,90

Filha de imigrantes colombianos que se estabeleceram em Nova York, Raquel Jaramillo Palacio fez carreira como designer gráfica e diretora de arte, criando capas para mais de quinhentos livros. Começou a escrever seus próprios livros em 1998 e, em 2012, lançou Extraordinário, que virou filme estrelado por Jacob Tremblay, Julia Roberts, Owen Wilson e Sonia Braga. A narrativa gira em torno de August Pullman, o Auggie, um menino com uma severa deformidade facial que decide ir para a escola e enfrentar os preconceitos. Escrita e ilustrada por Palacio, a HQ Pássaro branco está centrada em Julian, um colega de turma que maltratou Auggie. Ao fazer um dever de casa, ele descobre que sua avó judia precisou se esconder dos nazistas na França ocupada, durante a Segunda Guerra, e que a vida dela foi salva por um menino de muletas desprezado pelos demais alunos.

Leia em primeira mão a resenha do livro, escrita por Thais Lancman para a edição de março da Quatro Cinco Um.

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Potlatch. Guilherme Gontijo Flores. 
Todavia • 128 pp • R$ 59,90/39,90

Escritor, ensaísta e professor de latim da Universidade Federal do Paraná, Guilherme Gontijo Flores já recebeu diversos prêmios (Jabuti, Paulo Rónai, APCA) pela tradução de obras de Safo, Sexto Propércio e Robert Burton. Como poeta, publicou Brasa enganosa (2013), Tróiades (2015) e Carvão::capim (2018). Dividido em quatro seções (“A parte da perda”, “Colheita estranha”, “Três estáticas” e “Cantos pra árvore florir”), seu novo livro reúne poesias melancólicas e reflexivas: “Você vai morrer sozinho/ vai ser sepultado sozinho […]. Pense por isso no dia/ que você vai morrer sozinho”.

Leia também: Guilherme Gontijo Flores escreve sobre o legado de Stella do Patrocínio, “um patrimônio poético brasileiro sem ter escrito um só poema”

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #54 em outubro de 2021.