Listão da Semana,

Os trabalhadores e a consciência política

‘O idioma da crítica’, do sociólogo argentino Horacio González, novos romances de Isabel Allende e Amélie Nothomb, a história do tarô, uma biografia de Stálin e mais

01fev2022 - 17h37 | Edição #54

Convidado a participar de uma mesa-redonda organizada pelo sindicato dos ladrilheiros de seu país, em 2017, o sociólogo argentino Horacio González expôs o que era, na sua visão, a dupla responsabilidade do movimento operário: gerar melhores condições de trabalho, com salários decentes, e desenvolver um interesse na construção política, sindical, popular e democrática na Argentina. O discurso integra a coletânea de ensaios O idioma da crítica, lançada nesta semana, e dialoga com a capa da Quatro Cinco Um de fevereiro (disponível na íntegra para assinantes no site da revista a partir de amanhã), na qual o entregador de aplicativo e ativista Paulo Galo aconselha: “Vocês podem ter problema com político, é direito de vocês. Mas vocês não podem ter problema com a política”.

Completam a seleção da semana os novos romances de Isabel Allende e Amélie Nothomb, uma reunião dos principais manifestos da arte e da literatura vanguardistas, a história do tarô, uma biografia de Stálin, contos de Cristhiano Aguiar e uma investigação sobre a guerra cibernética que trouxe perdas de bilhões de dólares a empresas e governos do mundo inteiro.

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O idioma da crítica. Horacio González. 
Org. e apres. Eduardo Rinesi • Ateliê de Humanidades • 212 pp • R$ 48

Nesta coletânea de ensaios, o sociólogo argentino Horacio González, que morreu de Covid-19 no ano passado, discute temas como a “consciência infeliz” de Juan Perón, os fundamentos da sociologia, o pensamento de Gramsci, a obra de Florestan Fernandes, Oswald de Andrade e o modernismo no Brasil, o livro Os sete pilares da sabedoria (de Lawrence da Arábia) e os desafios da classe trabalhadora na Argentina e no mundo.

Trecho do livro: “A ideia de produtividade não é necessária para o momento em que o capitalismo está hoje. Entretanto, usam-na como uma forma de sujeição. No Estado, não é necessária a ideia de produtividade. Como disse Gringo Castro, não se pode medir nada. O trabalho é uma responsabilidade, não uma forma de produtividade. Uma responsabilidade ou um pacto complexo entre proprietários e aqueles que têm a capacidade de trabalhar. É algo muito complexo que a humanidade tem que revisitar”.

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Gótico nordestino. Cristhiano Aguiar.
Companhia das Letras • 136 pp • R$ 54,90

Nos nove contos sombrios, em sua maioria escritos durante a pandemia de coronavírus, a doença está de alguma forma presente. As narrativas são ambientadas em um arco temporal que começa na era do cangaço, atravessa a ditadura militar e chega aos dias atuais. As histórias espelham uma sociedade marcada pela violência e pelo autoritarismo, na qual o terror está entranhado na intimidade.
 
Leia também: Lançamentos de autoras do México e da Bolívia exploram problemas sociais e raciais por meio da literatura gótica.

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Sandworm: uma nova era na Guerra Cibernética e a caça pelos hackers mais perigosos do Kremlin. Andy Greenberg.
Trad. Antonio Borge, Luciano Lima, Raphael Machado e Tulio Alvarez • Alta Books • 352 pp • R$ 60

O repórter investigativo da revista Wired descreve os ataques cibernéticos do grupo Sandworm e os prejuízos que eles causaram a empresas e governos do mundo inteiro, desde fabricantes de medicamentos até companhias de transporte de remessas – a disseminação do malware NotPetya, em 2017, trouxe perdas de 10 bilhões de dólares a algumas das maiores empresas do mundo. O nome do grupo se inspira nos vermes de areia do romance distópico Duna (1965), de Frank Herbert. A história do grupo hacker, que seria patrocinado pelo governo da Rússia, mostra que as guerras futuras começarão no ciberespaço, mas o mundo físico será destruído.

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Violeta. Isabel Allende.
Trad. Ivone Benedetti • Bertrand Brasil/Record • 322 pp • R$ 59,90

O novo romance de Isabel Allende narra a vida de Violeta Del Valle, uma mulher que está morrendo por causa da Covid-19. Ela nasceu em 1920, época em que a pandemia da gripe espanhola havia atingido o mundo. Sua família sobreviveu à doença, mas perdeu todos os seus bens durante a Grande Depressão e se mudou para uma região remota, onde ela cresceu. A trajetória da protagonista (parcialmente inspirada na vida da mãe de Allende, dona Panchita, que morreu em 2018) ilumina a história do Chile, sobretudo a luta pelos direitos das mulheres e a ascensão e a queda dos ditadores.

Leia também: Isabel Allende fala sobre as figuras femininas de sua vida, a luta contra o patriarcado e o que aprendeu dando entrevistas.

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Vanguarda europeia e modernismo brasileiro: apresentação e crítica dos principais manifestos vanguardistas. Gilberto Mendonça Teles.
José Olympio/Record • 658 pp • R$ 109

Publicada inicialmente em 1972, esta obra de referência reúne os principais manifestos, conferências, prefácios e poemas publicados de 1857 a 1972 pelos escritores e artistas das vanguardas estrangeiras e nacionais (Baudelaire, Rimbaud, Verlaine, Mallarmé, Apollinaire, Marinetti, Franz Marc, Maiakóvski, Tzara, Breton, Fernando Pessoa, Graça Aranha, Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Carlos Drummond). A presente edição vem acrescida de uma introdução inédita de Gilberto Mendonça Teles, com mais de cinquenta páginas, em que comenta os textos proclamados como manifestos pelos escritores vanguardistas das décadas de 20 e 40.

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Sede. Amélie Nothomb.
Trad. Gisela Bergonzoni • Tusquets/Planeta • 128 pp • R$ 38,90

Ganhadora do prêmio Renaudot, a escritora belga Amélie Nothomb cria uma narrativa ficcional sobre os últimos momentos de Jesus Cristo em sua cela, enquanto aguarda a crucificação. Ele recorda detalhes do julgamento em que foi condenado e os depoimentos de 38 pessoas que foram agraciadas com seus milagres, mas que agora já não o defendem. É o caso de uma mãe que, tendo tido seu filho curado de uma doença mortal, reclama que Jesus não curou seu temperamento difícil; e das noivas de Canaã, em cuja festa de casamento ele transformou água em vinho, mas que se mostraram insatisfeitas com a demora de Jesus em realizar o milagre; e ainda do cego que voltou a enxergar e agora lamenta a feiura do mundo.

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Stalin: uma biografia. Robert Service.
Trad. Cristina Cavalcanti • Record • 826 pp • R$ 149,90

O professor de história da Rússia em Oxford sustenta que Stálin foi, antes de mais nada, um continuador da obra de Lênin, e não um desvirtuador de suas ideias. Ele descreve nesta biografia a trajetória pessoal do político soviético e seu brutal programa de modernização, com a coletivização da agricultura, a industrialização acelerada do país e uma política de terror que dizimou a velha guarda do Partido Comunista no final dos anos 30. Sem essas medidas, acreditava ele, a União Soviética não conseguiria resistir às pressões do Ocidente. Service observa que, para o bem e para o mal, Stálin “deixou a União Soviética como uma potência mundial e um colosso industrial dotado de uma sociedade letrada”.

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História do tarô: um estudo completo sobre suas origens, iconografia e simbolismo. Isabelle Nadolny.
Pensamento/Cultrix • 296 pp • R$ 139,90

A historiadora parisiense Isabelle Nadolny expõe a história do tarô de modo objetivo e didático. Baseada em fontes primárias, com muitas ilustrações, ela explica as origens e a evolução do baralho desde a Antiguidade, analisando a simbologia dos naipes e das figuras e as interpretações clássicas com tarôs reproduzidos do acervo da Biblioteca Nacional da França (onde Nadolny trabalha) e de outras coleções públicas e privadas.   

Leia também: Editora alemã lança edição de luxo de baralho de tarô criado pelo pintor surrealista Salvador Dalí.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #54 em outubro de 2021.