Listão da Semana,

Joan Didion, a história dos psicodélicos e mais 5 lançamentos

Coleções de ensaios de três pensadores norte-americanos chegam nesta semana às livrarias brasileiras

21maio2021 - 04h00 | Edição #45

Fora de catálogo havia mais de trinta anos, O álbum branco reúne relatos do absurdo e da paranoia que marcaram os Estados Unidos nos anos 60 e 70 contados pela testemunha ocular Joan Didion, 86, pioneira do novo jornalismo. Alçada à fama com A cor púpura (1982), Alice Walker, 77, procura em Em busca dos jardins de nossas mães aqueles “soterrados provisoriamente pela empresa colonial racista patriarcal”, como define Rosane Borges no posfácio. Em Questão de raça, Cornel West, 67, discute o problema da barreira racial, segundo ele o grande mal do século 21, e nos convida a vislumbrar uma democracia multirracial.

Completam a seleção da semana um livro de conversas com Cézanne, o novo romance de Bernardo Carvalho, uma análise do humor na identidade judaica e a história das drogas psicodélicas.

Viva o livro brasileiro!

O álbum branco. Joan Didion.
Trad. Camila von Holdefer • HarperCollins • 256 pp. • R$ 49,90

Uma das pioneiras do novo jornalismo nos anos 60, Didion escreveu reportagens e romances que lhe renderam a Medalha Nacional das Artes, o National Book Award e o Prêmio Médicis, entre outras distinções. Publicado em 1979, O álbum branco constitui um mosaico da vida cotidiana na Califórnia na década de 70, no qual ela analisa o surgimento dos shopping centers, o movimento dos Panteras Negras, a realidade social de Hollywood e a curiosa coleção do Getty Museum, muito apreciado por pessoas que não gostavam de museus tradicionais. A HarperCollins está relançando também o grande best-seller de Didion, O ano do pensamento mágico (2005), um relato denso sobre a morte repentina do marido.

Leia também: Paulo Roberto Pires escreve sobre Rastejando até Belém (Todavia), livro de reportagens de Didion sobre a cultura americana dos anos 60

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Em busca dos jardins de nossas mães: prosa mulherista. Alice Walker.
Trad. Stephanie Borges • Posf. Rosane Borges • Bazar do Tempo • 376 pp. • R$ 69,90

A coletânea reúne ensaios, resenhas e conferências da escritora norte-americana produzidos entre 1966 e 1982 — ano em que publicou A cor púrpura, seu romance mais célebre, que lhe rendeu o National Book Award e o Prêmio Pulitzer de ficção (ela foi, aliás, a primeira mulher negra a receber esta premiação). Militante do movimento por direitos civis, Walker apresenta nesses artigos o neologismo “mulherismo”, referente ao feminismo negro, para explicitar suas reservas em relação ao movimento feminista dos anos 60, ainda impregnado de nuances racistas. Ela discute as diferenças entre os livros de autores brancos e negros, analisa obras de Zora Neale Hurston, Flannery O’Connnor e Jean Toomer, expõe as conquistas do Movimento por Direitos Civis e explica as origens de A cor púrpura.

Trecho do livro: “Em grande parte, os escritores americanos brancos tendiam a encerrar seus livros e as vidas de seus personagens como se não houvesse qualquer existência melhor pela qual lutar. A bruma da derrota é densa. Em comparação, escritores negros parecem estar sempre envolvidos em uma luta física e/ou moral, cujo resultado, espera-se, é um tipo mais amplo de liberdade. Talvez isso se deva ao fato de nossa tradição literária ser baseada em narrativas de escravizados, nas quais a fuga do corpo e a liberdade da alma caminhavam juntas, ou ao fato de as pessoas negras nunca terem se sentido culpadas por pecados globais, cósmicos”.

Leia também: Traduções de feministas negras apresentam vozes diversas e necessárias para compreender as lutas contemporâneas.

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Conversas com Cézanne. Michael Doran (org. e apres.).
Trad. Julia Vidile  • Posf. Paulo Pasta  • Editora 34  • 320 pp. • R$ 66

O pesquisador do Instituto Courtauld de Londres reuniu, comparou e comentou os principais relatos (retirados de cartas, artigos de jornal e ensaios) daqueles que conviveram com o pintor entre 1894 e 1906: Émile Bernard, Gustave Geffroy, Ambroise Vollard, Jules Borély e Maurice Denis, entre outros, que falam de sua maneira de viver, suas concepções sobre a arte e seu método de trabalho na pintura. Na segunda parte do livro, Doran reúne três textos (de Émile Bernard, Maurice Denis e Joachim Gasquet) que apresentam conversas com Cézanne construídas pelos autores a partir de fatos reais e comentários sobre encontros com o artista.

Trecho do posfácio, por Paulo Pasta: “O Cézanne que emerge destas conversas e testemunhos é a figura excepcional da pintura moderna, a um tempo sábio, resoluto e profundamente desconfiado de si e dos outros. ‘Sou o mais infeliz dos homens’, chega mesmo a declarar para Jules Borély. Talvez o teor dessa confissão se deva, sobretudo, à percepção de sua tarefa sem fim, da permanente dúvida que o acompanhava, e que seria, ela também, princípio formador da modernidade”.

Leia também: Em seu último livro, o crítico norte-americano Arthur Danto retraça os contornos de uma definição precisa para a arte.

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O último gozo do mundo: uma fábula. Bernardo Carvalho.
Companhia das Letras • 144 pp. • R$ 49,90

O décimo terceiro livro do escritor carioca (ganhador dos prêmios Jabuti, Portugal Telecom e APCA) narra a história de uma professora de sociologia cuja família se desintegra em meio à pandemia. Ela empreende então uma viagem com seu filho recém-nascido para consultar um homem que, após perder completamente a memória por causa do vírus, começou a prever o futuro.

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Questão de raça. Cornel West.
Trad. Laura Teixeira Motta • Companhia das Letras • 144 pp. • R$ 29,90

Nesta coletânea de ensaios, o filósofo americano, ex-professor de Yale e Harvard e professor emérito de Princeton discute as questões raciais nos Estados Unidos do século 21. Militante socialista, West critica os liberais, os conservadores e as próprias lideranças negras americanas e defende valores universais em uma sociedade tão fragmentada em diferentes comunidades. Analisa ainda o legado de Malcolm X, a falta de novas lideranças e a necessidade de ir além das políticas de ação afirmativa. Mas também ataca o novo conservadorismo negro e a omissão do movimento negro quando Clarence Thomas foi indicado para a Suprema Corte pelo presidente George W. Bush.

Trecho do livro: “O niilismo não é algo recente na América negra. O primeiro embate do africano com o Novo Mundo foi o encontro com uma forma característica do Absurdo. A luta inicial dos negros contra a degradação e a desvalorização em sua condição de escravizado no Novo Mundo consistiu, em parte, em uma luta contra o niilismo. De fato, o maior inimigo da sobrevivência do negro na América foi, e ainda é, não a opressão nem a exploração, mas a ameaça niilista — ou seja, a perda de esperança e a ausência de propósito. Isso porque, enquanto a esperança perdura e o significado da vida é preservado, a possibilidade de sobrepujar a opressão permanece viva. A ameaça niilista encerra uma profecia que se cumpre justamente porque foi feita: sem esperança não pode haver futuro; sem propósito não pode haver luta”.

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A piada judaica. Devorah Baum. 
Trad. Pedro Sette-Câmara •  Âyiné • 196 pp. • R$ 64,90

Professora de literatura inglesa na Universidade de Southampton, Baum examina muitas piadas judaicas (incluindo as de Woody Allen, Lena Dunham, Jerry Seinfeld e Sigmund Freud) para refletir sobre a natureza de seu humor peculiar: o que as distingue, como funcionam e por que são importantes para a identidade judaica. Veja-se este exemplo de Allen: “Mais do que em qualquer outro momento da história, a humanidade está numa encruzilhada. Um caminho leva à angústia e ao total desespero. O outro, à extinção completa. Oremos para que tenhamos a sabedoria de fazer a escolha certa”.

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Psiconautas: viagens com a ciência psicodélica brasileira. Marcelo Leite.
Pref. Sidarta Ribeiro • Fósforo • 264 pp. • R$ 69,90

Ganhador do Prêmio José Reis de Divulgação Científica, o colunista de Ciência do jornal Folha de S.Paulo narra a história das principais drogas psicodélicas (LSD, MDMA, ayahuasca) e descreve o esforço corajoso dos cientistas que colocaram em risco a própria carreira acadêmica para pesquisar o potencial terapêutico de substâncias polêmicas. É o caso de Humphry Osmond, que conduziu estudos pioneiros sobre o tratamento de dependentes de álcool por meio de LSD nos anos 50, e Robin Carhart‑Harris, líder de um estudo sobre o efeito da psilocibina no tratamento da depressão. Leite expõe as hipóteses sobre o modo como essas drogas atuam no cérebro, induzindo a formação de novas sinapses e rompendo circuitos mentais enrijecidos, favorecendo assim a aprendizagem.

Leia aqui a resenha do livro escrita por Carlos Minuano para a Quatro Cinco Um. Segundo ele, o setor dos psicodélicos deve crescer 20% ao ano na próxima década e movimentar em torno de US$ 100 bilhões até 2030.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #45 em abril de 2021.