Listão da Semana,

Direito à vagabundagem e mais 9 lançamentos

‘Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt’, organizado por Paula Carvalho (historiadora, jornalista e editora da Quatro Cinco Um), chega nesta semana às livrarias

24ago2022 - 13h43 | Edição #60

Uma jornalista e andarilha nascida na Europa se muda para a Argélia, adota vestimentas, hábitos e um nome masculino, mantendo ao mesmo tempo sua identidade feminina, converte-se ao Islã e escreve sobre a África a partir de um ponto de vista não colonialista. Isso no final do século 19. Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt, uma coletânea de textos dessa viajante que desafia fronteiras chega nesta semana às livrarias. Precedidos por um ensaio da organizadora do livro, Paula Carvalho (historiadora, jornalista e editora da Quatro Cinco Um), o livro conta sobre o exercício da liberdade como direito de transitar entre identidades de gênero, etnias e culturas. 

Completam a seleção da semana uma autobiografia quase alucinógena de Lourenço Mutarelli, o primeiro livro de poemas do historiador e escritor Luiz Antonio Simas, uma biografia de Milton Nascimento, o novo romance de Marcelo Rubens Paiva, um ensaio de Donna Haraway, o primeiro volume da trilogia de Elias Khoury sobre o êxodo dos palestinos no século 20, uma análise da política cultural conduzida por Mário de Andrade nos anos 30, um infantil de Katia Canton com receitas inspiradas em fábulas e um livro de contos de Edyr Augusto.

Viva o livro brasileiro!

Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt. Paula Carvalho (org.).
Trad. Mariana Delfini • Fósforo • 280 pp • R$ 74,90 

Coletânea de textos da escritora suíça que aos vinte anos viajou para a Argélia e, ao longo de sete anos, viveu como andarilha. Eberhardt perambulou pelo Magrebe, escrevendo textos para a imprensa francesa sobre o cotidiano e os costumes árabes do norte da África, com críticas agudas à dominação francesa. Trajando vestimentas de um estudante árabe e sob o nome de Sid Mahmoud Saadi, frequentava lugares destinados aos homens e se comportava como um. Mas ela também se casou com um soldado argelino e ainda mantinha o nome de Isabelle Eberhardt, vivendo como um homem e uma mulher ao mesmo tempo. Convertida ao Islã, morreu tragicamente em 1904.

Leia também: um ensaio de Paula Carvalho sobre a escritora Virginia Woolf, que se disfarçou de “príncipe abissínio” em 1910, e as fronteiras de raça e de gênero no início do século 20.

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O livro dos mortos: uma autobiografia hipnagógica. Lourenço Mutarelli. 
Companhia das Letras • 528 pp • R$ 99,90

O autor de O cheiro do ralo (2002), adaptado para o cinema por Heitor Dhalia em 2006, revisita suas memórias e escreve sua autobiografia baseado em seus quase-sonhos (ou sonhos inventados durante noites insones). Olivro foi escrito durante a pandemia e finalizado após Mutarelli sofrer um infarto. Em entrevista para a Quatro Cinco Um que será publicada na edição de setembro, o autor diz que o livro é "algo meio bêbado, de alguém que não dorme e está vivendo no limite" e, também, "quase um pedido de desculpas". 

Leia também: Coleção de quatro álbuns dos anos 90 mostra como Lourenço Mutarelli faz seus personagens dançarem em meio ao lixo paulistano.

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 25% de desconto no site da editora Companhia das Letras. Conheça o nosso clube de benefícios.

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Sonetos de birosca e poemas de terreiro. Luiz Antonio Simas.
José Olympio/Record • 120 pp • R$ 49,90

Primeiro livro de poemas do historiador e escritor carioca, ganhador do Jabuti com Dicionário da história social do samba (escrito em coautoria com Nei Lopes), de 2015, e que também escreve canções (compôs Tambor, o senhor da alegria com Marcelo D2 e fez músicas para Fabiana Cozza e Jéssica Ellen). Traz poemas em versos livres abordando diversos aspectos da vida popular dos subúrbios do Rio de Janeiro.

Leia também: Luiz Antonio Simas conta a história do Maracanã — que espelhou as ilusões e os conflitos do Rio de Janeiro — e a destruição da ideia de país que o inspirava.

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 30% de desconto no site da editora Record. Conheça o nosso clube de benefícios.

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Travessia: a vida de Milton Nascimento. Maria Dolores.
Record • 420 pp • R$ 69,90 

Biografia de um dos maiores compositores brasileiros, que completará 80 anos em outubro e, em novembro, vai concluir a última turnê de sua carreira (“A última sessão de música”). Jornalista e produtora musical, Maria Dolores entrevistou Milton e mais de sessenta personalidades (Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, os integrantes do Clube da Esquina, Danilo Caymmi, Ruy Guerra, Wayne Shorter, Herbie Hancock etc.) para compor um retrato do músico mineiro.

Leia também: Livro faz inventário completo de canções do compositor baiano Gilberto Gil e cria uma conversa aberta entre o artista e Carlos Rennó.

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 30% de desconto no site da editora Record. Conheça o nosso clube de benefícios.

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Do começo ao fim. Marcelo Rubens Paiva.
Alfaguara/Companhia das Letras • 192 pp • R$ 59,90

Autor do livro brasileiro mais vendido da década de 80, Feliz ano velho, lançado na coleção Cantadas Literárias, da Brasiliense, Paiva conta aqui a história de um narrador que viveu uma paixão intensa na universidade, mas sua garota decidiu deixá-lo. Ele se casou depois com outra mulher, separou-se, teve outro relacionamento mal sucedido, obteve sucesso como escritor e colunista, mas sentiu que sua vida entrou num marasmo. Ao receber uma carta de seu primeiro grande amor, anunciando a morte da mãe, ele se prepara para se reencontrar com seu passado.

Leia também: Quarenta anos da Cantadas Literárias, a coleção que fez a cabeça dos jovens leitores na década de 1980. 

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 25% de desconto no site da editora Companhia das Letras. Conheça o nosso clube de benefícios.

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Quando as espécies se encontram. Donna Haraway.
Trad. Juliana Fausto • Ubu • 416 pp • R$ 99

Professora emérita da Universidade da Califórnia, a filósofa e bióloga americana analisa as interações entre os humanos e os assim denominados animais domésticos, e propõe o conceito de “espécies companheiras” para entender como se processa a evolução dos seres que coabitam um espaço (como os homens, os cães, os gatos, os ratos, as moscas) e a possibilidade de uma ética interespécie capaz de nortear esse convívio. Convivendo com cães e um pai que usa muletas e cadeira de rodas, ela discute temas como biotecnologia e engenharia genética, domesticação e mercadorização de animais, indústria alimentícia e pandemias, natureza, cultura, feminismo e privilégios de raça e classe.  
 
Trecho do livro: “Animais humanos e não humanos são espécies companheiras, comensais, comendo juntas, quer saibamos ou não como comer bem. Muitos lemas incisivos podem nos incitar a aprender mais sobre como florescer conjuntamente na diferença sem o télos de uma paz final”.

Leia também: Três livros exploram a história da nossa coabitação com cachorros e primatas e o que as emoções dos animais revelam sobre nós.

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 20% de desconto no site da editora Ubu. Conheça o nosso clube de benefícios.

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Meu nome é Adam. Elias Khoury.
Trad. Safa Jubran • Tabla • 384 pp • R$ 89

Primeiro volume da trilogia Crianças do gueto, o romance conta a história de um intrigante vendedor de falafel que vive em Nova York, que pouco antes de morrer descobre a terrível verdade sobre seu nascimento e o que de fato ocorreu na Nakba (termo que designa a “catástrofe” de 1948, que marcou o êxodo dos palestinos da região onde foi fundado o Estado de Israel): o massacre, a expulsão dos moradores e o encurralamento das pessoas em guetos. Elias Khoury,considerado um dos maiores nomes da “vanguarda beirutense”, publicou quinze romances, traduzidos em diversos idiomas, quatro livros de crítica literária e escreveu três peças de teatro. 

Leia também: Em romance, a busca de informações sobre o assassinato de uma jovem beduína em 1949 é metáfora para tratar da ocupação da Palestina no presente.

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Administrar via cultura: revolução educativo-cultural na ex-Pauliceia Desvairada (1935-1938). Luiz Roberto Alves.
Alameda • 296 pp • R$ 68

O professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) analisa a política cultural praticada durante a gestão do prefeito Fábio Prado, que foi conduzida por Mário de Andrade com a ajuda de Sérgio Milliet, Paulo Duarte, Luiz Saia e Oneyda Alvarenga, com experiências inovadoras e democratizantes, como a criação de escolas infantis, da discoteca municipal e das bibliotecas circulantes.
 
Trecho do livro: “Mas vem cá, Oneyda, pense um bocado no que é, com a burocracia nacional, ter de instalar um Departamento de enorme complexidade, em que, a bem dizer não havia nada feito! São quatro divisões, comportando nove seções diferentes, uma de teatros e cinemas, outra de rádio-escola, outra de divertimentos públicos, outra de parques infantis, outra de esportes, outra de bibliotecas, outra de bibliotecas populares ambulantes e uma infantil, outras de documentação histórica, e outra de documentação social!”
(Carta de Mário de Andrade a Oneyda Alvarenga, em 6/7/1935)

Leia também: Em vez de se resignar, Darcy Ribeiro combateu como poucos a perversa realidade educacional brasileira, pensada por e para as elites.

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A cozinha curiosa das fábulas. Katia Canton.
Companhia das Letrinhas • 104 pp • R$ 69,90

A crítica de arte paulistana reúne catorze fábulas de Esopo, Bábrio, Fedro e La Fontaine (como A cigarra e a formiga, A raposa e as uvas, A galinha dos ovos de ouro, O corvo e a raposa etc.) e, para cada história, apresenta uma receita fácil, que toda criança pode preparar com a ajuda de um adulto. Entre as receitas estão pudim de leite, doce de uva com chocolate, torta salgada de liquidificador, carne assada com batatas e cenouras).


Ilustração de Katia Canton

Leia também: Nova edição de Esopo traz fábulas sobre animais, histórias protagonizadas por humanos e a primeira tradução integral de narrativa clássica sobre sua vida.

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Eu já morri: contos. Edyr Augusto.
Boitempo • 96 pp • R$ 43

O oitavo livro do escritor e dramaturgo paraense, traz dezessete narrativas curtas que retratam moradores de rua, prostitutas, viciados, DJs da periferia e outras figuras humildes de Belém. Augusto ganhou em 2015 o prêmio Caméléon, da Universidade de Lyon, de melhor romance estrangeiro pela tradução francesa de Os éguas (1998). O autor tem outros dois romances (Moscow, de 2001, e Casa de caba, de 2004) vertidos para o francês. Casa de caba também ganhou uma edição inglesa, em 2007, e alguns de seus contos já saíram no Peru e no México.

Leia também: Contos lançam luz sobre figuras intoleráveis para um Brasil fincado num imaginário colonial e temperado no horror.

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 20% de desconto no site da editora Boitempo. Conheça o nosso clube de benefícios.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.