Listão da Semana,

Cem anos de Edgar Morin e mais 5 lançamentos

Dois grandes intelectuais dividem memórias e reflexões sobre as últimas décadas

01out2021 - 08h18 | Edição #49

Em lúcida quarta idade, dois grandes intelectuais dividem memórias e reflexões sobre as últimas décadas em livros que chegam nesta semana às livrarias brasileiras. Com recém-completados cem anos, o francês Edgar Morin revê sua trajetória intelectual e os fatos históricos que a acompanharam e reflete sobre seus erros e acertos. Em tom mais íntimo, aos noventa anos, o brasileiro Boris Fausto parte da morte do irmão, o filósofo Ruy Fausto, para pensar a vida, a morte e as relações familiares. São, ambos, relatos inestimáveis de quem tem muito a dizer e sabe bem como fazê-lo.

Completam a seleção da semana ponderações sobre o que diriam os animais se fizéssemos as perguntas certas, um romance epistolar de Natalia Ginzburg, ensaios de Marguerite Duras sobre o ofício da escrita e reflexões sobre a Divina comédia de Dante, poeta que nos deixou há setecentos anos.

Viva o livro brasileiro!

Lições de um século de vida. Edgar Morin.
Trad. Ivone Benedetti • Bertand/Grupo Record • 98 pp. • R$ 39,90

O sociólogo francês, que completou cem anos em julho, revê sua trajetória: fala dos pais imigrantes, judeus sefarditas vindos de Salônica; do aprendizado das línguas; da formação humanista; dos preconceitos enfrentados durante o regime de Vichy; do envolvimento na Resistência Francesa e de seu itinerário intelectual. Observa, também, seus erros, como o pacifismo que o impediu de ver a verdadeira natureza do nazismo antes da Segunda Guerra Mundial e sua longa crença no sistema soviético. “Eu me arrependo de meus erros e não me arrependo deles, pois eles me deram a experiência de viver em um universo de religiosos absolutistas que, como qualquer religião, tiveram seus santos, mártires e algozes”, escreve. Morin é autor de dezenas livros, entre eles a hexalogia O método.

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Vida, morte e outros detalhes. Boris Fausto.
Companhia das Letras • 200 pp. • R$ 64,90

Em seu livro de memórias, o historiador paulista, autor de A Revolução de 1930 (1969), traz recordações da infância e da maturidade ao lado de seus dois irmãos, o filósofo Ruy Fausto (que morreu em maio do ano passado) e o patologista Nelson Fausto. Escrito após a perda de Ruy, o livro divide-se em três partes — “A tribo”, “Vida” e “Morte e imortalidade” — e é repleto de reflexões sobre o cotidiano, as relações familiares e a finitude. Ponderações políticas cirúrgicas não ficam de fora: “O cientista político Jairo Nicolau publicou em 2020 um livro com o título de O Brasil dobrou à direita. Fico pensando. Quando ele poderá aproveitar esse título num outro livro, tirando apenas a crase?”.

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Escrever. Marguerite Duras.
Trad. Luciene Guimarães de Oliveira • Pref. Julie Beaulieu • Relicário • 148 pp. • R$ 55,90

O primeiro lançamento da coleção da editora Relicário dedicada à obra de Marguerite Duras (1914-96) reúne cinco ensaios sobre o ato de escrever, em que a autora fala sobre a solidão e as angústias que acompanham a criação literária. Em sua resenha sobre o livro, que será publicada na Quatro Cinco Um de outubro, a crítica literária Iara Machado Pinheiro observa: “A toada dos textos de Escrever é ritmada pela descontinuidade e encadeada por uma fluência misteriosa, como se um enigmático ímã ligasse os fragmentos. A sensação é de ser tragado por uma onda, ao mesmo tempo sutil e agressiva”. 

Trecho do livro: “Se eu não tivesse escrito, teria me tornado uma alcoólatra incurável. É um estado prático esse de ficar perdido sem poder mais escrever… É aí que se bebe. Do momento em que  estamos perdidos e que, portanto, não há mais nada a escrever, nada a perder, escrevemos. Enquanto o livro estiver presente, gritando e exigindo ser escrito, escrevemos. Somos obrigados a ficar ao seu dispor. É impossível deixar um livro de lado até que ele esteja de fato escrito – ou seja: sozinho e livre de você, que o escreveu”.

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O que diriam os animais? Vinciane Despret.
Trad. Letícia Mei • Pref. Bruno Latour • Ils. João Loureiro • Ubu • 320 pp. • R$ 69,90

Vacas que meditam, porcos que mentem, elefantes que pintam autorretratos: todos estão no livro de Vinciane Despret. A filósofa com formação em psicologia clínica adverte que os atuais estudos científicos sobre os animais descartam as situações de interação natural dos bichos com os seres humanos e se baseiam em experiências de laboratório conduzidas em situações altamente artificiais. Assim, para entender o que realmente dizem os animais, convém mobilizar também os conhecimentos das humanidades. A partir de 26 perguntas — e analisando histórias reais curiosas —, a pensadora belga mostra que os animais têm senso de humor, inteligência e perspicácia e parecem ter prazer em criar situações que surpreendem os especialistas mais eruditos.

Leia também: Três livros exploram a história da nossa coabitação com cachorros e primatas e o que as emoções dos animais revelam sobre nós.

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Caro Michele. Natalia Ginzburg.
Trad. Homero Freitas de Andrade • Posf. Vilma Arêas • Companhia das Letras • 200 pp. • R$ 54,90

O romance epistolar publicado em 1973 está centrado na figura de Michele, um jovem que é forçado a viajar às pressas para Londres por razões políticas e passa a receber cartas dos familiares e a mostrar o impacto da violência política nos relacionamentos afetivos. A narrativa melancólica tem como pano de fundo a decadência de uma família pequeno-burguesa numa época em que a Itália assistia à ascensão da extrema direita. Trata-se de uma das principais obras da escritora italiana Natalia Ginzburg (1916-91), grande amiga de Cesare Pavese e Italo Calvino e mãe do historiador Carlo Ginzburg.

Leia também: Com sabedoria despretensiosa, ensaios de Natalia Ginzburg mostram como a alegria está misturada aos escombros.

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Nove cartas sobre a Divina comédia. Marco Lucchesi.
Bazar do Tempo • 200 pp. • R$ 86

No mês do sétimo centenário da morte de Dante Alighieri, a Bazar do Tempo publica uma edição revista e ampliada do texto em que Marco Lucchesi expõe os diversos temas e particularidades de A divina comédia em forma de cartas ao leitorPoeta, romancista e ensaísta, professor titular de literatura comparada na UFRJ e filho de italianos vindos da Toscana, Lucchesi ouvia os versos da magnum opus de Dante ainda na infância e dedicou-se a estudá-los na vida acadêmica (escreveu a tese de doutorado “O prefácio de Deus: a estruturação do empíreo dantesco”). O livro é recheado com sessenta ilustrações de grandes artistas que representaram a Divina comédia, como Sandro Botticelli, William Blake, Eugène Delacroix e Gustave Doré.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #49 em julho de 2021.