Listão da Semana,

A vida de Dante por seus biógrafos

Nos setecentos anos de sua morte, duas biografias do autor de ‘A divina comédia’ chegam às livrarias

08nov2021 - 15h01 | Edição #51

Considerado o pai da língua italiana, Dante Alighieri definiu em sua obra-prima o modo como o mundo ocidental enxerga e entende o inferno, o purgatório e o paraíso. Sua poesia foi chamada de divina (ou quase), mas sua vida foi cheia de atribulações bem mundanas: vergonha do pai, paixões juvenis, desafetos políticos. Nos setecentos anos de sua morte, duas biografias do autor de A divina comédia chegam às livrarias. Uma pelo olhar do historiador contemporâneo Alessandro Barbero, que apresenta grandes e pequenos fatos da vida do escritor. Outra pelo olhar apaixonado de seu admirador e conterrâneo Boccaccio, que escreveu sua biografia romanceada passados não mais do que trinta anos da morte Dante, em 1321.

Completam a seleção da semana uma biografia do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto por Ivan Marques, um romance de Astolfo Marques sobre a revolta contra a Proclamação da República em São Luis do Maranhão, uma história da longevidade, um manifesto em defesa dos oceanos e uma HQ sobre os conflitos entre uma empregada e sua patroa confinadas em um apartamento de luxo no Rio de Janeiro.

Viva o livro brasileiro!

Dante: a biografia. Alessandro Barbero.
Trad. Federico Carotti • Companhia das Letras • 432 pp • R$ 99,90

Ganhador do prestigioso prêmio Strega em 1996 com o romance histórico Boa vida e guerras alheias do fidalgo Mr. Pyle, o professor de história medieval da Universidade do Piemonte Oriental narra a trajetória do grande poeta italiano desde a infância, destacando aspectos menos conhecidos de sua vida, como o fato de seu pai, seguindo os passos de seus tios e avô, ter sido um usurário. A condição provavelmente envergonhava Dante, que não menciona o pai uma vez sequer em sua obra. A biografia conta também o envolvimento conturbado de Dante na política italiana, sua participação nas batalhas campais da época, o exílio, o confisco de seus bens e a composição de sua obra-prima. 

Trecho do livro: “Com base nos comentadores — pois Dante evita com muito cuidado mencionar o fato —, sabemos que ele é o pai da menina Beatriz, por quem Dante, também menino, se apaixonou perdidamente. É o próprio Dante que relata, na Vida nova, o encontro entre ambos. Ele estava para completar nove anos e ela acabava de completar oito: estamos, portanto, na primavera de 1274. Dizemos que ele ‘relata’, mas não é verdade, pois não apresenta nenhuma circunstância, a não ser que Beatriz usava um vestidinho vermelho-sangue e que ele se apaixonou por ela naquele mesmo instante”.

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Vida de Dante. Giovanni Boccaccio. 
Trad. e Intr. Pedro Falleiros Heise • Companhia das Letras • 104 pp • R$ 29,90

Escrita provavelmente entre 1351 e 1365 pelo autor do Decameron, grande admirador e divulgador da obra de Dante, é uma biografia romanceada da vida do poeta: descreve as origens de Florença e dos Alighieri, o nascimento de Dante, o encontro com Beatriz, seu envolvimento nas disputas políticas, as perseguições, suas andanças pela Itália e sua ida para Ravena, onde concluiu A Divina Comédia.  
 
Trecho do livro: “Ela ficou tão admirada, que seu sono foi interrompido. Pouco tempo passou até que chegasse o momento do parto, e deu à luz um filho que, com o consentimento do pai, foi chamado Dante: e merecidamente, pois de fato, como se verá prosseguindo, o efeito correspondeu ao nome. Este foi o Dante de que trata o presente discurso; este foi o Dante que aos nossos tempos foi concedido por especial graça de Deus; este foi o Dante que por primeiro deveria abrir às musas, banidas da Itália, a via do retorno. Por ele a dignidade do idioma florentino é demonstrada; por ele toda a beleza da língua vulgar é regulada com ritmos apropriados; por ele a poesia morta pode‑se dizer, merecidamente, ressuscitada: tudo isso, bem observado, demonstrará que ele não poderia ter tido, dignamente, nenhum outro nome que o de Dante”.

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A nova aurora: novela maranhense. Astolfo Marques.
Posf. Matheus Gato • Chão • 208 pp • R$ 58

O romance descreve a reação da população pobre de São Luís do Maranhão à Proclamação da República, um período marcado por muitas prisões arbitrárias, deportações, perseguições e torturas, além de assalto aos cofres públicos e corrupção. A época foi celebrizada pelo Massacre de 17 de Novembro na capital maranhense, no qual manifestantes majoritariamente negros que protestavam contra o golpe de Deodoro da Fonseca foram fuzilados pelos soldados. Descendente de escravizados, Astolfo Marques aprendeu a ler sozinho enquanto ajudava sua mãe lavadeira e tornou-se escritor, jornalista e tradutor. Foi um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras. Leia aqui o prefácio de Paulo Lins ao seu livro O Treze de Maio e outras estórias do pós-Abolição (Fósforo).

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Longevidade: uma breve história de como e por que vivemos mais. Steven Johnson.
Trad. Claudio Carina • Zahar/Companhia das Letras • 344 pp • R$ 69,90/39,90

No século 17, um homem britânico vivia em média pouco mais de trinta anos; hoje, ele vive cinquenta anos mais. Autor de Como chegamos até aqui (2014), o escritor americano analisa as transformações sociais e os avanços científicos que nos proporcionaram 20 mil dias de vida adicionais: quantos desses anos extras vieram de vacinas e antibióticos, da cloração da água e da pasteurização dos alimentos, do tratamento de esgotos ou das medidas para combater a fome?

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Eloquência da sardinha. Bill François.
Trad. Julia da Rosa Simões • Todavia • 160 pp • R$ 59,90

Neste manifesto em defesa dos oceanos, o físico e naturalista francês narra os segredos dos habitantes do fundo do mar: a musicalidade das baleias, a viagem dos salmões, o ruído intrigante dos arenques (que quase provocou uma guerra), a incrível organização das sardinhas, os cânticos das vieiras, a luz fluorescente das medusas, a descoberta da América pelo bacalhau. 

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Confinada. Leandro Assis e Triscila Oliveira.
Todavia • 128 pp • R$ 74,90/49,90

HQ centrada no tenso relacionamento de Fran, uma influenciadora digital com milhões de seguidores, com Ju, a única de suas empregadas que aceitou atravessar a quarentena no caríssimo apartamento em São Conrado (de frente para o mar) pertencente à sua patroa, que a submete a várias humilhações e vai se revelando bem mais cruel e preconceituosa do que ela imaginava.  

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João Cabral de Melo Neto: uma biografia. Ivan Marques.
Todavia • 560 pp • R$ 109,90/59,90 

Professor de literatura brasileira na USP e autor de livros sobre Carlos Drummond de Andrade e Graciliano Ramos, Marques conta a vida do poeta pernambucano desde a sua infância, destacando traços menos conhecidos, como suas posições políticas (definia-se como “materialista-ateu-marxista-leninista-comunista-stalinista”), seu amor pela tipografia, sua participação na vanguarda literária catalã  de oposição ao franquismo na época em foi diplomata na Espanha, sua obsessão pela pontualidade e os tratamentos a que se submeteu para tratar uma enxaqueca. Leia também uma resenha de José Almino sobre a fotobiografia de João Cabral, organizada por Eucanaã Ferraz e Valeria Lamego, e a análise de Marise Hansen sobre a presença da morte na sua obra poética.

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Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #51 em setembro de 2021.