Listão da Semana,

A primeira poeta da humanidade e mais 6 lançamentos

A primeira expressão literária registrada na história da humanidade é política — e tem autoria feminina

04maio2022 - 17h18 | Edição #58

A primeira expressão literária registrada na história da humanidade é política — e tem autoria feminina. Há 4 mil anos, Enheduana, princesa e sacerdotisa de um império mesopotâmico que se destacou como intelectual e líder religiosa, escreveu duas poesias sobre as sobre tensões político-religiosas de sua época e também sobre o próprio fazer poético. Agora, seus escritos chegam às livrarias brasileiras em uma bela tradução do poeta Guilherme Gontijo Flores.

Completam a seleção da semana o novo romance de Eliana Alves Cruz, sobre as sobrevidas da escravidão colonial; a única peça escrita por Gabriel García Márquez, traduzida para o português pela primeira vez; um romance de Alba de Céspedes, uma das maiores influências de Elena Ferrante; os escritos de Blaise Cendrars sobre o Brasil; as teorias de Fernando Haddad sobre a emancipação humana a partir da biologia, da linguística e da antropologia; e o romance de estreia da alemã Katharina Volckmer.

Viva o livro brasileiro!

Inana: antes da poesia ser palavra era mulher. Enheduana
Trad. Guilherme Gontijo Flores e Adriano Scandolara • Pref. Katia Maria Paim Pozzer • Sobinfluência Edições • 132 pp • R$ 60 

Poeta e sacerdotisa do Império Acadiano, Enheduana viveu provavelmente entre 2285 e 2250 a.C. Seu poema “A exaltação de Inana” é a primeira obra assinada de que temos notícia na história. Enheduana não é apenas a primeira poeta mulher da história, mas a primeira pessoa, de qualquer gênero, em qualquer tempo, que escreveu o que chamamos de literatura e deixou sua marca para a posteridade. Em edição bilíngue, o poema não contém apenas uma exaltação à divindade Inana/Ishtar, mas retrata as tensões político-religiosas da época e reflete sobre o fazer poético. O presente volume inclui ainda o poema sumério A descida de Inana ao mundo dos mortos, de autor anônimo, sobre a morte e a ressurreição da deusa. 

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Solitária. Eliana Alves Cruz.
Companhia das Letras• 168 pp • R$ 54,90

Autora de Água de barrela (Malê, 2016), Eliana Alves Cruz conta a história de uma funcionária doméstica e de sua filha, ambas negras, que moram no luxuoso apartamento de cobertura dos patrões, enfrentando uma rotina diária de pequenas humilhações. A escritora carioca relaciona as sobrevidas da escravidão colonial a questões contemporâneas como a pandemia e o debate sobre ações afirmativas.

Leia também: Em romance de Eliana Alves Cruz, os corpos reprimidos, adoecidos e normatizados do Brasil do século 18 ecoam os de hoje.

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Diatribe de amor contra um homem sentado. Gabriel García Márquez.
Trad. Ivone Benedetti • Record • 96 pp • R$ 54,90

Publicada em 1987 e até agora inédita no Brasil, Diatribe de amor contra um homem sentado é a única peça escrita pelo escritor colombiano Gabriel García Márquez. Trata-se de um monólogo em um ato de uma mulher prestes a completar 25 anos de casada que faz um desabafo frustrado sobre a felicidade pública e a infelicidade íntima: “Nada se parece tanto com o inferno como um casamento feliz!”. 

Leia tambémUm trecho da biografia do escritor colombiano.

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Diário de bordo. Blaise Cendrars. 
Trad. Samuel Titan Jr. •  Editora 34 • 208 pp •  R$ 65

A convite de Oswald de Andrade e de Paulo Prado, Blaise Cendrars decidiu visitar o Brasil em 1924, momento em que estava muito abalado pelo fracasso de seu projeto cinematográfico La Vénus noire, filme hoje perdido. No livro, um conjunto de poemas sobre sua viagem ao Brasil, descreve os lugares por onde passou a bordo do navio Formose desde Le Havre, na França, até Santos, além de sua estadia em São Paulo e sua volta à França. De um lirismo despojado, Diário de bordo influenciou profundamente os modernistas paulistas.
 
Trecho do livro:
Minha bela inteligência
Já não andas ao meu lado
Perdi toda a inocência
Também não sou mais alado”.

Leia também: Mário de Andrade se transformou definitivamente em performer em suas viagens por Minas Gerais e Rio de Janeiro.

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O terceiro excluído. Fernando Haddad.
Zahar/Companhia das Letras • 288 pp • R$ 64,90

Em outubro de 2018, antes do primeiro turno da eleição presidencial, Fernando Haddad conversou em sua casa com o linguista Noam Chomsky — que estava visitando o Brasil — e o crítico literário Roberto Schwarz sobre política e linguística. A conversa o motivou a rediscutir as teorias sobre a emancipação humana a partir das recentes pesquisas sobre biologia, linguística e antropologia. Para Haddad, a teoria darwiniana da evolução não se aplica à cultura: a cultura não evolui, mas “revolui”. Com o verbo “revoluir”, ele pretende indicar que as mudanças culturais se dão em um processo contraditório, dialético. A passagem da biologia à cultura é um movimento transcendente, em que uma dimensão não nega a anterior: a origem da vida e o aparecimento da linguagem humana. Se a linguagem simbólica é de fato um resultado da evolução, ela produz contudo uma “outra natureza” que vai muito além da biológica.

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A consulta. Katharina Volckmer.
Trad. Angélica Freitas • Fósforo • 104 pp • R$ 54,90

No romance de estreia da escritora alemã Katharina Volckmer, que hoje vive na Inglaterra, uma jovem que está deitada, com as pernas voltadas para o alto, no consultório de um médico judeu narra detalhes de sua vida sexual e de seus desejos — em especial as lutas que trava com a própria identidade sexual, de gênero e nacional. Por meio de um monólogo verborrágico e neurótico, ela passa por temas como mães controladoras, fantasias sexuais com Hitler e as propriedades medicinais da cauda do esquilo.

Trecho do livro: “Ainda hoje, Dr. Seligman, para um alemão, um judeu vivo é um verdadeiro espetáculo, não fomos criados para isso. Só estávamos acostumados a ver judeus mortos ou miseráveis, que nos olhavam de um sem-fim de fotos acinzentadas, ou de algum lugar muito distante, no exílio, sem nunca sorrir, e nós em dívida eterna com eles. Nossa única forma de compensação foi transformar os judeus em criaturas mágicas que exalam pozinho mágico por todos os orifícios, com intelectos superiores, nomes curiosos e biografias infinitamente mais interessantes. Na nossa imaginação, um judeu nunca seria motorista de táxi, e no meu livro de teologia havia até uma página dedicada a judeus famosos”.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #58 em fevereiro de 2022.