Listão da Semana,

A metade faltante de Rilke e mais 7 lançamentos

Após 93 anos da publicação de ‘Cartas a um jovem poeta’, chegam às livrarias as cartas de Franz Kappus

04ago2022 - 17h05 | Edição #60

As cartas que Rainer Maria Rilke escreveu a um jovem tenente do exército quando este lhe enviou seus poemas para avaliação se tornaram um sucesso literário mundial — mas, até há pouco, metade dessa correspondência permanecia inédita. 93 anos após a publicação de Cartas a um jovem poeta, chegam às livrarias as cartas de Franz Kappus, que na introdução à primeira edição escreveu: “Quando um grande e único fala, os pequenos devem silenciar”.

A metade faltante do quebra-cabeça joga luz no laborioso trabalho de se tornar quem se quer ser. E, quase um século depois, os ensinamentos de Rilke continuam a tocar múltiplos destinatários: “O senhor olha para fora e é justamente isso que o senhor não deveria fazer agora. Ninguém pode aconselhá-lo e ajudá-lo, ninguém. Há apenas um meio. Olhe para dentro de si mesmo”.

Completam a seleção da semana coletâneas do japonês Tamiki Hara (contos) e da queniana Warsan Shire (poemas), um romance de Sérgio Rodrigues que situa no presente os espíritos de José de Alencar e Machado de Assis, uma análise de todas as canções de Caetano Veloso por Guilherme Wisnik, contos dos povos indígenas do Brasil, o novo romance de Manoela Sawitzki e o mito do Sete de Setembro pro Lilia M. Schwarcz, Lúcia K. Strump e Carlos L. Junior.

Viva o livro brasileiro!


 

Cartas a um jovem poeta. Rainer Maria Rilke e Franz Xaver Kappus.
Posf. Erich Unglaub • Trad. Claudia Dornbusch • Planeta • 208 pp • R$ 49,90

Além das célebres cartas de Rilke, publicadas pela primeira vez em 1929, a edição da Planeta traz também as respostas do jovem poeta, Franz Xaver Kappus, até então inéditas no Brasil. A correspondência entre os dois começou em 1903, quando Kappus procurou o já famoso escritor em busca de conselhos, e se estendeu até 1908. O livro inclui ainda quatro poemas de Kappus, um ensaio de Freud no qual relata um passeio em companhia de Rilke e posfácio do alemão Erich Unglaub.

Trecho do posfácio, por Erich Unglaub: “Parece plenamente compreensível que o autor berlinense esperto, numa distância de mais de vinte anos de suas próprias cartas juvenis, cujo caráter confessional é inegável, não quisesse vê-las publicadas. Para o leitor de hoje, a troca de correspondências que foi preservada na íntegra não revela tanto o lado privado do jovem oficial questionador da ponta Sul da Monarquia do Danúbio, mas as duas partes da troca de cartas em sua interação esclarecem agora com muito mais força os problemas da existência como poeta, que Kappus aborda muito diretamente e Rilke trata de modo muito refletido”.

Leia também: Livro pretende abranger a totalidade da correspondência de Clarice Lispector com quase trezentas cartas, algumas inéditas.

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Flores de verão. Tamiki Hara.
Trad. Jefferson José Teixeira • Tinta-da-China Brasil • 136 pp • R$ 55

Nessa coletânea de contos, o escritor japonês Tamiki Hara, que sobreviveu à bomba em Hiroshima, em 6 de agosto de 1945, descreve os dias angustiantes que precederam a explosão, sua fuga em meio a árvores arrancadas, esqueletos de prédios e pessoas agonizantes, o retorno à cidade em busca de parentes desaparecidos e suas reflexões “sobre coisas transcendentes”.

“Depois de 77 anos do desastre, em um mundo ameaçado pelo sempiterno inverno e aquecimento incendiário, à beira de catástrofes de variadas cepas (climática, sanitária, política, social, guerras), Flores de verão preserva seu aroma amargo, urgente e vigente, literariamente digno”, escreve Carlos Adriano ao resenhar o livro. Leia o texto na íntegra.

Leia também: Yoko Ogawa escreve sobre a explosão da bomba atômica em Hiroshima.

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Bendita seja a filha criada por uma voz em sua cabeça. Warsan Shire.
Trad. Laura Assis • Companhia das Letras • 152 pp •  R$ 59,90

Primeira coletânea de poemas da escritora Warsan Shire, nascida no Quênia, o livro retrata a trajetória de vida de uma jovem negra que cresceu num ambiente hostil e traz reflexões sobre identidade, diáspora, religião e cultura. Filha de pais somalis que fugiram da guerra civil em seu país, Shire cresceu em Londres e se mudou para Los Angeles em 2015. Ganhou os prêmios Brunel University African Poetry (2013) e Young Poet Laureate for London (2013) e participou do álbum Lemonade (2016) e do musical Black is King, ambos de Beyoncé.

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A vida futura. Sérgio Rodrigues. 
Companhia das Letras • 168 pp • R$ 64,90

Avisados de que seus livros seriam reescritos para que ganhassem mais leitores, suavizando expressões que poderiam ofender determinados grupos sociais, os espíritos de José de Alencar e Machado de Assis voltam ao Rio de Janeiro e acabam se envolvendo com milicianos e entrando em contato com debates identitários sobre grupos interseccionais, lugares de fala e epistemologia decolonial. Sérgio Rodrigues é autor de livros editados na França, em Portugal, na Espanha e nos Estados Unidos e recebeu o prêmio Portugal Telecom, atual Oceanos, com O drible (Companhia das Letras).

Leia também: 150 anos depois da publicação de seu primeiro romance, o quebra-cabeça legado por Machado de Assis continua a ser montado.

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Lançar mundos no mundo: Caetano Veloso e o Brasil. Guilherme Wisnik. 
Fósforo • 208 pp • R$ 69,90

Guilherme Wisnik analisa todas as canções de Caetano Veloso, entrelaçando seu itinerário artístico às suas relações com outros compositores nacionais e estrangeiros e ao contexto histórico que marcou a produção de seus discos, da ditadura militar ao governo Jair Bolsonaro. O livro é uma reedição revista e atualizada do ensaio Caetano Veloso, publicado em 2005.

Leia tambémCaetano Veloso resenha livro de textos sobre liberalismo, cultura e política.

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O sequestro da Independência: uma história da construção do mito do Sete de Setembro. Lilia Moritz Schwarcz, Lúcia Klück Stumpf e Carlos Lima Junior.
Companhia das Letras • 400 pp • R$ 99,90

A partir das representações imagéticas da Independência do Brasil, os autores analisam o processo de formação da nossa identidade nacional. Eles observam as primeiras pinturas sobre o evento — Proclamação da Independência (1844), do francês François-René Moreaux, e O Brado do Ipiranga (1888), de Pedro Américo —, as diversas releituras que o tema sofreu nas mãos de artistas ao longo do século 20 (José Antônio da Silva, Antonio Poteiro, Carybé, Daniel Lannes) e o sequestro das refigurações da Independência pela extrema direita de Jair Bolsonaro. 
 
Trecho do livro: “Independência ou morte! era novamente trazida de volta à cena pelos círculos no poder, dessa vez anunciando os festejos do Bicentenário. Partindo do suposto de que imagens são consumidas por associação e pela produção do afeto e da emoção, o governo Bolsonaro usou das canônicas telas da Independência (tanto a obra de François-René Moreaux como a de Pedro Américo) para se vincular, individualmente, à noção de emancipação. Tanto que, desde o início de seu mandato, o presidente apareceu em manifestações oficiais, em geral antidemocráticas, montado em seu cavalo e com a mão direita erguida”.

Ouça também: No podcast 451 MHz, Lilia Schwarcz e Isabel Lucas conversam sobre os duzentos anos da independência do Brasil, a Semana de 1922 e o que veem para o futuro do país.

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O casamento entre o céu e a terra: contos dos povos indígenas do Brasil. Leonardo Boff.
Apres. Daniel Munduruku • ILS. Daniela Ramos • Planeta • 240 pp • R$ 56,90

O livro reúne trinta contos de diversas etnias e um longo ensaio do teólogo Leonardo Boff sobre a contribuição desses povos para o Brasil e para o mundo, no qual sustenta que a liberdade é a essência da vida indígena e aponta o legado cultural e humanístico dessas populações na linguagem, na culinária, na medicina, na casa e no imaginário.
 
Trecho do livro: “Viemos de um projeto civilizacional que se estrutura ao redor do poder-dominação sobre os outros povos, as outras classes e a natureza. Esta sistemática agressão pode destruir a nós e à vida. Por isso, é urgente que aprendamos formas alternativas de relação para com a natureza. E os indígenas nos mostram o caminho”.

Ouça também: No podcast 451 MHz, Davi Kopenawa Yanomami fala sobre o garimpo e as políticas públicas predatórias na Amazônia.

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Vinco. Manoela Sawitzki.
Companhia das Letras • 256 pp • R$ 69,90

Autora do romance Suíte dama da noite (2009) e da peça teatral Calamidade (ganhadora do Prêmio Açorianos), a ficcionista e roteirista gaúcha Manoela Sawitzki descreve o doloroso processo de transição de gênero da adolescente Manu, caçula de uma família de classe média do Rio de Janeiro dos anos 90, que chega à conclusão de que a imagem que os outros têm a respeito dela não condiz com a sua natureza.

Leia também: Filósofo e escritor trans Paul B. Preciado relata suas experiências com testosterona e defende a liberdade individual nas questões de gênero.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.