Listão da Semana,

A influência das Américas na literatura e mais 10 lançamentos

Philippe Ollé-Laprune narra como autores europeus e norte-americanos foram influenciados pelos países latino-americanos

03nov2022 - 15h58 | Edição #63

Os casos de Hemingway no Floridita, bar de Havana onde batia recorde de consumo de daiquiris, e o encontro de Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral com Blaise Cendrars em Paris, onde lançam a ideia da visita do romancista ao Brasil, são algumas das histórias narradas em Américas, um sonho de escritores. No livro, que chega nesta semana às livrarias brasileiras, o francês Philippe Ollé-Laprune narra como autores europeus e norte-americanos foram influenciados pelos países latino-americanos no século 20, dando origem a obras memoráveis.

Completam a seleção da semana o novo romance de Carola Saavedra, uma antologia em prosa de Armando Freitas Filho, uma coletânea de poemas de Torquato Neto, um estudo de Contardo Calligaris sobre a perversão social e o novo livro de poemas de Edimilson de Almeida Pereira.

Viva o livro brasileiro!

Américas, um sonho de escritores. Philippe Ollé-Laprune.
Estação Liberdade • 336 pp • R$ 65

O editor francês Philippe Ollé-Laprune descreve as viagens de diversos escritores ocidentais à América Latina, narrando o gosto pela fuga, a sede de evasão, o desencanto com a cultura europeia e o exílio forçado face ao perigo totalitário na Europa. São inúmeros os motivos que levaram esses criadores da imaginação a visitar o Brasil (Blaise Cendrars, Stefan Zweig, Georges Bernanos), a Argentina (Witold Gombrowicz, Roger Caillois), Cuba (Ernest Hemingway, Robert Desnos) e o México (William S. Burroughs, Victor Serge, D. H. Lawrence, Malcolm Lowry, César Moro).

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O manto da noite. Carola Saavedra.
Companhia das Letras • 160 pp • R$ 64,90/37,90

Brasileira nascida no Chile, Carola Saavedra narra uma jornada introspectiva e onírica por uma América Latina marcada por invasões, massacres e lutas, na qual a Cordilheira dos Andes se converte em uma personagem que espelha as guerras e as feridas do continente, e mostra a farsa das identidades nacionais e a persistência da exploração colonial.
 
Trecho do livro: 

“Este é um continente de mortos, diz a Cordilheira, seu tom é tranquilo, como se aquilo não lhe importasse. Guerras? Sim, muitas guerras, no início é possível escutar os gritos, depois os gritos vão silenciando, cada vez mais baixo, até que só resta um murmúrio, o corpo e no final…”

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Só prosa. Armando Freitas Filho.
Companhia das Letras • 160 pp • R$ 64,90/37,90

Ganhador dos prêmios Jabuti, APCA e Rio, o poeta carioca Armando Freitas Filho — que estreou em 1963 com Palavra —, reúne em um só volume seus textos em prosa, incluindo alguns inéditos. Dividido em duas partes (“Eu” e “Eles”), o livro apresenta reflexões sobre seu primeiro contato com os livros, o ofício da escrita e poetas como Drummond, João Cabral, Ferreira Gullar e Ana Cristina Cesar.

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O fato e a coisa. Torquato Neto.
Círculo de Poemas • 152 pp • R$ a definir

O único livro organizado ainda em vida pelo compositor tropicalista Torquato Neto (1944-72), morto há cinquenta anos, reúne os versos feitos por ele dos dezesseis aos dezenove anos, além de uma seleção de outros poemas de sua juventude.
 
Trecho do livro:
“Impossível envergonhar-me de ser homem.
Tenho rins e eles me dizem que estou vivo.
Obedeço a meus pés 
e a ordem é seguir e não olhar à frente.
Minúsculo vivente entre rinocerontes
me reconheço falho
e insisto.
E insisto porque insistir é minha insígnia”.

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O grupo e o mal: estudo sobre a perversão social. Contardo Calligaris.
Trad. Jorge Bastos Cruz • Pref. Jurandir Freire Costa • Fósforo • 472 pp • R$ 89,90

Tese de doutorado defendida por Contardo Caligaris (1948-2021) em 1991 na Université de Provence Aix-Marseille I, o livro distingue perversão sexual de perversão social; analisa o modo como o sujeito se rende ao éthos da servidão voluntária, congenial ao autoritarismo/totalitarismo; e descreve o mal sob a forma da corrosão do caráter resultante da depredação do patrimônio cultural democrático. O autor expõe ainda as premissas socioculturais da tentação autoritário-totalitária. 
 
Trecho do livro:
“Um regime totalitário age como bem entende quando invade e organiza a esfera da vida privada, agrupando bebês vermelhos ou pretos, crianças vermelhas ou pretas, adolescentes vermelhos ou pretos, estudantes, trabalhadores, donas de casa etc. É preciso, resumindo, uma cena perfeita, em que o ator esqueça de atuar a ponto da sua vida se resumir à cena e o ideal se resumir ao roteiro. Isso implica também uma verdadeira política diante dos irredutíveis que não atuam na mesma peça. Transformando a metáfora em alegoria, pode-se dizer que é intolerável, para a cena, que se represente outra peça no teatro ao lado, assim como é intolerável que haja quem insista em não ir ao teatro”.

Ouça também: Episódio do podcast 451 MHz homenageia o psicanalista Contardo Calligaris (1948-2021).

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O som vertebrado. Edimilson de Almeida Pereira.
José Olympio/Record • 168 pp • R$ 59,90

Dedicado a Milton Nascimento, o novo livro de poemas de Edimilson de Almeida Pereira, ganhador dos prêmios São Paulo de Literatura e Oceanos, o escritor e ensaísta mineiro apresenta 45 poemas inéditos sobre a jornada de um sujeito contemporâneo em um mundo fragmentado e desencantado, que busca um sentido nas comunidades tradicionais. 

Leia também: Romance de por Edimilson de Almeida Pereira subverte a linguagem para recriar a tradição.

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+ novidades quentinhas

A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê. Ian Fraser.
Intrínseca • 304 pp • R$ 49,90/24,90

Numa galáxia distante vive Severino Olho de Dendê, um humano cujo melhor amigo é Bonfim, um alienígena malandro e falastrão. Os dois são chamados para investigar um assassinato suspeito ligado à organização que governa a galáxia.

Gente, isso é Londres. Hanan Al-Shaykh.
Trad. Jemima de Souza Alves • Tabla • 352 pp • R$ 83

Uma prostituta marroquina, uma iraquiana divorciada, um especialista inglês em arte islâmica e um libanês se conhecem em um voo de Dubai para Londres nesse romance que problematiza a conquista de direitos e liberdades individuais e reflete sobre questões de identidade e integração.

Tênebra: narrativas brasileiras de horror [1839-1899]. Org. Júlio França e Oscar Nestarez.
Fósforo • 456 pp • R$ 89,90

A coletânea reúne 27 narrativas de horror brasileiras em diversas vertentes, escritas por Aluísio Azevedo, Bernardo Guimarães, Cruz e Sousa, Fagundes Varela, Inglês de Sousa, Joaquim Manuel de Macedo, Júlia Lopes de Almeida, Machado de Assis e Olavo Bilac, entre outros. 

Um pé na cozinha: um olhar sócio-histórico para o trabalho de cozinheiras negras no Brasil. Taís de Sant’Anna Machado.
Fósforo • 400 pp • R$ 99,90• Pref. Lourence Alves

O livro analisa a história do trabalho culinário de mulheres negras no Brasil desde o século 18, expondo as relações de poder e violência que se estabeleceram entre patrões brancos e trabalhadoras negras, que permitiram a manutenção de um estilo de vida das classes médias e altas que mantêm cozinheiras negras trabalhando em condições precárias e mal remuneradas.

Você não é invisível. Lázaro Ramos.
Objetiva/Companhia das Letras • 112 pp • R$ 49,90/29,90

Lázaro Ramos conta a história de uma família em quarentena, em que dois irmãos bastante diferentes muitas vezes se sentem confusos e até mesmo invisíveis.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #63 em outubro de 2022.