Listão da Semana,

8 mil anos de Amazônia

Arqueólogo traz para o presente a vida de indivíduos que viveram na região amazônica há milhares de anos

26jul2022 - 15h13 | Edição #60

Nesta semana em que acontece o 10º Fórum Social Pan-Amazônico, reunindo em Belém os nove países amazônicos, chega às livrarias uma reconstituição dos últimos 8 mil anos de história da Amazônia central. Em Sob os tempos do equinócio, o arqueólogo Eduardo Góes Neves traz para o presente a vida de indivíduos que viveram na região há milhares de anos — e com os quais é fundamental aprender. É lançado também Uma história das florestas brasileiras, de Zé Pedro de Oliveira Costa, que faz um amplo panorama dos biomas brasileiros e ensina como preservá-los. Vivemos hoje um dos momentos mais críticos para o meio ambiente brasileiro, e deter sua devastação é urgente. Está neste campo também o tema da capa da Quatro Cinco Um de agosto, mas o spoiler acaba por aqui.

Completam a seleção da semana os novos contos de Margaret Atwood, poemas inéditos de Edimilson de Almeida Pereira, uma antologia sobre a resistência negra no Brasil, todas as letras de Caetano Veloso, o romance premiado de Vanessa Passos, uma pequena história das HQs e o legado desconhecido das mulheres que criaram a internet.

Viva o livro brasileiro!

Sob os tempos do equinócio: oito mil anos de história na Amazônia central. Eduardo Góes Neves.
Ubu • 224 pp. • R$ 69,90

Professor do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (USP), Eduardo Góes Neves reconstitui a história da ocupação humana da região amazônica até o início da conquista europeia, no século 16. O livro expõe os resultados de pesquisas recentes que comprovam, após a descoberta de cerâmicas datadas de 10 mil anos, a ocupação da Amazônia central por agrupamentos grandes e de duração considerável, que inclusive trocavam objetos com outras populações do continente, o que contraria o senso comum de que a região sempre foi ocupada por populações nômades isoladas.

Leia também: Mário de Andrade reforçou em Macunaíma o sentimento anti-indígena dos brasileiros, que quase um século depois persiste.

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 20% de desconto no site da editora Ubu. Conheça o nosso clube de benefícios.

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Uma história das florestas brasileiras. Zé Pedro de Oliveira Costa.
Autêntica • 320 pp • R$ 87,90

O primeiro secretário do Meio Ambiente do Estado de São Paulo faz um amplo panorama da evolução da vegetação dos diversos biomas brasileiros (florestas, cerrado, caatinga, campos, pantanal, zona costeira). Zé Pedro de Oliveira Costa mostra como a natureza era vista por indígenas, comunidades tradicionais, viajantes e literatos e como foi representada na pintura e na música. Ele expõe também as transformações provocadas pelos ciclos econômicos (pau-brasil, cana, gado, mineração, café e soja), as sucessivas leis sobre florestas e as medidas necessárias para preservá-las. Pesquisador do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (USP), o autor é um dos maiores responsáveis pela criação de áreas protegidas de grande dimensão do Brasil, tendo feito com que muitas integrem hoje a lista do Patrimônio Mundial Natural da UNESCO. O livro tem depoimentos de Drauzio Varella, Fernando Gabeira, Sonia Braga e Fabio Feldmann e capa de Sebastião Salgado.

Leia também: Pesquisa mostra como a derrubada da floresta era glorificada pela imprensa nas décadas de 70 e 80.

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 25% de desconto no site da editora Autêntica. Conheça o nosso clube de benefícios.

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Colchão de pedra: nove contos perversos. Margaret Atwood.
Trad. Maira Parula • Rocco • 304 pp • R$ 64,90

A nova coletânea de contos da autora de O conto da aia (1985) é inspirada na tradição gótica. A narrativa que dá título ao livro, um thriller de vingança que se passa em um cruzeiro de luxo que atravessa o Ártico, ganhará em breve uma adaptação cinematográfica com Julianne Moore e Sandra Oh como protagonistas, sob a direção de Lynne Ramsay. Os contos estão centrados em questões como a enfermidade e o envelhecimento, o amor e a luxúria, a perversidade e a morte.

Leia também: Continuação de O conto da Aia revela o mundo distópico de Gilead do ponto de vista de três personagens diferentes.

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A vida não funciona como um relógio: memórias do Homem Azul. Edimilson de Almeida Pereira.
Quelônio • 48 pp • R$ 56 

Ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura de 2021, o escritor mineiro Edimilson de Almeida Pereira reúne 21 poemas sobre as brincadeiras e o heroísmo da infância, as memórias de família e os afetos desencontrados. A edição da Quelônio tem uma tiragem numerada de quatroncentos exemplares, em tipografia tradicional e costura à mão.
 
Trecho do livro:
“Quando nasci, os gaturamos amadureciam.
E havia rumores em volta de mim.
Eu não sabia que eram mãe, avós, tias
e também vozes de um imprevisto jardim.
Quando nasci, o mundo estava pronto
mas não estava completo”.

Leia também: Contos infantojuvenis de Edimilson Pereira de Almeida revelam histórias do universo africano presentes no imaginário brasileiro.

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Arruda e guiné: resistência negra no Brasil contemporâneo. Bianca Santana. 
Pref. Edson Lopes Cardoso • Fósforo • 200 pp • R$ 62,90

A antologia reúne artigos escritos entre 2017 e 2022 nos quais a jornalista Bianca Santana examina a resistência negra brasileira. Ela discute o racismo estrutural no país, a resistência dos negros e das mulheres ao governo Bolsonaro, a polêmica em torno da aprovação da PEC das Domésticas, as iniciativas empresariais para romper o pacto da branquitude, a necessidade de um pacto coletivo para salvar o meio ambiente, os impactos da pandemia da Covid-19 e a necessidade de revelar os mandantes do assassinato de Marielle Franco.
 
Trecho do livro: “Com a aprovação da PEC das Domésticas, as páginas da imprensa foram inundadas por um discurso colonial e escravocrata que parecia com os anos anteriores a 1888: se minha empregada doméstica tiver jornada de trabalho regulamentada como outros trabalhadores, quem vai dar café da manhã para as crianças às 7h da manhã e jantar para os adultos às 21h? Se a criança passar mal de madrugada, quem vai limpar o vômito? Pobre em avião, médico negro comunista e agora empregada doméstica com direitos trabalhistas? Para a classe média que se sente elite, aquilo tinha passado o limite aceitável. Um bueiro foi aberto e dele saiu todo tipo de manifestação racista e de ódio de classe”.

Leia também: Ensaio do economista e professor Mário Theodoro coloca as questões raciais no centro do debate sobre o desenvolvimento social brasileiro.

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Letras. Caetano Veloso.
Org. Eucanaã Ferraz • Companhia das Letras • 512 pp • R$ 129,90

O volume reúne todas as canções escritas pelo compositor baiano Caetano Veloso, que completa oitenta anos em 2022, desde seu primeiro compacto simples, lançado em 1965, até Meu coco, de 2021. Embora os versos de seus cerca de quarenta álbuns tenham sido escritos para ser cantados, eles constituem verdadeiros poemas que merecem ser lidos com atenção.

Leia também: Caetano Veloso resenha livro de textos sobre liberalismo, cultura e política.

Assinantes da Quatro Cinco Um têm 25% de desconto no site da editora Companhia das Letras. Conheça o nosso clube de benefícios.

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A filha primitiva. Vanessa Passos.
Posf. Natalia Timerman • José Olympio • 176 pp • R$ 44,90

Vencedor do prêmio Kindle de Literatura, concorrendo com mais de 2.400 outros textos, o romance de Vanessa Passos é ambientado em Fortaleza e descreve uma linhagem de mulheres marcadas pela dor, pelo abandono e pela fé. Passos reflete sobre a ideia romantizada da maternidade, a violência contra a mulher e o racismo cotidiano.
 
Trecho do livro: “Já era tempo de parar de mamar, mas a menina continuava agarrada ao peito. No fundo eu gostava, porque era o único momento em que eu me sentia mãe de verdade. A menina sugando de mim a mãe que eu não era”.

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HQ: uma pequena história dos quadrinhos para uso das novas gerações. Rogério de Campos.
Veneta • 160 pp  • R$ 54,90

As origens e as transformações da linguagem dos quadrinhos é descrita neste livro, desde os contadores das sagas ilustradas do século 5º antes da era Cristã. Rogério de Campos, diretor editorial da Veneta, aponta as contribuições dos sacerdotes indianos, as técnicas pioneiras dos chineses para produzir e imprimir o papel, as grandes inovações do suíço Rodolphe Töpffer no século 19, a ascensão e a queda dos super-heróis americanos, a geração gekigá de Tatsumi e Tsuge e as contribuições de italianos, argentinos e franceses. 

Leia também: Livro com mais de quatrocentas ilustrações conta a história de mil anos do mangá.

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A história desconhecida das mulheres que criaram a internet. Claire L Evans. 
Trad. Giu Alonso • Record • 308 pp • R$ 59,90/41,90

Editora fundadora da Terraform, segmento de ficção científica da VICE, Claire Evans apresenta as contribuições das mulheres que estiveram por trás da invenção da internet. Entre elas, Ada Lovelace, que criou o primeiro programa de computador na era Vitoriana (cem anos antes da construção do primeiro computador), Grace Hopper, cientista da computação que programou o Harvard Mark I, computador gigante usado no final da Segunda Guerra Mundial, e Elizabeth Feinler, que gerenciou o registro de nomes de domínio de 1972 a 1989. 

Leia também: Apresentar mulheres pioneiras é um modo de revolucionar o imaginário social.

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.