Bibliofilia,

Como escritores organizam suas bibliotecas

Inspirados no lançamento do crítico italiano Roberto Calasso, perguntamos a autores como ordenam seus livros

09mar2023 - 13h28 | Edição #67

Neste mês, chega às livrarias brasileiras Como organizar a biblioteca, coleção de ensaios do crítico, editor e erudito italiano Roberto Calasso (1941-2021), que foi resenhada pelo escritor Sérgio Rodrigues na Quatro Cinco Um. Aqueles que acham que encontrarão um manual à la Marie Kondo para as estantes estão enganados. “A coleção está mais para autoatrapalhação — no melhor sentido da palavra. O ‘tema altamente metafísico’ (palavras do autor) pode deixar o leitor tão perplexo quanto sempre esteve na hora de distribuir seus livros nas prateleiras, mas o ajudará a situá-los na rica paisagem mental desenhada pela história pessoal e coletiva da leitura”, escreve Rodrigues.

Ainda assim, para leitores onívoros, além do que uma pessoa tem na estante — afinal, você é o que você lê —, fica a questão: como ordenar esses são livros? Para sanar parte da curiosidade, pedimos que alguns escritores compartilhassem algumas palavras e fotos de suas bibliotecas. Confira abaixo.

Estantes célebres

Aline Bei

a prateleira que fica mais perto do meu rosto 
guarda os Livros que toco constantemente 
e de tanto tocá-los  
sinto que as folhas vão ganhando
caimento, então: na prateleira mais perto do meu rosto 
estão as minhas camisas, meus ternos
na segunda meus sapatos
e na terceira todas 
as perucas, as 
maquilagens, eu 
largamente vestida 
me vestindo para andar com o que sou do que li 

e talvez eu organize 
prateleiras enquanto canto

a coitada
da minha nudez, larilá, larilá.

PS: minhas prateleiras 
vez em quando também são 
um abajur na dor de nunca 
ter tudo dentro.


Biblioteca da autora Aline Bei [Acervo pessoal]

Aparecida Vilaça

Em minha biblioteca, guardo os livros de antropologia separados daqueles de literatura. No caso dos livros de antropologia, separo-os entre teóricos – que classifico pelo sobrenome do autor – e etnográficos – que classifico de acordo com a região etnográfica e povo: povos de língua Jê ficam juntos na seção do Brasil Central, por exemplo.

Os livros de literatura são mais desorganizados. Os livros de um mesmo autor estão agrupados, mas não há outra ordem. Livros novos, de autores que leio pela primeira vez, depois de passarem um tempo em uma pilha de livros no chão ao lado da minha cama, ocupam os eventuais lugares vagos nas estantes da biblioteca. Mas tudo depende do meu interesse. Atualmente tenho uma estante para livros de autoria japonesa, onde os livros estão agrupados por autores, o que de algum modo acompanha a minha tendência em classificar os livros por regiões geográficas ou culturais. Isso indica também que os considero não somente leitura de lazer, mas de trabalho.


Biblioteca da autora Aparecida Vilaça [Acervo pessoal]

Carola Saavedra

Como eu me mudei de cidade e de país muitas vezes na vida, minha biblioteca foi se desmembrando por aí. Livros que ficaram na casa de amigos, livros perdidos que eu não sei onde foram parar, livros guardados num box no Rio de Janeiro, esperando um destino que nunca vem. Há por isso duas bibliotecas: a biblioteca dos livros ausentes (de tempos em tempos ela me volta à memória, numa mistura de carinho e melancolia) e a biblioteca que foi se formando desde que vim morar na Alemanha há quatro anos. Sua organização é mais afetiva do que estrutural: nas prateleiras à altura dos olhos estão os livros que mais uso, no momento os relativos à temática indígena e à psicanálise (mas não só); depois, nas prateleiras seguintes vêm os romances que pretendo ler. Há também a prateleira dos romances já lidos, a dos livros de não-ficção (relativos a literatura, cinema, antropoceno, pós-humanismo, questões de gênero, feminismos, neurociência etc.) e a de “assuntos aleatórios”: saúde, cuidado com plantas, zen-budismo, ioga etc. Nas prateleiras inferiores estão os livros de arte.


Biblioteca de Carola Saavedra [Acervo pessoal]
 

Daniel Galera

Essa estante fica na sala e abriga a maior parte dos livros, embora haja outras estantes menores em outros espaços, bem como pilhas de livros espalhadas. Convivem nelas livros meus e da Taís, minha esposa, e a organização segue critérios variados: gêneros, hábitos de leitura, a história e os afetos em torno de cada volume. Há alguns nichos: ficção brasileira, estrangeiros, não ficção, teoria, livros de arte. Dentro deles, cantinhos para russos, contemporâneos, biologia, ciências sociais e outras subdivisões porosas. Mas o critério pode ser também a história de cada livro ou a maneira como convivem juntos. Pensamos nela como uma estante viva, uma espécie de altar que cultiva o que já foi lido e instiga as próximas leituras. 


Biblioteca de Daniel Galera [Acervo pessoal]

O Butiá se deitou ali por iniciativa própria na hora do clique, bem espontâneo, não foi montado. Gosta de aparecer.

Djaimilia Pereira de Almeida

Costumava ter os livros arrumados por ordem alfabética do apelido dos autores, mas agora o único método é o caos. Os meus livros preferidos estão numa estante à parte, porque servem como amuleto. Vagamente arrumados, só temos alguns dos fotolivros, que abaulam as estantes.


Biblioteca de Djaimilia Pereira [Acervo pessoal]

Edimilson de Almeida Pereira

Ao longo dos anos, aprendi a não ter uma biblioteca pessoal. Antes de entrar para a faculdade de Letras, meus livros se misturavam aos dos meus irmãos, aos cadernos de receita de minha mãe e aos blocos de anotações da Lavanderia Guanabara aberta pelo meu pai. Durante a graduação, ingressei num projeto de antropologia social que abordava as culturas populares rurais. Desta vez, meus livros se mesclaram ao acervo deste projeto. Nos anos seguintes, os livros que me acompanham juntaram-se aos de minha companheira e aos de nossa filha. Atualmente, moramos numa biblioteca familiar. De acordo com as leituras que fazemos e com os movimentos de saída e chegada, os livros se agrupam em ilhas por assuntos, formas, ruídos. Alguns se soltam e encontram os seus próprios lugares na casa.


Biblioteca de Edimilson de Almeida Pereira [Acervo pessoal]

Jeferson Tenório

Não tenho uma organização prévia. Ou talvez seja uma organização um pouco caótica, pois os livros estão dispostos de maneira aleatória. Tenho uma boa memória das prateleiras, então quando quero encontrar um determinado livro eu sei onde está, mesmo nessa falta de organização. 


Biblioteca de Jeferson Tenório [Acervo pessoal]

Milton Hatoum

"Na sala deserta o silencioso/livro viaja no tempo", escreveu Jorge Luis Borges no belo poema "Ariosto e os árabes". Talvez não haja um lugar tão civilizado como uma biblioteca, lugar de todos os tempos e espaços, frequentados em silêncio. Certa vez sonhei com o o sumiço da biblioteca da casa da minha juventude manauara. Era uma biblioteca modesta, mas abrigava alguns livros que foram essenciais para minha formação de leitor. Depois desse sonho, eu me lembrei que aqueles livros não estavam arrumados por ordem alfabética (de autores ou títulos).  Mas eu sabia onde encontrar um livro que queria ler ou reler. 


Biblioteca do autor Milton Hatoum [Acervo pessoal]

A casa da juventude foi demolida há muito tempo, mas aqueles livros – contrariando o pesadelo – sobreviveram. A biblioteca cresceu, mas a desordem persiste. Os livros de poesia – brasileira  e estrangeira – estão sempre juntos. Ainda separo em pequenas estantes alguns dos romances que mais aprecio. Às vezes, quando demoro para encontrar um volume, acabo por descobrir outro, igualmente relevante. Nesse jogo não há vencedores. No fundo, por maior que seja uma biblioteca particular, o(a) leitor (a) sabe que aquele espaço silencioso é o mapa e a bússola da alma.

Matéria publicada na edição impressa #67 em fevereiro de 2023.