A Feira do Livro,

Uma mediação no início do caminho

Em conversa sobre literatura infantil, Bel Santos Mayer e Marcelo Maluf traçam os caminhos para mediações mais inclusivas

08jun2023 - 09h31 | Edição #70

Na quinta (8), no Auditório Armando Nogueira, os escritores Marcelo Maluf e Bel Santos Mayer – educadora ligada ao IBEAC e à Rede LiteraSampa – conversaram com o professor João Luís Ceccantini, da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp, sobre o tema arte e educação na literatura infantil. 

Os convidados falaram sobre as diversas possibilidades de mediação que visam promover o acesso à literatura infantil no país, incluindo as experiências de Bel com as bibliotecas comunitárias de Parelheiros, a atuação das bibliotecas públicas da cidade e o papel das escolas na contação de histórias para as crianças. É nessas mediações em grupo, realizadas por educadores e jovens que também foram impactados pelo poder da leitura, que os convidados dizem ter encontrado os melhores trajetos para a longa caminhada que a educação literária infantil ainda precisa trilhar no Brasil.

“A ideia de um evento e de uma feira literária deve comportar uma grade como essa, em que a literatura infantil é vista e, antes de tudo, reconhecida como literatura. Como escritor de livros para adultos e para as infâncias, muitas vezes é dado um tratamento maior para o autor de literatura adulta”, diz Marcelo Maluf. “O Brasil tem um cenário e uma produção literária para a infância com autores incríveis. Então, por que não dar a mesma importância?”.

Segundo Ceccantini, a discussão é antiga, mas tampouco está perto de ser superada. Ele acrescenta que, se a literatura infantojuvenil não for considerada essencial para a aprendizagem, é possível que os primeiros contatos de crianças e jovens com livros se dê apenas mais tarde e por meio da literatura para adultos, vinda da leitura dos clássicos brasileiros e em língua portuguesa.

Os convidados também conversaram sobre os bons livros infantis e mostraram certa preocupação com relação àqueles que buscam, em suma, ensinar alguma lição ou moral às crianças. De acordo com os dados trazidos por Ceccantini, no Brasil, grande parte do contato dos leitores começa pela escola, seja ela pública ou particular. Para eles, essa mediação não deve tornar os livros apenas pedagógicos e conteudistas; e, em referência a Italo Calvino, eles concordam que livros também devam divertir e proporcionar prazer aos pequenos leitores.

Numa frase similar à atribuída a Confúcio sobre a necessidade de comprar arroz e flores; arroz para viver e flores para ter pelo quê viver, Bel Santos Mayer falou sobre a educação e a arte na literatura como uma dupla intrinsecamente conectada.

 “Arte e educação caminham juntas. É assim que crianças podem reconhecer traços de um artista, referências de um autor e, a partir de um livro, devorar mais cinco”, diz Bel, que completa: “Assim como quem semanalmente vem comprar maçãs ou flores na feira de rua do Pacaembu, e hoje encontrou livros no caminho e descobriu que esse espaço dá para ser dividido entre os dois”.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.