Sol, praça cheia e até lágrimas: começou A Feira do Livro 2024

A Feira do Livro,

Sol, praça cheia e até lágrimas: começou A Feira do Livro 2024

Primeiro dia do festival literário teve embates entre esquerda e direita; debates sobre a escrita das mulheres; revelações de um grande sambista e emoção na plateia

30jun2024 - 12h09 • 10jul2024 - 10h54

Céu aberto, grande presença de público e momentos marcantes nas primeiras mesas da programação oficial. A Feira do Livro 2024 começou neste sábado (29) trazendo para a praça Charles Miller, no bairro paulistano do Pacaembu, leitores dispostos a ocupar a rua junto com os autores convidados da terceira edição do festival literário, que acontece até o próximo domingo (7). 

Debates sobre os embates políticos entre esquerda e direita hoje, novos ventos na arqueologia e na escrita das mulheres, a atração do mundo do crime, além de revelações de um grande sambista brasileiro — e um momento emocionante em que plateia e convidados vieram às lágrimas — foram destaques no primeiro dia d’A Feira.

Começo e final literário

Como um bom festival literário, o dia começou, acabou e foi salpicado por conversas sobre literatura. Abrindo o festival, a escritora francesa Hannelore Cayre, que publicou este ano o romance policial A patroa (Dublinense), falou sobre como o mundo de hoje, em que o dinheiro compra até sentimentos, na visão dela, leva pessoas vulneráveis a entrar para a criminalidade. 

(Filipe Redondo)

Cayre disse que a protagonista do seu romance, que trabalha traduzindo depoimentos em árabe para a Justiça francesa e acaba se transformando em líder criminosa, espelha a situação de quem não tem outra possibilidade que não transgredir a lei. “O Estado a trata mal, ela não tem dinheiro. Ninguém que leu o livro diz que o que ela faz é imoral. Dizem que, no lugar dela, fariam a mesma coisa”, contou na mesa “Mundo do crime”.

Na primeira mesa d’A Feira do Livro a reunir duas escritoras, o tema foi a escrita das mulheres — e a invisibilidade dessa escrita. Na conversa entre a brasileira Andréa del Fuego e a argentina Betina González, que acabou de lançar a coletânea de ensaios A obrigação de ser genial (Bazar do Tempo), González contou que a ideia para o ensaio que dá título ao livro veio de um texto do escritor Ricardo Piglia. 

“Ele dizia que quando um escritor está marginalizado, tem a obrigação de ser genial para deixar de ser marginalizado. Então, pensei que é isso que acontece com todas as mulheres escritoras, que têm que ser geniais para superar todos os obstáculos para publicar”, disse na mesa “Apenas escritoras”, mediada por Beatriz Muylaert, editora da Quatro Cinco Um.

(Filipe Redondo)

Del Fuego lembrou do aumento de publicações escritas por mulheres e ressaltou que outros espaços estão sendo ocupados. “O que eu vejo é que não basta mulheres escreverem mais, mas toda a cadeia estar ocupada por mulheres. São mais mulheres editoras, curadoras, capistas, preparadoras, organizadoras de clubes de livros. E também somos mais leitoras. Então eu vejo uma cadeia ocupada. Não sei se isso é um otimismo, mas acho que é um caminho sem volta.”

(Filipe Redondo)

O último encontro do dia trouxe o premiado Stênio Gardel, que falou no Palco da Praça para uma plateia lotada sobre o ato de escrever, inspirações e significados da literatura. O escritor cearense conversou com o editor Schneider Carpeggiani na mesa “A palavra que resta”, título do seu romance de estreia, publicado em 2022 pela Companhia das Letras. No ano passado, ele e sua tradutora Bruna Dantas Lobato se tornaram os primeiros brasileiros a ganhar o National Book Award, principal prêmio do mercado editorial norte-americano, na categoria obra traduzida. 

Gardel falou sobre a trajetória percorrida pelo romance até aqui e contou como vem encontrando significados inesperados da história no encontro com os leitores. “A relação dos leitores com os personagens, ver, sentir e ouvir como eles acessam o que está para além das palavras é muito bonito”, disse. 

Lutos e revelações

No final da manhã do sábado, o Palco da Praça já estava lotadíssimo para uma sessão com dois psiquiatras. A mesa “Lutos finitos e infinitos”, entre a escritora e psiquiatra Natalia Timerman e o também escritor e psicanalista Christian Dunker, foi a mais cheia e a mais íntima do dia.

Em As pequenas chances (Todavia), Timerman escreve sobre a morte do pai, e em Lutos finitos e infinitos (Paidós), Dunker mescla sua faceta de psicanalista com a do filho que perdeu a mãe. Na conversa eles falaram sobre a literatura da perda — “Escrever é o que se faz quando não há mais nada a fazer”, disse Timerman —, trataram da escrita em primeira pessoa e revelaram histórias íntimas. 

(Matias Maxx)

“Tive um sonho que impôs a ideia de fazer o livro e conectou vários lutos; o da minha mãe, da minha avó, de meu pai que morreu há trinta anos, meu avô que morreu na Rússia, a morte de Marielle Franco, os mortos da Covid”, disse Dunker. Houve momentos que levaram a mediadora Tati Bernardi, os autores e a plateia às lágrimas — outros, no entanto, foram de muito riso. “Humor também salva”, lembrou Bernardi.

Esquerda, direita, aqui e por aí

O mundo das incertezas políticas foi objeto da análise do historiador e político português Rui Tavares, que conversou com o cientista político Sergio Fausto na mesa “Esquerda e direita sem extremos”, com mediação da cientista política Camila Rocha, sobre a realidade de vários países em que a extrema direita tem conquistado espaço. 

Tavares defendeu que, para reverter esse cenário, as forças democráticas precisam apresentar propostas que mobilizem o desejo no lugar do medo. Diretor da Fundação Fernando Henrique Cardoso, Fausto ressaltou que quando a esquerda perdeu a capacidade de apontar um futuro, perdeu também a capacidade de atração política. Já a direita, na visão dele, inventou uma resposta, “tipicamente reacionária”.

(Filipe Redondo)

Em outra mesa, “Transformação social”, a socióloga Neca Setubal, autora do livro de memórias Minha escolha pela ação social: sobre legados, territórios e democracia, e a psicóloga Inês Lafer, falaram sobre a responsabilidade individual na construção de uma sociedade mais coletiva e igualitária. A conversa teve mediação da jornalista Carol Pires, autora do podcast Desiguais.

“O grande desafio é sair da emergência e pensar em ‘qual é o meu papel neste país em que a gente vive?’”, provocou Setubal. Segundo a socióloga, parte da sociedade tem dificuldade de ser solidária no dia a dia. “Naturalizamos as pessoas em situação de rua, tem gente que não quer nem ver, que desvia o caminho. Naturalizamos que quem ganha 20 mil reais já faz parte da categoria do 1% mais rico do Brasil”, afirmou.

(Filipe Redondo)

Lafer falou sobre como a ação social pode ser a chave para reconstruir o debate público brasileiro. “A filantropia consegue dialogar com a política pública, servindo, inclusive, como ferramenta de pressão externa da sociedade”, disse a psicóloga. “Hoje, em algumas políticas no Congresso você precisa de pressão externa da sociedade para que governos e deputados tomem decisões ou elaborem leis mais republicanas.”

(Filipe Redondo)

O primeiro dia d’A Feira teve ainda espaço para debater história e diplomacia. Na mesa “Meninos, eu vi”, o ex-ministro do Meio Ambiente e da Fazenda Rubens Ricupero, com longa trajetória no Itamaraty, fez avaliações sobre o cenário nacional e internacional. O ex-embaixador nos EUA e Itália, que acaba de lançar suas Memórias (Editora Unesp), disse ter confiança no Brasil. “O futuro do Brasil não é tão preocupante porque recuperamos certa normalidade depois do pesadelo que passamos”, declarou. “Tenho confiança no Brasil porque pela primeira vez estamos incorporando à vida ativa contingentes enormes que estavam excluídos — em primeiro lugar as mulheres, mas também negros, indigenas, pobres.”

Já o cenário internacional é mais incerto e preocupante, disse, especialmente diante da ascensão da extrema direita e das mudanças climáticas. “A extrema direita recusa as evidências e nos faz perder um tempo precioso. Há outros problemas, mas se não olharmos para esse [a crise climática], não vai importar muito, porque não estaremos aqui.”

Variedades

(Matias Maxx)

Na parte da tarde, o Palco da Praça teve uma programação variada, tratando de arte, ciência e música. A artista visual Lenora de Barros conversou com Ana Carolina Ralston, jornalista e curadora da feira de arte ArPa, sobre linguagem artística e sua trajetória desde os anos 70. “Como artista visual, eu quero falar também da maleabilidade, da língua molenga e descontrolada, dessa que é uma espinha dorsal para o domínio sobre si”, disse Barros na mesa “Minha língua”

(Matias Maxx)

Em seguida, na mesa “Admirável mundo novo”, vieram os jornalistas Adriana Abujamra e Bernardo Esteves, autores de livros que tratam de personagens importantes e do fascinante debate sobre a chegada dos primeiros humanos às Américas, que foi despertado por descobertas recentes da arqueologia brasileira. Na conversa mediada pelo arqueólogo Eduardo Neves, os convidados falaram do papel da arqueóloga Niède Guidon, criadora do Parque Nacional da Serra da Capivara, onde foi localizado um dos sítios arqueológicos mais antigos do continente.

(Matias Maxx)

Devagar, devagarinho, sem pressa, o sambista Martinho da Vila compartilhou histórias do seu recém-lançado livro de memórias, Martinho da vida (Planeta), na mesa “Devagarinho e sempre”. Numa conversa com a jornalista da TV Cultura Adriana Couto, com plateia cheia, o cantor, compositor e autor carioca revelou que seu batismo artístico se deu em terras paulistanas. “Nasci no Rio de Janeiro, mas para a música em geral, eu nasci em São Paulo, no Festival de Música da Record.” O ano, disse, era 1967, quando ele concorreu com a música “Menina Moça”, primeiro samba de partido-alto inscrito num festival de música brasileira.A Feira do Livro acontece até o outro domingo, 9 de julho, e seguirá com uma programação de mesas com temas variados, gratuitas e aberta ao público, ao longo do dia nos finais de semana, e na parte da tarde e noite durante a semana.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.