A Feira do Livro,

Jericho Brown transborda felicidade e fala de amor na Feira do Livro

Poeta estadunidense conversa sobre ‘A tradição’, vencedor do Pulitzer, com a tradutora de seu livro

10jun2023 - 12h56 | Edição #70

“Quando morrer, quero que digam que fui um poeta que escrevia sobre o amor, não importa quão brutais ou violentos os poemas possam ser", disse Jericho Brown na mesa A tradição – nome também do livro que lhe rendeu o prêmio Pulitzer de poesia em 2020.

O poeta estadunidense esteve n’A Feira na tarde de sexta, 9, para uma conversa com a tradutora de seu livro, a também poeta Stephanie Borges. Gargalhando de felicidade a cada pergunta ou comentário, tanto da companheira de mesa quanto do público, Brown falou sobre A tradição (o livro) e as tradições que nutrem seu trabalho – dos seus pais, dos que vieram antes, da poesia grega.


O poeta estadunidense Jericho Brown [Sean Vadaru/Divulgação]

“Muitas pessoas colocam o artista negro numa caixinha. A gente fala de assuntos como raça, identidade e gênero. Mas quero falar dos gregos também. Pensar sobre Afrodite e Adônis de uma forma negra. Não é divertido? Podem tentar em casa”, disse, para deleite da plateia que acompanhou as gargalhadas do poeta – algo que se repetiu em vários momentos da conversa.

Durante a mesa, Brown leu em inglês alguns poemas de seu livro – “Antes de nascer o dia”, “Duplex” e “Pontos importantes” – lidos em seguida por Stephanie Borges em português.


A mediadora Stephanie Borges [Sean Vadaru/Divulgação]

Brown disse que seus poemas são de cunho político, mas que não se senta para escrever textos de cunho político. O que o atrai é falar a verdade prestando atenção na linguagem, nas metáforas, nos som das palavras. “Abordar questões sociais e políticas acontece naturalmente. Se isso vai mudar as pessoas, ótimo, mas não penso nisso. Me sento para escrever e me divirto muito.”

Ele definiu a poesia como a forma de arte mais íntima e, por isso, a mais vulnerável e afirmou que para escrever tem que amar muito o ofício – e não o sucesso, os prêmios e as honrarias –, escrever como quem faz amor. “Se chegar bem próximo dessa zona de amor, você vai escrever seu poema e vai estar no Brasil falando de seu trabalho”.

Sobre o Pulitzer, disse que se arriscou em certas coisas, deu a cara para bater, mas que também o tempo estava a seu favor, com as ondas de protestos contra o racismo nos Estados Unidos, o “verão da justiça social” em 2020. “Acho que esses acontecimentos disseram ao establishment ‘abra seus olhos’”.

Voltando ao aspecto amoroso-erótico de sua poesia, Brown disse que tudo vem do amor à vida, o amor de se comunicar pelo toque, pelo abraço ou pela palavra e que existem dois sentimentos mais importantes, o amor e o medo – “E o medo é o de perder o amor”.


Jericho Brown e Stephanie Borges [Sean Vadaru/Divulgação]

E terminou elogiando a amorosidade brasileira – e, de certa forma, o poder universal das palavras. “Meu Deus, quanta gente linda aqui. Você encontra alguém e diz que não fala português, a pessoa te responde que não fala inglês e continua conversando com você do mesmo jeito”, arrematou, com sua gargalhada deliciosa.

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.