A Feira do Livro,

“Ideia de que toda pessoa negra é suspeita nunca foi revista no Brasil”, diz Ynaê Lopes dos Santos

Historiadores discutem como o racismo é central em nossa formação de país

10jun2023 - 01h04 | Edição #70

A construção e atualização do racismo no Brasil e a percepção do tráfico de pessoas escravizadas como elemento estruturante da nossa formação foram os temas centrais da mesa Crônica do racismo à brasileira, que reuniu a historiadora Ynaê Lopes dos Santos e o psicólogo social Márcio Farias nesta sexta, 9, n’A Feira do Livro. 

Autora de Racismo brasileiro: uma história da formação do país (Todavia), Santos explicou como o racismo é um sistema de poder que funda a modernidade, momento a partir do qual diferentes localidades do globo se conectam em grande parte pelos interesses de exploração europeu.


A historiadora Ynaê Lopes dos Santos [Gabriel Guarany/Divulgação]

A historiadora defende que não há possibilidade de pensar a história brasileira sem o racismo, que vai se atualizando ao longo dos séculos. “Durante muito tempo aprendemos a história a partir do ciclos econômicos, da cana, ouro, café. Se formos ver do ponto de vista econômico, o maior ciclo é o do tráfico transatlântico de escravizados”, disse. 

Autor, entre outros títulos, de Clóvis Moura e o Brasil (Dandara), Márcio Farias explicou por que o intelectual negro apostava em uma ideia radical de refundação do Brasil, já que não via possibilidade de mudança com nenhum tipo de de conciliação. 

“Clóvis Moura queria debater com a esquerda branca, um dos grandes agentes de sua exclusão, que ele chamava de marxismo desdentado”, disse. Segundo o pesquisador, Moura dizia que essa parcela via a população negra e pobre apenas como “cobaias sociológicas” para suas teses — e pagou um preço por isso. 


O psicólogo social Márcio Farias [Gabriel Guarany/Divulgação]

Suspeitos a priori

Ao debater a questão da segurança pública numa perspectiva histórica, Ynaê Lopes do Santos relembrou como uma política de segurança da época da Corte criou uma suspeição generalizada sobre qualquer pessoa negra, fosse escravizada ou não. 

“Isso é algo que nunca foi revisto na história do Brasil. Continuamos mantendo a ideia que qualquer pessoa negra é suspeita a priori. Essa ideia continua pautando a política brasileira na segurança pública”, disse a historiadora. 

Lopes rememorou que, com a abolição da escravidão, o exercício da cidadania passou a ser determinado não mais pela quantidade de posses e sim pelo nível educacional. “Havia uma grande população negra livre que poderia ter direito a voto. A elite é muito perspicaz em não permitir que a população negra não consiga exercer sua cidadania”, disse. 

Márcio Farias recorreu a outro ensaio crítico de Clóvis Moura, O negro, de bom escravo a mau cidadão (Dandara), para ressaltar a política deliberada de exclusão neste período. “Uma população que serviu de força de trabalho durante quatro séculos e, em três décadas, se resolve que não serviria para a cidadania.”

Racismo estrutural

Os dois autores também debateram sobre o uso corrente do termo racismo estrutural, ao responder a perguntas da plateia. Ynaê dos Santos Lopes observou as contradições a que mesmo alguns avanços conquistados pela luta antirracista no Brasil podem gerar. 

“Quando as cotas foram implantadas, elas atingem o mesmo público que é morto pela polícia. Por um lado, temos uma política pública que facilita o acesso de pessoas a esse lugar de elite e poder que é a academia, mas ao mesmo tempo a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado pela polícia”, disse, lembrando que no país a luta contra o racismo tem de ser necessariamente coletiva.

Márcio Farias disse que, diante de uma elite muito bem articulada, o desafio não é pequeno. “Temos conseguido pequenas e pontuais vitórias. Infelizmente, entendo que a violência é um traço inerente à nossa formação social. É um dever cívico declarar esse absurdo, onde estivermos. A intelectualidade precisa se radicalizar ou estaremos mortos.”

A Feira do Livro acontece de 7 a 11 de junho na praça Charles Miller, no Pacaembu, em São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #70 em maio de 2023.