Capa,

Reportagem casca-grossa

Seb Agresti retrata um jornalista da velha guarda na capa de maio

01maio2019

Pode ser a capa de um livro de Haruki Murakami, uma ilustração para um artigo da revista New Yorker sobre privacidade digital ou uma campanha publicitária de sais de banho com essência de abacate. Vindos de um raio que cobre de Madri ao Texas, os pedidos de diretores de arte que pipocam na tela do computador de Seb Agresti têm tornado a rotina do ilustrador intensa desde que deixou um emprego numa loja de materiais artísticos em Roterdã, há cerca de dois anos.

Um dos frilas mais recentes veio de São Paulo: ilustrar a capa da edição de maio da Quatro Cinco Um, que traz um material especial sobre repórteres.

Influenciado pelos filmes noir aos quais assistia na infância com seu pai, Agresti concebeu um jornalista da velha guarda, daqueles fumantes inverterados ao estilo do personagem de Jack Lemmon em A primeira página (1974), de Billy Wilder. 

A revista dos livros conversou com esse ilustrador que, aos 29 anos, já acumula um porfólio extenso é um colaborador frequente de veículos como The New Yorker, The New York Times e Die Zeit.

Qual foi a ideia da capa? Eu comecei listando os diferentes objetos que um jornalista pode usar. De partida, decidi que queria usar uma máquina de escrever e uma lupa – mesmo que um repórter nunca use uma lupa, eu gosto do simbolismo dela.

Depois, movimentei cada um dos objetos separadamente dentro da composição, brincando com eles como se fossem partes de um quebra-cabeça. Eu queria, de alguma forma, incorporar a manchete da revista na ilustração em vez de simplesmente alocá-la em algum lugar. Por isso, surgiu a ideia de criar um espaço vazio no papel da máquina.

Nessa ilustração, o uso das mãos interagindo com os objetos dá a impressão de se estar olhando por sombre os ombros do repórter, o que dinamiza a imagem.

É evidente a referência a um repórter das antigas, desses que aparecem em filmes noir. Por que a escolha? Como imagina a profissão hoje em dia? Assim como várias outras profissões (inclusive a minha), a maioria das tarefas é realizada por meio de celulares ou computadores, e é exatamente essas ferramentas que eu acho que um jornalista usa. Mas isso mata o aspecto romântico da profissão. O que eu gosto de um objeto como a máquina de escrever é que se trata de uma máquina com uma única função: escrever. Além disso, simboliza um escritor de forma muito mais clara do que um dispositivo moderno faria.

Já a influência do cinema noir é algo que esporadicamente aparece no meu trabalho, provavelmente porque cresci assistindo a filmes em preto e branco junto com meu pai. Ao pensar num repórter, as primeiras imagens que me vem à mente são as da redação do Cidadão Kane, e não aquilo que se vê no ambiente de trabalho de um jornal contemporâneo.

Qual é a importância do jornalismo hoje em dia? Fazer jornalismo é informar as pessoas e dizer a verdade. É por isso que é muito doloroso políticos como os do meu país começam a atacar profissionais e veículos de imprensa, o que acontece, na maior parte do tempo, porque essas pessoas discordam daquilo que está escrito ou porque têm algo a esconder. Faz sentido, se você pensar que o bom jornalismo mudou a opinião pública a respeito de guerras, mandou gente que merecia para a cadeia, e, mais recentemente, ampliou discussões importantes como a do #MeToo.

Eu estive em Nova York recentemente e visitei a sede do New York Times em Nova Iorque. Pude ver como é gigantesca a estrutura de uma empresa jornalística, e acho que as pessoas não estão cientes da quantidade de pessoas envolvidas na apuração de uma notícia. Não se trata da visão enviesada de uma pessoa, mas sim do esforço colaborativo de um grupo de pessoas, incluindo checadores de fatos e fontes.

Como é seu ambiente de trabalho? Parece com a escrivaninha da capa? Embora eu goste muito de desenhar cigarros, eles não aparecem na minha escrivaninha faz tempo, já que eu parei de fumar. Na verdade, eu tenho três escrivaninhas diferentes no meu estúdio: a mesa de desenho, cheia de borrões de grafite e manchas de tinta; uma mesa mais arrumada, onde eu deixo meu iMac e o meu tablet de desenho; e uma outra bem grande, no meio do estúdio, que uso para conversar com meus clientes ou amigos e para embalar as ilustrações que eu vendo na minha loja virtual.

Poderia descrever seu processo criativo? Depende do projeto  e do meu humor. A maioria começa com leitura e pesquisa sobre o tema, uma das minhas tarefas preferidas, quando aprendo um monte de coisas. Depois disso, escrevo palavras-chave e vou fazendo associações, o que é muito mais rápido e prático do que simplesmente desenhar as ideias que surgem. Para mim, desenvolver ideias criativas geralmente é o ato de conectar fenômenos aparentemente diferentes e não relacionados e fazer uma combinação original a partir deles.

Depois de vários testes de tentativa e erro, rabisco as ideias básicas no papel, geralmente no verso de uma versão impressa do artigo encomendado. E então desenho esses rascunhos mais detalhadamente no iPad, antes de transferi-los para o Adobe Illustrator para fazer o traço final e colorir.

Conhece algum artista brasileiro? Pirei na primeira vez que vi o trabalho de Os Gemeos numa revista, quando tinha catorze anos. Eles seguem fazendo um trabalho fantástico recentemente tive a oportunidade de ver o primeiro mural deles ao vivo, em Lisboa. Incrível.

Já a Tarsila do Amaral é uma das minhas pintoras favoritas. Eu a descobri na capa de um livro do Gabriel García Márquez, anos atrás. Adoro suas paisagens, elas me influenciaram muito.

@seb_agresti
www.sebagresti.com

Quem escreveu esse texto

Antonio Mammi

É editor do Nexo Jornal.